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| IV Encontro Leituras de obras de arte e discussão acerca do lugar da apreciação na sala de aula de acordo com os Parâmetros Curriculares Nacionais de 28 a 31 de julho Palestras de:
O objetivo dessa reflexão é focalizar o conceito de Apreciação relacionado ao processo de ensino e aprendizagem da Arte, através de uma leitura do poema de Jacques Prévert, cujo título encabeça este texto. "Primeiro pintar uma
gaiola A Apreciação, ou leitura de formas artísticas, outros objetos culturais e formas da natureza pode ser incluída na proposta curricular da Área de Arte dentro da escola como uma porta aberta, algo de simples e belo para o aluno/pássaro. Porque a experiência estética é parte integrante do conjunto de conhecimentos relativos à Arte, sendo portanto um dos eixos que fundamentam a sua aprendizagem. Tal formulação enquadra-se tanto em uma dimensão atemporal, quanto faz parte de uma dimensão histórica dentro do ensino da Arte. No primeiro caso, pode-se dizer que a apreciação, contemplação ou encontro significativo do ser humano com formas criadas por ele ou pela natureza, tem moldado, ao longo dos tempos, os desenhos simbólicos das mais diversas culturas. Por outro lado, vista historicamente, esta formulação inscreve-se na tendência atual que visa estabelecer os contornos epistemológicos do ensino e aprendizagem da Arte, concretizada de vários modos em outras partes do mundo, e particularmente no Brasil pela Proposta Triangular articulada por Ana Mae Barbosa, além de compor a estrutura conceitual dos Parâmetros Curriculares Nacionais para a Área de Arte (1). O ponto de partida dessa reflexão é uma determinada visão sobre a importância da Arte na formação do ser humano: para ser fecunda e eficaz a aprendizagem artística requer uma proposta de ensino que possa instrumentar o aluno para a compreensão do sentido e dos recursos técnicos necessários para sua ação, entendida aqui como um jogo de configurações formais, artísticas e estéticas, de sua experiência de si mesmo e do mundo. São exemplos de configurações formais dentro da experiência do aluno em contato com a Arte tanto as produções concretas por ele realizadas, quanto exercícios de apreciação de seus trabalhos e dos colegas, de obras de Arte, ou outras formas do universo à sua volta, bem como formulações que este aluno possa elaborar a partir de seus conhecimentos sobre a Arte enquanto fenômeno situado na História, cumprindo determinadas funções em cada cultura. Dito de outra maneira, o conhecimento da natureza da Arte, como o ponto de encontro de vários níveis de realidade histórico, ideológico, simbólico poético pode alicerçar a elaboração, pelo aluno, de um quadro de referências que dimensiona "o porque, o que e como" apropriar-se de sua própria experiência artística e estética como uma ação criadora e transformadora que faz sentido, que se coloca e o coloca como sujeito pertencente a uma múltipla realidade: é como se ele pudesse assim compreender que sua arte existe porque a Arte existe. Que seu contato com a arte pode ser significativo porque a Arte sempre foi significativa em todos os tempos e lugares. Esta idéia, de uma certa forma, está contida também na tendência reconstrutivista do ensino da Arte, uma abordagem pós moderna que busca estabelecer uma ponte entre a educação instrumentalista através da Arte e a essencialista em Arte , focalizando a importância do papel crítico do indivíduo na sociedade, chamando a atenção ao mesmo tempo para a arte popular e de outras culturas. Nas palavras de Kerry Freedman: "a Arte-educação socialmente reconstruída pode enriquecer a compreensão do estudante pela inclusão do ensino sobre o imenso poder da cultura visual, a responsabilidade social que surge com esse poder e a necessidade de integrar a produção criativa, interpretação e crítica na vida contemporânea" (2). No entanto, tal conhecimento para ser genuíno não pode ser enclausurado num modo de apreensão apenas racional ou lógico discursivo, que privaria o aluno da dimensão poética, misteriosa, incomensurável que caracteriza o poder peculiar da experiência de contato com a Arte: "O pensamento poético faz viver em nós aquilo que ainda não existe", diz P. Valéry (3 ). "...depois dependurar
a tela numa árvore A paisagem da Arte deve ser percorrida pelo aluno como uma história pessoal de descobertas, riscos, obstáculos, conquistas, através de formas que produzem encanto, pergunta, divertimento, inquietação, horror, num caminho em que o olho percebe que atrás do olhar, pode ver; que a mão, atrás de tocar, pode encontrar a pulsação da matéria; que o ouvido pode distinguir sonoridades e timbres; que o olfato pode respirar o âmago das coisas, que a memória pode despertar imagens esquecidas; que o pensamento, enfim, atrás de organizar palavras, pode inventar a prosa pessoal de significar o mundo. Ou seja, é necessário um percurso de aprendizagem, que, longe de ser espontâneo, requer uma proposta de trabalho claramente delineada pelo professor, em termos de propósitos, objetivos, orientações didáticas, conteúdos e procedimentos de avaliação. Porém, pendurar a tela num jardim, num bosque ou numa floresta, sem nada dizer, esperando o tempo de cada aluno/pássaro chegar, é parte importante da função do professor como instrumentador. "...Quando o pássaro
chegar A experiência de liberdade do aluno/pássaro dentro do quadro/Arte, depende de uma instrumentação silenciosa, na qual a ação do professor de apagar as grades, corresponderia principalmente a uma qualidade intrínseca a qualquer proposta por ele elaborada: a qualidade de propiciar o desenvolvimento da inteligência qualitativa do aluno, segundo a acepção desse termo definida por J. Dewey (4). Ou seja, sua capacidade de fazer relações significativas entre diferentes tipos de atividades que envolvem fazer, apreciar e buscar compreender a função da Arte na História e nas culturas diversas. Em todas as suas atividades, é importante que o aluno seja confrontado com desafios que lhe proponham estabelecer relações significativas: no plano conceptivo que diz respeito à sua capacidade de conceber desenhos imaginários do que pode vir a ser, visualizando a intenção do seu trabalho. Esta capacidade pode ser enriquecida, quando o aluno compartilha o desenho imaginário de artistas, que está por dentro das obras observadas, ou imaginando o que está em volta das obras apreciadas, elementos históricos e culturais, a vida dos artistas, o desenho das moradias, dos objetos de uso diário, das roupas e assim por diante. Nesse plano, o aluno pode passear por uma espécie de armazém que abriga diversos conjuntos de imagens, que atestam a capacidade do ser humano de sonhar/conceber sua existência, de projetar imaginariamente aquilo que será ou não construído concretamente. no plano perceptivo que envolve a ampliação e o aguçamento dos sentidos para que o aluno possa aprender a distinguir qualidades nas formas realizadas e observadas por ele, percebendo relações das formas entre si, das formas com o espaço circundante, relações entre materiais e técnicas, entre materiais e suas possibilidades expressivas. Além disso, perceber quer dizer também entrar em contato com as repercussões e ressonâncias, como diz G. Bachelard, que as formas provocam em cada um, em termos de emoções, lembranças, intuições, pensamentos. no plano produtivo onde se dão as articulações entre o conceber, o perceber e o configurar, na ação de transformar imagens internas através da utilização de recursos técnicos em contato com as possibilidades expressivas dos materiais em formas exteriores, que realizem de modo significativo um propósito criador. Nesse plano, então o aluno exercita sua capacidade de configurar a concretude do desenho imaginário e perceptivo, no diálogo produtivo/poético com materiais e técnicas. Esta capacidade é responsável pelo seu modo pessoal de produzir um trabalho artístico, de configurar o instante de sua apreciação estética, de formular de maneira própria concepções sobre Arte, artistas, técnicas e materiais. Por isso a idéia de pensamento poético, na frase citada de P. Valery, é tão eloqüente, pois fazer relações entre e através dos diferentes aspectos do conhecimento da Arte é uma atividade de pensar que perpassa todo o processo de aprendizagem artística. Trata-se de um pensar específico da Arte, inerente a uma práxis poética, envolvendo uma reciprocidade entre ação e reflexão, cujo poder reside na centelha imaginativa que faz presente em cada um a experiência "do que ainda não existe", citando outra vez Valéry. "...Fazer depois o
desenho da árvore Nesse sentido, o termo Apreciação é aqui apresentado como um núcleo de aprendizagem que não se refere especificamente a uma determinada atividade, nem se restringe a uma tendência particular, mas em vez disso abarca uma múltipla rede de possíveis relações entre diferentes âmbitos de realidade em que a Arte se inscreve. Por exemplo, observar atentamente uma obra de arte, tem como objetivo último propiciar ao aluno uma experiência de intimidade, um encontro significativo que amplia seu conhecimento, afirmando suas próprias possibilidades criadoras e sua capacidade de compreender o lugar que a Arte pode desempenhar na sua vida e no mundo em que vive. "A experiência artística transforma o distinto e distante em íntimo", diz A. L. Quintás (5). O instante da apreciação requer antes de mais nada um convite, por parte do professor, à curiosidade viva do aluno. Ser capaz de pintar uma gaiola com a porta aberta, depende do conhecimento do professor de como as crianças aprendem, qual seu repertório de imagens culturais, como elas fazem a leitura dos objetos do mundo, suas indagações e preferências sobre o que chamam de Arte. Ao mesmo tempo, o modo de aproximar-se do aluno requer também a curiosidade viva do professor, para que ele possa aventurar-se, para não correr o risco de trazer propostas reducionistas, apresentadas como tarefas monótonas a cumprir, ou discussões maçantes, supostamente críticas, sobre diversidade ou identidade cultural. É preciso um eixo aglutinador que abarque o sentido maior da experiência de apreciar. A gaiola com a porta aberta, algo de útil para o pássaro, a tela dependurada num jardim, esconder-se em silêncio à espera do pássaro, fechar a porta e apagar as grades quando ele estiver lá dentro, desenhar a árvore, os verdes, os barulhos e o calor. Então sim, uma atividade de percepção das qualidades formais de uma obra, a descoberta da sintaxe e da gramática tem lugar, dentro de um conjunto de significações. Apreciar, portanto, não se reduz à aprendizagem dos elementos e princípios de formatividade. Não se reduz à releitura de uma obra, o que tem sido prática constante nas escolas, quase sempre realizando o que chamo de moda Tarsilite, realizando uma ação pedagógica cuja tônica é a mecanicidade e a fragmentação. Não se reduz tão pouco a um encadeamento de dados informativos sobre o artista, o estilo e a época em que a obra foi realizada. Até mesmo a visão fecunda do multiculturalismo pós moderno corre o risco de uma distorsão reducionista, trazendo o perigo de transformar as aulas de Arte quase num clube de debate acadêmico. "...e depois esperar
que o pássaro queira cantar O núcleo multifacetado da apreciação, por exemplo, de uma obra de arte pode ser uma oportunidade para o aluno maravilhar-se/querer cantar, intrigar-se, fazer perguntas, divertir-se, discutir questões a partir da observação das soluções criadas pelo artista. Também pode ser uma oportunidade para que ele descubra a variedade das culturas humanas das construções de moradias, do papel diferente do homem e da mulher, dos objetos, crenças e valores nas regiões do mundo e nas regiões brasileiras. Assim, aquilo que é visão estereotipada do Outro, transforma-se em fonte de indagação e reflexão em contato com a obra de arte. Além disso, esse núcleo contém a possibilidade da descoberta da arte contemporânea, bastante próxima da realidade cotidiana do aluno, e que ao mesmo tempo traz grandes desafios perceptivos, subvertendo cânones e valores estéticos consagrados. A sua inclusão nas propostas do professor é fundamental como fonte de questionamento para o aluno a cerca do que é a arte do seu tempo e como é fazer arte pertencendo ao seu tempo. O núcleo da apreciação pode ser explorado em suas múltiplas possibilidades, ligadas a vários planos de realidades e a vários planos de aprendizagem do aluno, de tal maneira que a cada momento ele possa inventariar suas descobertas como subsídios para a realização de seus próprios trabalhos artísticos. E que durante seu percurso de captura e libertação da gaiola ele possa ir formando, aos poucos, uma concepção de arte que faça nascer dentro dele o desejo de cantar, tocado pela compreensão das qualidades da paisagem da Arte, que então tornou-se íntima para ele. "...Mas se ele cantar
bom sinal A partir dessa leitura metafórica do poema de Prévert, em que o caminho da apreciação do aluno é visto como uma experiência que depende da instrução para ser valorosa e transformadora, parece evidente que a recente elaboração dos Parâmetros Curriculares Nacionais tem uma contribuição histórica inestimável na orientação dos professores brasileiros. Possibilitar que o aluno/pássaro cante e então poder assinar o quadro junto com a pena do pássaro não é tarefa fácil, que só pode ser realizada a partir de uma formação sólida do professor, que precisa ele mesmo viver e conhecer a intimidade de ter sido capturado pela gaiola de porta aberta e ter sido libertado de suas grades para respirar as cores, os sons e o calor da paisagem da Arte. Os PCN são um primeiro passo, um convite à curiosidade viva dos professores, para que percorram os fundamentos, a história, os objetivos, os conteúdos, as orientações didáticas e os critérios de avaliação para o ensino da Arte em nosso país.
Parâmetros Curriculares Nacionais. Ministério da Educação e do Desporto. Secretaria do Ensino Fundamental. 1997. Cit. Por Clark, R. Art Education: issues in post modernist pedagogy. Reston. Virginia, Canadian Society for Education through Art, The National Art Education Assoc., 1996. Cit. Por Lopez Quintás. Estética. Petrópolis, R.J., Vozes, 1992. Dewey, J. Art as Experience. López Quintás, op. cit., p.16. |
Leia a íntegra das palestras:
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