[23|07|2004]
A mudança dos mercados culturais
Dentro das mesas desenvolvidas em torno do tema “Novas Configurações do Mundo: O Impacto sobre a Gestão e a Administração da Cultura”, o debate sobre a mudança de mercados culturais trouxe visões de origens diferentes à mesa. Moderado pela norte-americana Olga Garay, que trabalha em Nova York com programas de ajuda em meio ambiente, saúde, organizações culturais, fundações que apóiam o intercâmbio entre artistas norte-americanos e estrangeiros, o debate aconteceu em torno de temas como auto-gestão e interatividade, além das realidades de cada lugar.
O espanhol Andrés Morte iniciou o debate apresentando seu ponto de vista sobre as novas tendências artísticas e os novos meios de promoção e distribuição. Abordou a desordem das artes dizendo que “o caos renega a ordem e a memória para recuperar a aventura e o nomadismo cultural”. Os segmentos das artes dividem os artistas em tribos que se reúnem por afinidades. Eles são donos de seu próprio território e são responsáveis por manter seu ecossistema cultural fora de perigo. Disse também que os meios de informação devem guardar uma cota para o processo criativo do país, fomentar alternativas de cultura e expressões de artes genuínas.
“É preciso gerenciar a identidade, como enfocar este produto no mercado diverso, trazer as realidades próximas em detrimento das realidades globalizadas. É preciso preservar a “ecologia cultural” dos países e incluir as novas tecnologias. As redes digitais, radiodifusoras, devem ser permeáveis. Qualquer espaço para criação e difusão da produção cultural é viável, a criação pequena só existirá se a TV der acesso a ela. A ocupação cultural precisa ser auto-gestionável”, afirmou.
Segundo Morte, a criação de mercado parte do princípio da cadeia alimentar da cultura na qual o espectador é também criador e difusor. “O artista tem que ser empreendedor de sua própria criação, senão não sai nada. Ele tem que aprender a fazer auto-gestão, é muito difícil um empresário investir em algo que não conhece. Deve-se romper os trabalhos hierárquicos e a vaidade para que não falte espaço para os pequenos”, disse.
Uma outra realidade
Em seguida, o promotor de festivais de filmes e música e DJ, Youssuf Mahmoud, nascido no Reino Unido, mas residindo na Tanzânia desde 1988 promovendo a difusão e a criação da música local através do Zanzibar Festival. O objetivo é promover a apreciação da música e da cultura africana. Segundo ele, é uma cidade cosmopolita, com imigrantes de outras partes da África, da Índia e da Europa. Essa diversidade dos povos reflete-se na língua, na linguagem, na arquitetura, culinária e acaba havendo uma patética contradição. Zanzibar é uma das mais pobres civilizações do mundo, dos 80% dos empregados, a maioria tem um salário de um dólar por dia.
Ele se pergunta sobre a personalidade africana. “Por que importamos tantas coisas mais do que usamos as locais?”. A música em rádio é predominantemente americana, das “boys bands”, por muitos fatores, um deles é exatamente a pequena contribuição da cultura local em grandes eventos, em rádios, da “glocalização” do rap e hip hop. Hoje, em 2004, ele afirma que 80% da programação das rádios é produção local.
Na Tanzânia, Youssuf procura promover a construção de uma rede de trabalho e festivais, shows entre artistas locais para que possam se apresentar ao lado de outros nomes da Europa em outros espaços de concerto. Este trabalho busca dar valor à música tradicional, fazer ligações e trocas com a África do Sul, não somente em termos culturais, mas em aptidões técnicas também.
Os festivais promovidos por seu trabalho acabam por gerar o que ele chama de turismo cultural, a movimentação turística de Zanzibar é o próprio processo de desenvolvimento da cidade e do país. Ele se pergunta: “Como arranjar fundos para a realização destes festivais de filmes e de música?”. Para ele, os festivais devem ser acessíveis aos nativos e moradores, que muitas vezes a entrada tem que ser de graça, ou ao preço acessível de cinqüenta centavos para nativos e US$ 3,00 para estrangeiros. “Mas é possível financiar um projeto destes com este valor de ingresso?”, questiona Youssuf. “É um desafio”, responde.
“A Ford Foundation é o maior encorajador da troca de saberes, da promoção das artes. Mas é preciso mais dinheiro de fundos internacionais, de embaixadas, de organizações internacionais. Eu mesmo não ganho nada com estes festivais, no entanto, conseguimos bastante apoio. Em trabalho conjunto com o turismo, os hotéis concedem desconto e agências de turismo organizam pacotes econômicos para atrair estrangeiros para os festivais”, afirma.
Sobre a auto-gestão da arte, comentada por Andrés Morte, Youssuf acredita que o artista já tem muito o que fazer, e que ele não pode pensar em trabalhar sozinho, ele tem que fazer parcerias com outros, e que tem que, sim, conhecer a internet, marketing, produção. “Nós temos que desenvolver aptidões de produção”.
Experiência européia
Dubi Lenz, israelense, integrante do conselho diretor do EFWMF (European Forum of Worlwide Music Festivals), trabalha para a rádio pública nacional e é apresentador de um talk-show sobre música e arte popular. Dubi iniciou sua apresentação dizendo que é um típico cara de sorte que faz o que gosta e viaja o mundo. Que o melhor de viajar a trabalho é escutar outras línguas, conversar com outras pessoas, toca-las, conhecer suas tradições, conhecer instrumentos, sons e tradições remotos. E “nós pensamos em cultura, falamos cultura, mas não fazemos cultura”.
Contou sobre o trabalho da rede independente de festivais europeus. (www.efwmf.org), sobre o Womex (Music Expo) e o Strictly Mundial, este último com foco na educação e diminuição do preconceito e da xenofobia. Dubi disse que produtores são “vendedores de sonhos” e que o seu sonho é colocar para tocarem juntos palestinos e israelenses, pois a música permite esta comunicação. “A língua em comum é a música... eu gostaria de tentar juntar artistas de 10 países diferentes... música é a única arte que pode penetrar muros”, afirmou.
Em relação uma pergunta sobre o termo world music, Dubi diz que só o nome já daria um outro tema de debate e que é somente um nome encontrado por dois vendedores de discos na Inglaterra que não sabiam o que fazer com os discos étnicos. Agora estamos amarrados neste termo. Ele chega à conclusão que world music é tudo que não a sua própria. “Para mim, world music é a mistura de ritmos de várias nacionalidades”, finalizou.
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