A Idéia do Projeto

É consenso que a música de Antônio Carlos Jobim, o maior de nossos compositores populares - ainda que sua esfera de atuação, principalmente nos últimos 20 anos de carreira, aqueles que rumaram para um sotaque pós-bossa nova, de acento villalobiano, tenham tornado sempre mais tênue a fronteira que separa a criação popular daquela dita clássica, ou erudita - divide a história de nosso cancioneiro. Divide-a por muitos motivos. Inaugurou linguagens - adensou o corpo melódico-harmônico do samba-canção, tomando o caminho da bossa nova, ultrapassando esses limites, retomando (sem ufanismo tolo, mas com pulso amoroso) o nacionalismo consolidado por Villa, evoluindo com ele, cantando a natureza, as gentes, os tempos da terra brasilis, propondo o retrato sonoro do País a um tempo contemporâneo e impregnado das tradições; propôs, Jobim, que era poeta de qualidades extraordinárias, e auxiliado por seus grandes parceiros, de Newton Mendonça a Paulo César Pinheiro, um novo coloquial para a poesia da canção popular; e informou uma forma de orquestração rigorosamente peculiar, que lançava mão de elementos sinfônicos, usados com economia pré-minimalista, pós-impressionista, de toda forma descritiva, densa, apaixonada, que determinou a moderna forma de vestir orquestralmente a música de nossa terra.

Jobim começou a trabalhar, profissionalmente, na gravadora Continental, como arranjador, em 1952, data em que também gravou seu primeiro samba (no ano seguinte começaria a compor com Newton Mendonça e, em 1956, inaugurou a parceria com Vinícius de Moraes, fazendo a música da ópera negra Orfeu da Conceição. Dois anos antes, em 1954, havia lançado a Sinfonia do Rio de Janeiro, escrita com Billy Blanco e interpretada por pré-bossanovistas como Lúcio Alves, Dóris Monteiro, Dick Farney, Gilberto Milfont, Nora Ney, Os Cariocas, Elisete Cardoso e outros dos principais intérpretes da época.
Fiquemos nesses dois trabalhos - Orfeu e a Sinfonia. São discos que revelam a genialidade de Jobim em fazer música, em escolher parceiros, selecionar intérpretes; pensemos nos arranjos que fez para os artistas da Continental e outros _ o trabalho que tornou o compositor íntimo da orquestra e permitiu que se aprimorassem as concepções do arranjador. São belos e fundamentais trabalhos _ fundamentais para que se conte a história da música brasileira na segunda metade do século passado. Mas tudo o que Tom desenvolveu, como orquestrador, até 1959, foi subitamente, radicalmente modificado depois que, em 1959, saiu (pelo selo Festa, uma gravadora independente tocada pelo visionário produtor Irineu Garcia, preocupado em lançar trabalhos de qualidade artística, sem preocupações comerciais) o disco Por Toda a Minha Vida.

Era uma coleção de canções camerísticas, de Tom e Vinícius de Moraes, intepretadas por Lenita Bruno, com arranjos de seu então marido, o maestro Leo Peracchi, um músico paulista, nascido em 1911, ex-professor de Tom, ex-arranjador de emissoras de rádio de São Paulo e do Rio, integrante de grupos que buscavam modernizar a linguagem radiofônica, homem de formação erudita, autor de peças populares, sim, mas regente de grandes orquestras e coros sinfônicos - inclusive no exterior - e autor, também, de obras de cunho erudito.
Lenita era uma cantora lírica. Aquelas canções de Tom e Vinícius - Estrada Branca (só de Tom), Por Toda a Minha Vida, Serenata do Adeus (essa só do poeta), Canta, Canta Mais e as outras tinham, de fato, forte acento camerístico. Lenita era um soprano de voz delicada e pronúncia impecável. Naquele repertório, no limiar do popular e do clássico, alcançaria, por suas qualidades vocais e interpretativas, resultado que não poderia deixar de ser ótimo. O resultado, porém, foi admirável. Por causa dos arranjos de Leo Peracchi.
E não apenas admirável: as orquestrações do maestro deram à música de Tom sua sonoridade orquestral. Encontraram a maneira como a orquestra deveria soar para vestir a música de Tom. Estabeleceram os cânones daquilo que hoje é identificável como - som jobiniano. Para confirmar isso, basta ouvir o que Tom fez antes; ouvir Por Toda a Minha Vida; e ouvir o que Tom fez depois, escrevendo ele póprio os arranjos ou delegando a função a Klaus Ogerman, ou ao filho Paulo Jobim.

Não é absurdo supor que as orquestrações de Leo Peracchi para o disco Por Toda a Minha Vida tenham influenciado mesmo a escrita musical jobiniana. Certo, ele chegaria, mais cedo ou mais tarde, à concisão eloqüente de Boto, Casa Assassinada, Urubu, mas os elementos (não só de orquestração, mas mesmo de composição) que tais canções utilizam estão todos sugeridos no trabalho orquestral de Leo Peracchi em Por Toda a Minha Vida.
Não pretendo, aqui, dizer que Tom não seria Tom sem Leo. Mas estou em boa companhia quando digo que Leo definiu o gênero do - arranjo jobiniano - com perdão pelas aspas, um recurso de escritura que normalmente isola, como a uma espécie estranha trancada em jaula, a figura de linguagem. Mas como - arranjo jobiniano - é um gênero que acaba de ser criado - até onde me seja dado saber - couberam as aspas, que suprimo daqui em diante.
Estou em boa companhia, disse, porque acompanha-me na certeza gente como Dori Caymmi, Théo de Barros, Luiz Roberto de Oliveira, Eduardo Gudin - para falar dos que ainda podem confirmá-la. Mas é nítida a minha lembrança de uma conversa a respeito, num inverno, num bar, durante um festival, em Londrina, há coisa de 15 anos, com Luís Eça, que ouviu minha impressão e a adotou com o coração generoso e o sorriso doce que tanta falta nos faz. Lembro-me, ainda, de conversas tidas com o produtor Aloísio de Oliveira, em bares da zona sul carioca - sentávamos para horas de trocas de opiniões, nem sempre concordantes sobre música, sorvendo xícaras de café - eu queimava cigarros e cigarros. Quanto à importância de Leo Peracchi, pensávamos igual.

Outros músicos e interessados em música acharam isso, ao longo dos anos trancorridos desde aquela época. Apaixonado por Por Toda a Minha Vida, reconhecendo sua fundamental importância, um jovem Chico Buarque de Holanda usou de sua influência para, em 1969, dez anos depois do lançamento original, promover a reedição do disco, com capa diferente e outro texto de contracapa (o original era de Tom; Chico escreveu aquele novo).
Leo Peracchi morreu em 1993, esquecido e um tanto amargurado por tal esquecimento. Foi um regente importante, que morou muito tempo nos Estados Unidos, trabalhando à frente de grandes orquestras, um compositor importante de peças clássicas. Desde então, minha idéia obsedante de que era preciso estabelecer o vínculo entre a cara da música de Jobim e os arranjos de Tom tornou-se ainda mais obsessiva. Um interlocutor interessado em música acabaria ouvindo isso de mim, em algum momento.
Há dois anos, meu interlocutor foi Eduardo Jobim. Numa noite, sentamo-nos, em minha casa, para ouvir Por Toda a Minha Vida. Daquele momento em diante, Gudin passou a trabalhar num projeto que resgatasse a importância do mestre, que, aliás, foi seu professor. Mais uma vez, o Sesc, instituição que mais luta pela cultura brasileira entre todas as que dedicam alguma atenção a ela, serviu de porto seguro, criando, inclusive, um site dedicado ao maestro.
Nesses dois anos, algumas coincidências curiosas deram mais corpo à idéia de Gudin. A mais curiosa delas diz respeito às partituras originais de Por Toda a Minha Vida. Num contato telefônico com Mírian Peracchi, filha de Leo, Gudin perguntou se ela teria, por acaso, alguma coisa escrita pelo pai. Mírian respondeu que não tinha muito: apenas aquelas partituras do disco feito em 1959 com Lenita Bruno. Conspiração da sorte, vamos ouvir os arranjos originais nas vozes de intérpretes contemporâneas. Tire o público as suas conclusões.

Mauro Dias
Agosto, 2001