O "Negrinho das Marmitas" foi uma enciclopédia viva do samba paulistano. Ao morrer, já de cabeça branca, coordenador de Carnaval no Anhembi (entidade responsável então pelo turismo em São Paulo)e assessor da diretoria da Escola de Samba Vai-Vai, "Seo" Geraldo - como os sambistas de todas as escolas respeitosamente o tratavam - incluía em sua biografia passagem relevante como fundador, diretor ou colaborador, pela maioria das escolas de samba da cidade.
A ele não bastava o talento de compositor, a satisfação de criar belos sambas, de vê-los e ouvi-los cantados nos desfiles de carnaval. A causa era maior, era a preservação da cultura da raça, da qual foi um dos maiores expoentes. Por isso não deixou que a paixão o ligasse em definitivo a esta ou àquela agremiação.
Nascido em 1928, em São João da Boa Vista, interior de São Paulo, aportou menino na cidade e caiu no lugar certo, o bairro da Barra Funda. Ajudando a mãe, tornou-se entregador de marmitas, iniciando seu conhecimento da cultura do povo e a popularidade que o cercaria para sempre. Ouvindo os mais velhos cantar, foi fazendo da memória um arquivo de futuro valor inestimável e que jamais se furtou a consultas ou informações.
Tornar-se-ia normalmente compositor, ignorando a tradicional rivalidade entre a Barra Funda e o Bixiga e os demais redutos, transitando por escolas como a Camisa Verde, a Vai-Vai, Colorados do Brás, Unidos do Peruche, distribuindo por elas todas talento e sabedoria. Seu samba-prece Silêncio no Bixiga, homenagem ao amigo Pato N'Água, morto misteriosamente, até hoje é um hino de todos os sambistas paulistanos.
Morreu em 1995, às vésperas do carnaval, preocupado com os festejos de rua, usando o telefone do hospital para dar instruções para que tudo saísse bem, no desfile que não chegou a ver. Concedeu esta entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo, em 1992, aos 64 anos.

Arley Pereira
ENSAIO
1992

Eu era menino
Mamãe disse: vamos embora
Você vai ser batizado
No samba de Pirapora
Mamãe fez uma promessa
Para me vestir de anjo
Me vestiu de azul-celeste
Na cabeça um arranjo
Ouviu-se a voz do festeiro
No meio da multidão
Menino preto não sai
Aqui nessa procissão
Mamãe, mulher decidida
Ao santo pediu pediu perdão
Jogou minha asa fora
Me levou pro barracão
Lá no barraco
Tudo era alegria
Nego batia na zabumba
E o boi gemia
Iniciado o neguinho
Num batuque de terreiro
Samba de Piracicaba
Tietê e campineiro
Os bambas da Paulicéia
Não consigo esquecer
Fredericão na zabumba
Fazia a terra tremer
Cresci na roda de bamba
No meio da alegria
Eunice puxava o ponto
Dona Olímpia respondia
Sinhá caía na roda
Gastando a sua sandália
E a poeira levantava
Com o vento das sete saias
Lá no terreiro
Tudo era alegria
Nego batia na zabumba
E o boi gemia
Lá no terreiro
Tudo era alegria
Nego batia na zabumba
E o boi gemia.
Batuque de Pirapora, Geraldo Filme. Copyright by EDITORA MUSICAL ARLEQUIM LTDA.

***
Lá no largo da Banana, na Barra Funda, no largo da Banana, o ordenado era pequeno, o soldo era pequeno. Então, por cada tantos cachos de banana carregado eles ganhavam. Eles colocavam ali na praça para comércio. Na hora em que folgavam um pouquinho, eles armavam um samba e a gente era moleque, ficava olhando os velhos, não deixavam entrar na roda: "Sai daqui, moleque, chega pra lá". A gente ficava apreciando "os coroa" todos cantar e a gente guardou muita coisa e deu continuidade.
***
Pra mim, era 37. Eu tinha os meus 10 anos de idade. Depois de entregar as marmitas da pensão da velha, a gente corria pro largo da Banana ver a negrada lá.
***
Eu morava realmente nos Campos Elíseos. Minha mãe tinha uma pensão na Rio Branco, em frente ao palácio. Então, a gente entregava marmita, eu e o Zeca da Casa Verde. A mãe dele e minha mãe eram amigas, a mãe dele de Mococa, a minha mãe de São João da Boa Vista. Na época delas, elas iam pra bailes juntas, aquelas coisas todas, e a gente está junto desde menino. Tanto que a gente se considera parente desde garoto. Por sinal, entregamos marmita até para o falecido Adhemar de Barros, porque a pensão da minha mãe era em frente ao palácio. Antigamente, em São Paulo, qualquer coisa, o couro comia. Aqui em São Paulo não tinha brincadeira: o bonde subia um tostão, já saía revolução. Aquele tempo não era fácil. Então, tinha aquele problema de que iam envenenar o governador. A marmita ia de casa. Eu e o Zeca íamos levar a marmita escoltados por dois soldados.
***
Minha mãe tinha muita musicalidade, meu pai tocava violino nos choros. Eu tenho o instrumento até hoje. A minha velha me passou muita coisa, sabe? me ensinou a dançar, me ensinou ritmo. Muita coisa aprendi com minha mãe.
***
A avó? Minha avó não era brincadeira. Eu peguei um canto com a minha avó, que era o maior sarro. Dizia que as negas velhas escravas, quando nascia uma criança, entregavam pra elas como se fosse filha. Se a moça desse uma mancada então, elas sofriam demais. Então aconteceu o seguinte: lá na senzala, enquanto a nega velha tomava conta da criança (como se fosse o partido alto hoje), os nego velho nas casinhas metia a bronca no samba. Eles cantavam um negócio assim:

Oi tiá, tiá, tia
Oi tiá de Junqueira, tia
Oi tiá, tiá, tia