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Filho do
gerente da fábrica de tecidos Confiança, Carlos Alberto
Ferreira Braga começou a cantar numa época em que os moços
de família não podiam viver de música. Primeiro no
grupo amador A Flor do Tempo com os colegas de bairro (Alvinho, Almirante
e Henrique Brito) e a seguir, já profissionalizado, ao lado de
certo Noel de Medeiros Rosa, no Bando dos Tangarás, em que todos
adotaram convenientes apelidos ornitológicos. O de Braguinha, João
de Barro, pegou nas primeiras gravações como intérprete,
em 1931 (Cor de Prata, Minha Cabrocha, de Lamartine Babo) e foi usado
durante muito tempo pelo compositor de sucessos como os inaugurais Trem
Blindado e Moreninha da Praia, no carnaval de 1933.
A partir daí, mesmo sem conhecimentos formais de música,
compondo na base do assovio, ele se transformou num campeão da
folia, especializado em marchinhas, como Linda Lourinha, Uma Andorinha
Não Faz Verão, Linda Mimi, Dama das Camélias, Cadê
Mimi, Balancê (que redobraria o sucesso na regravação
de Gal Costa, quarenta e dois anos depois), Andaluzia (recriada por Maria
Bethânia), Pirata da Perna de Pau, China Pau, Chiquita Bacana (que
projetou Emilinha Borba), A Mulata É a Tal, Tem Gato na Tuba, Adolfito
Mata-Mouros (sátira a Hitler) e o misto de paso doble Touradas
em Madri, cantado por um Maracanã em festa na goleada do Brasil
sobre a Espanha, na fatídica Copa de 50.
Participou como diretor e roteirista de filmes como Estudantes (1935),
Alô, Alô, Carnaval (1936), Banana da Terra (1938) e Laranja
da Terra (1940). Nessa época, começou a trabalhar como diretor
artístico da gravadora Continental, onde projetou nomes como Radamés
Gnattali, Tom Jobim (sua Sinfonia do Rio de Janeiro, parceria com Billy
Blanco foi gravada duas vezes), Lúcio Alves, Dick Farney, Doris
Monteiro, Tito Madi, Nora Ney, Jorge Goulart e Jamelão. Em 1937,
a cantora Heloísa Helena pediu-lhe uma letra para um choro-canção
instrumental de Pixinguinha e nasceu o hino Carinhoso. Da mesma forma
que modificou Linda Pequena de Noel Rosa para As Pastorinhas, que se tornaria
um clássico póstumo do poeta da Vila, Braguinha (com parceiros
como o médico Alberto Ribeiro) cunhou o manifesto pré-tropicalista
Yes, Nós Temos Bananas (resposta ao fox americano Yes, We Have
No Bananas).
Fez ainda tanto o samba-canção de inspiração
rural (Mané Fogueteiro, emblemático na voz de Augusto Calheiros,
a Patativa do Norte) quanto urbano-modernista como Laura e Copacabana,
cuja gravação, de Dick Farney, em 1946, com arranjo de cordas
de Radamés Gnattali, seria considerada precursora da bossa nova.
Apimentando suas composições à medida que mudavam
os costumes (Vai com Jeito, Garota de Saint-Tropez, Garota de Minissaia),
ele também arquitetou com delicadeza a mais impressionante coleção
de discos infantis, aclimatando para o Brasil histórias da Branca
de Neve, Chapeuzinho Vermelho, Alice no País das Maravilhas, além
de recuperar inúmeras cantigas de roda. Nonagenário com
espírito de criança, Braguinha é um retrato cantado
da alma jovial do Rio de Janeiro dos melhores tempos. Concedeu esta entrevista
ao programa MPB Especial, da TV Cultura de São Paulo, em 1973,
aos 65 anos.
Tarik de Souza
MPB ESPECIAL
12/2/1973
A estrela-d'alva
No céu desponta
E a lua anda tonta
Com tamanho esplendor
E as pastorinhas
Pra consolo da lua
Vão cantando na rua
Lindos versos de amor
Linda pastora
Morena, da cor de Madalena
Tu não tens pena
De mim, que vivo tonto com o teu olhar
Linda criança
Tu não me sais da lembrança
Meu coração não se cansa
De sempre e sempre te amar.
As Pastorinhas, João de Barro/Noel Rosa. Copyright 1937 by MANGIONE,
FILHOS & CIA. LTDA. (ADDAF).
***
Eu comecei há muitos anos. Eu era menino, tinha meus 16, 17 anos,
no Colégio Batista. Foi para o Colégio Batista um menino
também chamado Henrique Brito, do Rio Grande do Norte, que tocava
muito bem violão. Ele tocava nas horas de recreio, eu fui gostando
e pedi a ele pra me ensinar a tocar violão. Daí comecei
a fazer músicas e estou aqui fazendo músicas até
hoje. A primeira música que eu fiz foi um ensaio, uma brincadeirazinha.
Foi pra uma menina, uma colega, que eu gostava muito dela, que usava um
vestidinho encarnado. Então eu fiz os versos e depois, mais tarde,
botei a música. Mas é coisa que nem me lembro. Sei que os
versos começavam assim:
Como ficas
tão formosa
Até bendigo o meu fado
Quando te vejo menina
Do vestidinho encarnado
Há dias não te avistei
Fiquei triste e desolado
Chorei muito com saudades
Do teu vestido encarnado
Por acaso aqui passando
De andorinhas, bando alado
Perguntei se tinham visto
O teu vestido encarnado
E uma delas disse às outras
Ensandeceu o coitado
Ficou doido pois só pensa
Nesse vestido encarnado
E se Deus me perguntasse
O que queres te seja dado
Eu quero morrer
Nas dobras do teu vestido encarnado
Vestido Encarnado, João de Barro/Eduardo Souto. Copyright by ADDAF.
É mais ou menos isso. Deixa pra lá. Passou.
***
Considero o meu primeiro sucesso, propriamente gravado e editado, o Moreninha
da Praia.

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