 |
Certa vez
fiz um perfil de Manezinho Araújo para a revista O Cruzeiro e ousei
cometer uns versinhos que abriam a matéria: "Cuma é
o nome dele? / É Manezinho Araújo / De embolada cantador
/ Cansado de fazer verso / Agora virou pintor".
Com esses podres versos eu pretendia sintetizar a história de Manezinho
Araújo, que tinha parado de cantar embolada, gênero musical
do qual fora rei absoluto, e iniciado outra carreira de sucesso - a de
pintor, na qual deixava sua marca de poeta do povo.
Manoel Pereira Araújo, nascido na cidade do Cabo, Pernambuco, em
1910 (falecido em 23/5/1993, em São Paulo, SP), já era Manezinho
nas rodas boêmias do Recife, no final dos anos 20, quando se exercitava
na arte de cantar embolada. Chegou o tempo, sentou praça no Exército
e logo foi mandado para o Rio de Janeiro, para fazer revolução.
Revolução de verdade, a de 1930.
Seguiu com a tropa, de navio, mas antes de chegar ao Rio a briga tinha
acabado. O barco seguiu, o Rio foi uma festa, em vez de presumíveis
tiroteios. E Manezinho iniciaria, logo depois, uma revolução
musical. Ele já tinha na cabeça o que seria um de seus maiores
sucessos, a embolada Pra Onde Vai, Valente?. "Pra linha de frente",
dizia a música.
E Manezinho foi, de verdade, para a linha de frente da música popular
brasileira. De volta para o Recife, ainda de farda, participou de um show
no navio em que viajavam, entre outros, artistas da fama de Carmen Miranda,
Almirante e Josué de Barros. Foi um sucesso. Em 1933 já
era contratado da Odeon, no Rio, onde gravaria seu primeiro disco. De
embolada em embolada tornou-se em pouco tempo um dos artistas mais conhecidos
e queridos do Brasil. Apesar de difíceis de cantar, suas músicas
iam parar na boca do povo: Cuma É O Nome Dele?, Carrité
do Coroné e muitas outras.
Mas não era só embolada, Manezinho faria sucesso em outros
gêneros, como o calango (Dezessete e Setecentos), a toada (Sodade
de Pernambuco) e... (Como Tem Zé na Paraíba, em parceria
com Catulo de Paula).
Manezinho encerrou a carreira de embolador em plena fama, em 1954, emburrado
com a invasão de música importada. Despediu-se com um show
que reuniu 15 mil pessoas.
Quando o conheci, em meados dos anos 60, vi seus versos transformados
em pinturas, coisas simples, alegres, coloridas, tudo o que, apesar dos
pesares, esse bravo povo brasileiro carrega na alma. Concedeu esta entrevista
ao programa MPB Especial, da TV Cultura de São Paulo, em 1973,
aos 62 anos.
Audálio
Dantas
MPB ESPECIAL
9/7/1973
Oi, Cuma
é o nome dele?
É Mané Fuloriano
Antigamente
Quando a gente se beijava
Num instante separava
Pois o beijo não me ilude
Mas hoje o moço
Quando beija a namorada
Fica de boca grudada
Parece que leva grude
Cuma é o nome dele?
É Mané Fuloriano
E uma moça
Uma perna beliscando?
Fiquei foi suspirando
Disso nunca a gente acha
Mas de momento
Essa moça com bondade
Foi dizendo
E à vontade; minha perna é de borracha
Cuma é o nome dele?
É Mané Fuloriano
Vi um sujeito discutindo com a mulé
Pensem lá o que quiser
Mas direito é que eu não acho
E que por cima
Pouca roupa ela usava
Além disso não gostava de usar roupa por baixo
Cuma é o nome dele?
É Mané Fuloriano.
Cuma É O Nome Dele, Manezinho Araújo. Copyright 1972 by
BMG MUSIC PUBL. BRASIL LTDA.
É
isso!
***
O velho aqui nasceu em setembro de 1910, na cidade do Cabo, em Pernambuco.
***
A cidade era o que ainda hoje é, sabe? Economicamente ela está
bem, porque em torno dela foram se estabelecendo um complexo de indústrias,
inúmeras indústrias, de forma que economicamente está
bem. Mas é o mesmo aspecto. Ainda tem a casa onde eu nasci, ainda
tem a igreja matriz, aquela coisa toda.
***
Do Cabo, eu não lembro das figuras humanas, quando eu nasci e posteriormente
porque eu fui muito menino para Recife. Fui para Casa Amarela, então
um bairro de Recife, onde eu tive a minha infância e a minha juventude
quase.
***
Os meus amigos lá no bairro? Eu sempre fui muito cheio de amigos.
Muitos amigos já foram, outros ainda estão como eu, reagindo.
Um dos melhores amigos que eu tive já se foi, infelizmente. Era
o Minona Carneiro, cidadão que me ensinou a cantar embolada e a
quem eu devo então essa profissão de cantador de embolada.
Não é cantor, é cantador.
***
Minona eu conheci porque Minona residia no mesmo bairro, perto da rua
onde eu morava. Muito boêmio. Naquela época não se
usava o termo comunicação, mas então ele era muito
comunicativo e todo mundo o conhecia, todo mundo gostava dele. Era uma
família muito importante, a família Carneiro, cujos pais
eram espetaculares. Basta dizer que o velho era Carneiro e a mãe
era Santa, chamava-se Santa. De forma que só podia sair gente boa.
Todos os irmãos, quando não eram tocadores de violão,
eram boêmios inveterados. Minona era um boêmio e cantador,
espetacular. O maior que eu vi na minha vida.
***
Minona? Era espirituoso, era muito comunicativo, como eu já disse,
enfim, era um São Francisco de Assis do bem-querer, da boemia.
Ele tinha um jeito de cantar espetacular, tinha um sotaque, dava inflexões
incríveis cantando embolada.
***
Me influenciou muito porque eu fui aprendendo com ele. Havia muitas reuniões,
muitas tocatas, naquela época nós chamávamos de brinquedinho.
"Onde é o brinquedinho hoje?" - "Ah, tem um brinquedinho
em tal lugar assim." Nós íamos. E ele me levava. Gostava
muito de mim, nós fizemos uma grande amizade, e eu comecei a cantar
e ele gostava de me ouvir cantar.

|