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A escritora
paraense Eneida, uma desbravadora - cronista, feminista e comunista, antes
de tais atributos sugerirem o desfrute de algum tipo de modismo -, foi
a principal historiadora do Carnaval. Com essa autoridade, escolheu Blecaute
para estrelar, ao lado de Marlene e Nuno Roland, o memorável espetáculo
(Carnavália, perpetuado em discos editados pelo Museu da
Imagem e do Som do Rio) com o qual pôs no palco, em 1968, uma admirável
síntese musical da grande festa popular. A divisão por três
intérpretes dava a Blecaute - nascido Otávio Henrique de
Oliveira a 19 de novembro de 1919, mas só registrado a 5 de dezembro
desse ano, em Pinhal (SP) - um terço do repertório, com
a constatação de um pormenor extraordinário: tal
porcentagem poderia tranqüilamente ser recolhida do acervo carnavalesco
que o próprio Blecaute gravara, embora ele só houvesse estreado
em disco em 1948.
De fato, o que mais fez Blecaute - o apelido, um achado do radialista
Capitão Furtado, era corruptela de black-out, o freqüente
corte de energia imposto à população durante a Segunda
Guerra Mundial, quando Otávio Henrique começava carreira
no rádio paulista - foi acumular sucessos de Carnaval, incontáveis,
a partir do protesto antecipado de Pedreiro Waldemar (Roberto Martins-Wilson
Batista), em 1949. O samba General da Banda (Tancredo Silva-Sátiro
de Melo-José Alcides) criou-lhe o tipo inesquecível, quase
um novo Rei Momo:
uniforme colorido, galões, alamares, dragonas e lantejoulas, Blecaute
iniciava carnavais, abria desfiles, comandava as duas torcidas em dias
gloriosos de Fla-Flu no Maracanã. E há a série interminável
de fantásticas marchinhas da dupla Klécius Caldas-Armando
Cavalcanti, uma das mais férteis e talentosas da folia: Papai
Adão, Dona Cegonha, Piada de Salão, Maria Candelária,
Maria Escandalosa. O nome de Blecaute será sempre associado
a grandes momentos de alegria do povo, inafastável que é
do Carnaval e do Natal.
A cada data cristã ele é reverenciado como o autor de Natal
das Crianças, uma canção natalina de resistência
de nossa música popular. O compositor Blecaute tem, aliás,
uma reserva de mais de 60 canções gravadas, feitas sem parceiro
ou com a colaboração de criadores do porte de Herivelto
Martins, Newton Teixeira e Haroldo Lobo, para citar apenas três.
Otávio Henrique de Oliveira morreu no Rio, aos 63 anos, no dia
9 de fevereiro de 1983. Era véspera de Carnaval.
Concedeu esta entrevista ao programa MPB Especial, da TV Cultura,
em 1975, aos 56 anos.
Moacyr
Andrade
MPB ESPECIAL
18/6/1975
O General
da Banda foi uma história interessante. Eu estava num carnaval,
já no final de 49, na terça-feira de carnaval, e estava
feliz porque, por que não dizer?, estava com dois sucessos na rua.
Eram O Pedreiro Waldemar e Vôte, Que Mulher Bonita,
uma música de Antônio Almeida e Braguinha. Em cima da hora
me aparece o samba Tô Aí Nessa Boca, o samba tomou
conta do último dia do carnaval, mas havia uma batucada me perseguindo,
que era General da Banda. E perseguia na rua, com ritmo de macumba:
"Chegou o general da banda, ê, ê, chegou o general da
banda, ê á, ê á". Eu digo: Meu Deus, de
onde é que vem essa canção, de onde é que
vem essa música, de onde é que vem essa melodia? E de madrugada
encontrei-me com os autores, que eram o Tancredo Silva, José Alcides
e Sátiro de Melo. Gravei logo depois do carnaval e foi um sucesso
em 1950, à qual eu criei também uma figura carnavalesca.
Chegou
o general da banda, ê, ê
Chegou o general da banda, ê á, ê á
Chegou o general da banda ê, ê,
Chegou o general da banda, e á, ê á
Mourão, mourão
Vara madura que não cai
Mourão, mourão, mourão
Catuca por baixo que ele vai
Mourão, mourão
Vara madura que não cai
Mourão, mourão, mourão
Catuca por baixo que ele vai
Chegou o general da banda, ê, ê
Chegou o general da banda, ê á
General, general
Chegou o general da banda ê, ê
Chegou o general da banda, ê á
General, general
Mourão, mourão
Vara madura que não cai
Mourão, mourão
Catuca por baixo que ele vai
Mourão, mourão
Vara madura que não cai
Mourão, mourão, mourão
Catuca por baixo que ele vai
Chegou o general da banda, ê, ê
(Deixa amanhecer)
Chegou o general da banda, ê, ê á
General, general.
General da Banda, Tancredo Silva/José
Alcides/Sátiro de Melo. Copyright by TODAMÉRICA MÚSICA
LTDA/ADDAF.
***
Eu sou carioca de Pinhal. Pinhal, Interior do Estado de São Paulo.
Saí da minha querida terra com seis anos. Há até
uma certa bronca dos meus conterrâneos, porque eu saí com
seis anos, fui criado na capital e não voltei mais. Mas é
um problema sentimental, saí de lá órfão de
pai e mãe. Mas estou devendo uma visita a eles, irei muito em breve.
***
Realmente, eu fui criado com mamãe e titia, eu e meus irmãos
mais velhos.
***
Vamos ver se eu me lembro o que titia cantava.
Eu nasci
naquela terra
Bem juntinho a um riachão
Toda cheia de buraco
Me jogava pelo chão
Eu sou como o sabiá
Que quando sinto uma tristeza
Dá vontade de chorar
Eu sou como o sabiá
Que quando sinto uma tristeza
Dá vontade de chorar.
Tristeza do Jeca, Angelino de
Oliveira. Copyright by VITALE/TODAMÉRICA (ADDAF).
***
Fui para São Paulo, morava mais ou menos ali pela avenida Angélica
com Baronesa de Itu, morava até num porão. Meus irmãos
e minha tia Alzira me matricularam num jardim da infância, Colégio
São Vicente de Paula, que ainda existe na alameda Barros. Fiquei
no colégio, fiz o jardim da infância e dois anos depois entrei
para o Grupo Escolar da Consolação. Eu tinha uns primos
que moravam no Bexiga, que hoje é Bela Vista, está aristocrata
agora, é Bela Vista. E encontrei com a turma da Rui Barbosa, o
pessoal do Grupo Escolar Maria José, e aí já comecei
no ziriguidum, batucando com a caixinha de fósforo e tal.
***
Naquela época tinha um sambinha que eu gostava muito.
Não
se deve amar sem ser amado
É melhor morrer crucificado
Deus nos livre das mulheres de hoje em dia
Desprezam o homem
Só por causa da orgia
Gosto que me enrosco de ouvir dizer
Que a parte mais fraca é a mulher
Mas o homem com toda a fortaleza
Desce da nobreza e faz o que ela quer
Não se deve amar sem ser amado
É melhor morrer crucificado
Deus nos livre das mulheres de hoje em dia
Desprezam o homem só por causa da orgia
Gosto Que Me Enrosco, Sinhô.
Copyright by D.P..
É
isso aí!

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