Perfeccionista do grave e da dissonância, Dick Farney, o carioca Farnésio Dutra e Silva, nascido em 14 de novembro de 1921, foi a um só tempo cantor e músico americano de primeira linha e um modelo de intérprete romântico brasileiro, o grande consolidador do samba-canção. Crooner no Cassino da Urca, gravou inicialmente canções americanas, foi cantor contratado de uma das mais importantes emissoras de rádio dos Estados Unidos, a NBC, onde criou e lançou para permanente aceitação mundial o sucesso Tenderly, uma das páginas que mais identificam a canção americana, e liderou no Brasil, como pianista emérito, à frente de instrumentistas como o baixista Ed Lincoln, o saxofonista Casé e o baterista Toninho Pinheiro, vários trios e quartetos de jazz de longa, intensa e primorosa atuação em casas noturnas, palcos e estúdios.

O cantor brasileiro surge quando, por insistência de João de Barro, então diretor artístico da gravadora Continental, consente em gravar, em junho de 1946, o samba-canção Copacabana, do próprio João de Barro e de Alberto Ribeiro. O êxito instantâneo, em todos os quadrantes, inscreve o samba-canção entre os gêneros da predileção nacional. A voz moderna do novo astro romântico do país abarrota o mercado, numa atropelada de êxitos no andamento: Um Cantinho e Você, Somos Dois, A Saudade Mata A Gente, Ponto Final, Sempre Teu, Alguém como Tu, Esquece, Nick Bar, Uma Loura, Muito Mais, de autores consagrados ou que em breve viriam a sê-lo, como João de Barro, Alberto Ribeiro, Alcyr Pires Vermelho, José Maria de Abreu, Antônio Almeida, Jair Amorim, Hervê Cordovil, Luís Bonfá, Gilberto Milfont, Tom Jobim e Billy Blanco, entre outros. Em Dick Farney, a dualidade de músico de extração americana - seu modelo maior no piano pareciam ser Errol Garner e Dave Brubeck - e cantor entranhadamente brasileiro correspondia a uma coerência da qual ele jamais se afastou em meio século de carreira: não corrigia rotas nem aderia a modismos. Foi sempre o mesmo: "Continuo a cantar e a tocar como em 1946, da mesma forma, com o mesmo estilo'", declarou em 1974. Pode-se dizer também que, além da forma e do estilo, até as canções eram as mesmas.

Ele sabia que havia gravado músicas eternas. Dick Farney morreu em São Paulo, aos 65 anos, no dia 4 de agosto de 1987. Concedeu esta entrevista ao programa MPB Especial, da TV Cultura, em 1972, com 51 anos de idade.

Moacyr Andrade
MPB ESPECIAL
13/6/1972

[Música Instrumental: Easy do It]
Easy do It, by Oliver. D.R.

É claro que a música brasileira sofreu uma influência muito grande do jazz, ou melhor, da música americana. Só pra dar um exemplo, essa música aqui.

[Música Instrumental: Corcovado]
Corcovado, Antônio Carlos Jobim. Copyright by JOBIM MUSIC.

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Uma música romântica feita em 46, mas já naquela época Dorival Caymmi já tinha uma influência... Eu ouvia muito disco de música americana e até ele chegou pra mim, em 46, e disse: "Dick, eu fiz uma música pra você gravar. Eu sei que você gosta de música americana".
E ele fez uma música brasileira que eu considero, pra mim, uma das melhores que existem, e tem que se dar valor porque foi composta em 46.

Marina morena
Marina você se pintou
Marina você faça tudo
Mas faça um favor
Não pinte esse rosto que eu gosto
E que é só meu
Marina você já é bonita
Com o que Deus lhe deu
Me aborreci
Me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa
Você não arranjava outro igual
Desculpe, Marina morena
Mas eu estou de mal
Me aborreci
Me zanguei
Já não posso falar
E quando eu me zango, Marina
Não sei perdoar
Eu já desculpei muita coisa
Você não arranjava outro igual
Desculpe, Marina morena
Mas eu estou de mal
De mal com você
De mal com você.
Marina,
Dorival Caymmi. Copyright by MANGIONE, FILHOS E CIA. LTDA.

***

Eu falei de Dorival Caymmi e Tom Jobim, dois compositores que eu adoro. Agora, o princípio da minha carreira eu quero dizer ao público que devo a uma dupla que naquela época eram famosos, José Maria de Abreu e Jair Amorim. Vocês sabem... vocês conhecem essa música.

Não me pergunte a razão
Não me atormente demais
Falo por meu coração
Tudo acabou
Nada mais
Sinto muito mulher
Mas é tarde
Esta chama de amor
Já não arde
Faça de conta que eu
Sou como alguém que morreu
Como a fumaça que passa
E se esgarça a voar, no ar
Uma história incolor
Foi aquela
Um capítulo a mais de novela
Nossa comédia acabou
Sem aplauso sequer
Quando o pano baixou
Numa cena banal
Põe-se um ponto final
Uma história incolor
Foi aquela
Um capítulo a mais de novela
Nossa comédia acabou
Sem aplauso sequer
Quando o pano baixou
Numa cena banal
Põe-se um ponto final.
Ponto Final
, Jair Amorim/José Maria de Abreu. Copyright by TODAMÉRICA MÚSICA LTDA. (ADDAF).

E continuando a mesma dupla fez essa composição pra mim.

Alguém como tu
Assim como tu
Eu preciso encontrar
Alguém sempre meu
De olhar como o teu
Que me faça sonhar
Amores eu sei
Na vida eu achei e perdi
Mas nunca ninguém desejei
Como desejo a ti
Se tudo acabou
Se o amor já passou
Há de o sonho ficar
Sozinho estarei
E alguém eu irei procurar
Eu sei que outro amor posso ter
E um novo romance viver
Mas sei que também
Assim como tu mais ninguém
Se tudo acabou
Se o amor já passou
Há de o sonho ficar
Sozinho estarei
E alguém eu irei procurar
Eu sei que outro amor posso ter
E um novo romance viver
Mas sei que também
Assim como tu mais ninguém
Assim como tu mais ninguém.
Alguém Como Tu
, Jair Amorim/José Maria de Abreu. Copyright by FERMATA DO BRASIL.

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E na mesma época tinha uma figura muito conhecida no Rio, um baixinho, naquela época já tinha cabelo bem grisalho e hoje ainda continua uma pessoa bacana, que é o Braguinha, o João de Barro. Naquela época, em 46 também, ele me mostrou uma música, insistiu muito pra eu gravar e hoje todos vocês conhecem. Se quiser, também faz um corinho, não tem nada...