Entre os muitos precursores da bossa nova, Johnny Alf é o que está mais próximo da gênese do gênero. Um dos fundadores do núcleo de inovadores do Sinatra-Farney Fã Club na Tijuca, esse carioca nascido em 1929 próximo da praça Mauá, criado em Vila Isabel e radicado em São Paulo desde meados dos 50, misturou samba, jazz e harmonias impressionistas desde quando começou a compor. Inspirado por revolucionários locais como Custódio Mesquita, Garoto e Valzinho e lá fora por Cole Porter, George Shearing e Nat King Cole, Alf teve suas primeiras composições (O Que É Amar, Escuta, Estamos Sós) gravadas em 1952 pela cantora Mary Gonçalves, seis anos antes do inaugural Chega de Saudade de João Gilberto. Outra de suas músicas emblemáticas, o manifesto malandro Rapaz de Bem ("com as pessoas que eu bem tratar / eu qualquer dia posso me arrumar") de estrutura harmônica arrojada, data de 1953. Sua estréia instrumental também nessa época, a bordo de um trio, trazia Falsete (de sua autoria) e De Cigarro em Cigarro de outro inovador, Luís Bonfá, e já desvelava o músico que veio para mudar as estruturas da MPB.

Filho de um cabo do exército que morreu quando ele tinha apenas três anos, Alf, ou Alfredo José da Silva, foi criado pela mãe, empregada doméstica, e começou seus estudos de piano com Geni Borges, amiga da família para quem ela trabalhava. Antes do Sinatra-Farney Fã Clube freqüentou um grupo de intercâmbio cultural do Instituto Brasil-Estados Unidos (aí surgiu seu pseudônimo, por sugestão de uma americana) onde eram analisados arranjos e partituras das músicas dos dois países. Sua vida profissional começou como pianista da Cantina do Cesar, em Copacabana, e teve o rumo alterado quando ele mudou para a vida noturna paulistana (boate Baiúca, bar Michel) em meados dos 50. Foi um dos pilares da bossa em São Paulo (em 1955, já havia registrado em 78 rotações o Rapaz de Bem), mas não seguiu no comboio do show do Carnegie Hall de novembro de 1962 que projetou a bossa nova nos EUA.

Apesar de ter atuado em templos da bossa como o Bottle's Bar do Beco das Garrafas em Copacabana, Alf preferiu seguir uma trajetória à parte dentro do movimento que marcou com clássicos atemporais, como os supracitados Rapaz de Bem e O Que É Amar e mais Céu e Mar, Ilusão à Toa, Seu Chopin Desculpe, Disa, Fim de Semana em Eldorado. Em 1967, a não classificação de sua balada Eu e A Brisa, cantada por Márcia nas eliminatórias do III Festival da MPB da TV Record, não impediu que a música se transformasse em seu maior sucesso com inúmeras regravações. Mesmo assim, gravou pouco: 11 álbuns em 50 anos de carreira. Além de um prêmio Shell pelo conjunto da obra em 1999, Johnny Alf ganhou dois discos que avalizam seu pioneirismo de mestre entre mestres, tributo forrado de participações estelares, Nós (1974), com Egberto Gismonti, Paulo Moura, Wagner Tiso, Gilberto Gil e Ivan Lins, e Olhos Negros (1990), ao lado de Gal Costa, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Zizi Possi, Chico Buarque, Emílio Santiago, Leny Andrade, Roberto Menescal, Marcio Montarroyos e Sandra de Sá. Concedeu esta entrevista no programa MPB Especial, da TV Cultura, em 1975, aos 46 anos de idade.

Tárik de Souza
MPB ESPECIAL
7/8/1975

Foi em 51, 52, mais ou menos por aí, no Rio de Janeiro. Estava estudando piano, aí de repente, acho que eu estava meio despreocupado no dia, estava meio leve, meio à vontade, naquela do vai-e-vem, aí começou a sair a melodia, tudo junto na hora, letra e música.

Você bem sabe
Eu sou rapaz de bem
E a minha onda é do vai-e-vem
Pois com as pessoas que eu bem tratar
Eu qualquer dia posso me arrumar
O meu preparo intelectual, al, al, al
É o trabalho a pior moral
Não sendo a minha apresentação
O meu dinheiro só de arrumação
Eu tenho casa
Tenho comida
Não passo fome, graças a Deus
E no esporte
Eu sou de morte
Tendo isso tudo
Eu não preciso de mais nada
É claro
Se a luz do sol
Vem me trazer calor
A luz da lua
Vem trazer amor
Tudo de graça a natureza dá
Pra que que eu quero traba
Pra que que eu quero traba
Pra que que eu quero trabalhar
Trabalhar, trabalhar.
Rapaz de Bem
, Johnny Alf. Copyright 1958 by IRMÃOS VITALE S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Todos os direitos autorais reservados para todos os países. ALL RIGHTS RESERVED.

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Nasci em Vila Isabel, terra de Noel.

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Piano? Quando eu era garoto, tinha sete, oito anos, gostava de tocar com dois dedos, aquele negócio assim [dedilha o piano]. Quando eu fiz nove anos, a minha madrinha falou: "Se você passar pro Pedro II, eu ponho você estudando piano". Eu era bom estudante, não ótimo, mas não relaxava. Quando ela falou isso, engrenei em passar pro Pedro II, no concurso que eles fazem. Passei em 13º lugar, o famoso 13, e aí engrenei o estudo de piano. Estudei seis anos de piano clássico, gostava muito daquilo que eu fazia porque, em questão de música, sempre fui muito caprichoso, sempre fui muito ligado, decorava os exercícios, compreende? A professora sentiu que eu ia ser mais popular, mas, não relaxando no clássico, ela me incentivava que eu tocasse popular também.

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Umas das primeiras coisas que eu toquei foi de Chopin.

(Música)

Só me lembro disso, mais nada.

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Cinema eu gostava demais, sempre gostei de filme musical. Naquele tempo estavam começando aqueles filmes de Busby Berkeley, que tinha aquelas músicas das Cavadoras de Ouro. Depois os filmes de Fred Astaire e Ginger Rogers, que tinha músicas de George Gershwin e Irving Berlin.

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Sim, me lembro.

A foggy day in London town
Just had me low
And had me down
I view the morning
With much alarms
The British Museum had no more charm
How long
I wondering could this thing last
But the age of miracles
It had not past
For suddenly I saw you there
And in fog London town
The sun was shinning
Everywhere
Everywhere
A fog day.
A Foggy Day
, George Gershwin/IraGershwin, copyright by Warnner Chappel.
George Gershwin.

Música brasileira, quando estudei piano, me liguei muito em Custódio Mesquita, um compositor bem brasileiro mas pouco comercial. Meu gosto era sentir inclinação por aquilo que era mais elaborado. Uma das músicas do Custódio, o Velho Realejo, foi a música que me apresentou o primeiro acorde dissonante, que eu estranhei e não gostei. E hoje em dia o que eu mais gosto é dissonância e modulação. Nessa música foi primeiro que travei conhecimento com música dissonante mesmo, um acorde que tinha lá. Eu gostava muito dessa música, aliás, gosto até hoje. Minha professora era a Geni Borges, que ainda leciona hoje lá no Rio. Ela disse assim: "Oh Johnny. Johnny não, não. Alfredo, o acorde está certo, é que você não está sentindo bem a intenção do compositor". - "Não é possível o acorde aqui, um dó". E ela: "Deixa assim que com o tempo você vai assimilar". Realmente, depois que eu fui tocando os compositores eruditos pra lá, mais avançados, fui sentindo que eu tinha harmonia dentro, mas não tinha desenvolvido ainda, não tinha travado conhecimento assim praticamente. Foi isso que aconteceu.

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Velho Realejo é mais ou menos assim:

[Música instrumental: Velho Realejo]
Velho Realejo, Custódio Mesquita/Sady Cabral. Copyright 1949 by IRMÃOS VITALE S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Todos os direitos autorais reservados para todos os países. ALL RIGHTS RESERVED.

Bonito, né? Lindo isso.

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Meu nome é Alfredo José da Silva.