No início dos anos 70, o Rio Grande do Sul vivia movimentação musical incomum, depois de quase uma década de puro marasmo. O sucesso da Califórnia da Canção Nativa (a partir de 1972) estimulou uma nova geração a voltar-se para os desprezados temas e ritmos regionais. Era uma geração formada nos festivais da MPB e no rock de Beatles & cia. Nascidos em Pelotas e recém-chegados a Porto Alegre para estudar engenharia, os irmãos Kleiton e Kledir Ramil, mais três amigos da região Sul do estado, criaram o grupo Almôndegas. O ponto de encontro da turma era a Rádio Continental, que passou a gravar os novos músicos gaúchos em seu estúdio de dois canais e colocá-los na programação.

Em pouco tempo, a Continental tornou-se a preferida dos jovens porto-alegrenses. Do sucesso no rádio vieram os shows, mobilizando multidões de duas, três, quatro mil pessoas e despertando o interesse das gravadoras. Pela paulista Continental (nada a ver com a rádio), o Almôndegas lançou seu primeiro LP em 1975, tornando-se o mais popular grupo sulista. Na base de violões e belas harmonizações vocais, misturando MPB, rock e folclore gaúcho, o grupo marcou época. Tanto, que várias de suas músicas continuam a ser tocadas e gravadas. Depois do segundo disco, em 1976, sucesso nacional com Canção da Meia-Noite (incluída na trilha da novela Saramandaia), o Almôndegas mudou-se para o Rio. Foi o começo do fim. Alternando formações e alterando a identidade original, o grupo gravou o terceiro (1977) e o quarto (1978) discos para a Philips e se dissolveu. Únicos remanescentes dos velhos tempos, Kleiton e Kledir assumiram-se como dupla estreando em 1979 com uma das melhores músicas do último festival da TV Tupi, Maria-Fumaça.

Ao lado de Vira Virou, essa música puxou as vendagens do primeiro disco da dupla, lançado em 1980 pela Ariola (que acabara de se instalar no Brasil). O LP seguinte fez de Kleiton & Kledir efetivos astros nacionais, com mais de 100 mil cópias vendidas e maciças execuções das músicas Deu pra Ti, Trova e Paixão. De Norte a Sul eles passaram a lotar teatros. O terceiro disco (1983) lançou os hits Nem Pensar e Tô Que Tô, e a faixa O Analista de Bagé foi proibida de tocar no rádio pela censura. Em 1984, veio o quarto disco e a tentativa de conquistar o mercado latino-americano, com a gravação de um LP em espanhol que reuniu os principais sucessos e teve a participação dos argentinos Mercedes Sosa e Leon Gieco. A essa altura, a dupla já dava sinais de desgaste. Há muito tempo longe do Rio Grande do Sul, sua fonte de inspiração, eles "raparam o tacho" com o disco de 1986, último da primeira fase. A volta só se daria dez anos depois, com o CD Dois (1996). No intervalo, retomaram a pesquisa de ritmos gaúchos e lançaram um disco individual cada, sem maior repercussão. Com 39 e 38 anos, respectivamente, Kleiton e Kledir preparam o nono disco para 2001. Continuam em forma, mas, se tivessem interrompido a carreira, já teriam justificado sua "passagem" pela MPB com a mais profunda e influente renovação da música gaúcha feita até aqui. Com qualidade e humor, apresentaram um outro Rio Grande ao Brasil. Concederam esta entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura, em 1992, Kleiton com 36 anos de idade e Kledir com 35.

Juarez Fonseca
ENSAIO
13/3/1997

Deu pra ti
Baixo-astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Deu pra ti
Baixo astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Quando eu ando assim meio down
Vou pra Porto e pá
Que legal
Coisa de magia
Sei lá
Paralelo Trinta
Deu pra ti
Baixo-astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Deu pra ti
Baixo-astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Alô tchurma do Bonfim
As gurias tão tri afim
Garotada, oba uopa
Bela dama de chimarrão
Deu pra ti
Baixo-astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Deu pra ti
Baixo-astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Que saudade da Redenção
Do Fogaça e do Falcão
Coberta de orelha, frio
E a galera do Beira Rio
Deu pra ti
Baixo-astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Deu pra ti
Baixo-astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Quando eu ando assim meio down
Vou pra Porto e bá
Tr i
Coisas de magia, sei lá
Paralelo Trinta
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Deu pra ti
Baixo-astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau
Deu pra ti
Baixo-astral
Vou pra Porto Alegre
Tchau, tchau, tchau.
Deu Pra Ti
, Kleiton Ramil/Kledir Ramil. Copyright by Pandorga (Universal).

KLEITON - Eu acho que a gente teve várias músicas que fizeram sucesso, o que eu acho que é um privilégio até, porque muitas vezes o artista fica muito marcado por uma música só. Eu acho que a gente teve várias músicas com sucesso. Agora Deu pra Ti marcou muito por causa do palavreado gauchesco que a gente falava, não necessariamente era uma gíria só do interior, tipo de bergamota, cacete, guisado, enfim, uma série de coisas que a gente fala e as pessoas não entendem, mas era uma gíria da rapaziada de Porto Alegre, uma gíria mais urbana.

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Que é isso? Vendeu muito disco, fizemos muito show, foi uma época de muito sucesso, um tempo muito bom.

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KLEITON - Nem Pensar foi um momento bonito também da nossa carreira, porque acho que foi o momento em que a dupla ficou conhecida nacionalmente. A dupla já existia há muito tempo, desde que Kledir nasceu, a gente pegou um violão e saiu tocando. Foi muita estrada juntos e o Nem Pensar foi aquele momento onde a dupla ficou conhecida nacionalmente. Foi um momento também bom, porque nós como compositores parece que a gente vive buscando durante a vida toda a música perfeita e a gente nunca faz a música perfeita. Mas, quando a gente compôs o Nem Pensar e o Deu pra Ti, foi o momento que eu sei que nós tínhamos, pelo menos no nosso processo pessoal, atingido um nível bastante bom como compositores.