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Um complexo
compositor intuitivo.
Uma personalidade amável, porém enigmática. Oscila
entre ter cinco ou trezentos anos
de idade.
Dupla personalidade?
O cientista completamente separado do compositor?
Só o próprio Paulo pra dizer.
Essas tentativas de defini-lo são vãs, pois estamos falando
de um gênio, completamente fora dos padrões.
Sem tocar qualquer instrumento, realiza seus sambas e alguns outros gêneros
com estilo próprio e soluções musicais perfeitas.
Às vezes trabalha uma composição por anos seguidos,
tal seu perfeccionismo.
Fala de São Paulo com a naturalidade de quem conhece e ama sua
cidade.
Esse rigor se estende a todos os segmentos de sua vida. Sua honestidade
é aquela do "fio do bigode". É tanta que Paulo
chega a ser cruel consigo mesmo, às vezes.
Ser seu parceiro e amigo é pra mim uma prova de fogo. Sinto total
orgulho disso.
Vanzolini pertence à mesma linhagem de Noel Rosa e Chico Buarque.
Os representantes desse nobre estilo dominam o som das palavras e trabalham
as rimas como ninguém. São cronistas e contam casos com
começo, meio e fim em suas músicas.
"Você era a mais bonita"... (Chico Buarque)
"Lá no morro da Mangueira"... (Noel Rosa)
"De noite eu rondo a cidade"... (Paulo Vanzolini)
Quero falar mais de sua música, mas não é necessário.
Ela fala por si.
E este CD documento revela o talento de Vanzolini de forma insuperável.
Quero parabenizar Fernando Faro, o criador do programa Ensaio,
por dedicar mais de trinta anos ao registro de nossa melhor música.
Em nome do público, agradeço à TV Cultura, ao SESC,
ao produtor Pelão e a todos os responsáveis para que essa
coleção aconteça.
Concedeu esta entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura, em
1992, aos 68 anos de idade.
Eduardo
Gudin
ENSAIO
31/3/1992
De noite
eu rondo a cidade
A te procurar sem encontrar
No meio de olhares espio
Em todos os bares
Você não está
Volto pra casa abatida
Desencantada da vida
O sonho alegria me dá
Nele você está
Ai se eu tivesse
Quem bem me quisesse
Esse alguém me diria
Desiste, essa busca é inútil
Eu não desistia
Porém com perfeita paciência
Volto a te buscar
Hei de encontrar
Bebendo com outras mulheres
Rolando um dadinho
Jogando bilhar
E nesse dia então
Vai dar na primeira edição
Cena de sangue num bar da avenida São João.
Ronda, Paulo Vanzolini. Copyright
by Musibrás.
***
Eu fiz Ronda quando era estudante. Eu pertencia a um grupo de estudantes
atirados na boêmia, noite na rua, bar, prostituição
e todas essas coisas. Havia aquela tradição acadêmica
de poeta maldito, poeta da noite. Eu então inventei uma história
de uma mulher da noite e fiz. Agora, a gravação é
que foi problema porque eu nunca fiz músicas naquele tempo pensando
em gravar. Aliás, nunca fiz música pensando em gravar mesmo,
sempre fiz pra fazer. Mas Inezita Barroso sabia a música e nós
éramos muito amigos. Ela foi pro Rio com o marido pra gravar a
primeira gravação dela em 78 rotações, Moda
da Pinga, e minha mulher e eu fomos juntos e fomos para o estúdio.
Quando chegou no estúdio, teve um problema: Inezita não
sabia que disco tem lado B. Então precisava de uma música
pra gravar nas costas da Moda da Pinga. Acontece que ela sabia
Ronda e eu estava ali pra dar autorização. Então...
Pra mim o mais engraçado não é isso, eu achei naquela
hora muito natural os músicos na hora já saírem acompanhando,
teve uma discussão lá entre eles e eu digo: "Vocês
pegam o que quiserem e o que sobrar fica pra mim". Os músicos
eram [José] Menezes, Garoto, Bola Sete, Chiquinho do Acordeom e
Abel de Oliveira na clarineta. A Inezita cantava a melodia na orelha do
Abel e saía o solo de clarineta. Foi gravado numa passada só,
um microfone só pra todo mundo. Como dizem, em matéria de
música, eu sou mesmo um cavalo na missa sem latir, porque eu via
aquelas feras todas. Depois cheguei em São Paulo e tinha um tal
de Bola Sete, um pretinho assim, meu Deus do céu. Garoto até
foi muito meu amigo depois disso.
***
Nessa mesma ocasião, a Vera Cruz ia fazer um filme sobre Noel Rosa
e alugaram o Baú de Noel, da família, acho que da mulher
ainda. A Inês era a cantora que ia preparar as músicas para
o filme e ela fez um repertório de Noel Rosa, tocava um violão
que não tinha tamanho, um vozeirão, um senso de samba que
poucas cantoras têm. Então nós fomos numa festa que
deram pra ela no morro do Salgueiro e o pessoal ficou realmente fascinado
com a Inezita cantando Noel Rosa. Aliás, chegou um lá e
disse: "Dona Inês, eu quero convidar a senhora pra comer um
cabrito lá em casa. Aliás, não me dou com o dono
dele".
***
Tem umas músicas que eu fiz e que não pegaram, nem eu não
lembro mais. De gravação, a segunda foi Volta por Cima.
Naquele tempo tinha o Clubinho dos Artistas, eu tinha um grande amigo,
um arquiteto, e ele levou o Zelão, o seu Zé Henrique lá.
Seu Zé Henrique pertencia a um grupo de uns preto do morro do Piolho,
no Cambuci, um grupo tipo Bando da Lua. Realmente era um cantor e um violão...
Basta dizer que eles fizeram uma viagem pelos países da América
Latina e morreu um dos violões, o seu Zé tocava dois violões
num violão só. Ele tirava som de dois, você virava
as costas e jurava que estava ouvindo os dois violões. Nesse tempo
ele trabalhava num caminhão de feira, então ele ia pro Clubinho,
cantava, eu passava o chapéu e ele ia pra feira. Tinha uma mulher
que freqüentava lá e apresentou ele para umas paraguaias,
que eram donas de um inferninho. Aliás, lá tinha uns dois
ou três inferninhos. E ele era cantor das paraguaias. Um dia elas
chegaram pra ele e disseram: "Olha, seu Zé, você é
bom demais pra inferninho. Nós vamos te adiantar um dinheiro e
você abre a sua própria casa". Ele abriu o Zelão
e aí eu freqüentava lá toda noite. Inclusive a gente
fazia onda na imprensa que ia estar lá fazendo improviso. Quem
trabalhava em frente, atravessava a rua e vinha fazer improviso era Luís
Carlos Paraná, que ainda não tinha o Jogral, trabalhava
num negócio chamado, se não me engano, Sambalanço.
Aí eu dei a música pra seu Zé gravar. Um dia ele
chegou pra mim e falou: "Olha, Paulinho, eu tô brigado com
a gravadora, não tô conseguindo gravar. Mas tem um patrício
nosso aí, um rapaz ótimo, um grande violão, uma grande
voz, o Mário. Você passa pra ele". Eu falei: "Seu
Zé, eu dei a música procê, querendo dar pros outros
é sua pra dar". Até fiz uma brincadeira com ele meio
pesada, mas entre nós podia. Falei: "Seu Zé, samba
é que nem osso, uma vez que tá na rua vai na boca de qualquer
cachorro". Ele deu muita risada, mas o Alfredo Borba conseguiu então
a gravação pro Noite [Ilustrada] e eu fui pro Amazonas.
Daí três meses eu volto do Amazonas e no domingo ao meio-dia
ligo a Bandeirantes na parada de sucesso: "Pela terceira semana consecutiva..."
Era a Volta por Cima na parada de sucesso. Foi a maior surpresa que eu
já tive na minha vida.
Chorei
Não procurei esconder
Todos viram
Fingiram pena de mim
Não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Chorei
Não procurei esconder
Todos viram
Fingiram pena de mim
Não precisava
Ali onde eu chorei
Qualquer um chorava
Dar a volta por cima que eu dei
Quero ver quem dava
Um homem de moral
Não fica no chão
Nem quer que mulher lhe venha dar a mão
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá volta por cima
Reconhece a queda
E não desanima
Levanta, sacode a poeira
E dá volta por cima.
Volta Por Cima (participação Adauto Santos),
Paulo Vanzolini. Copyright by Lyra Peermusic.

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