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Artista múltiplo,
Sérgio Ricardo é compositor, cantor, violonista, pianista,
cineasta, pintor, ator - foi galã de novela televisiva, no fim
dos anos 50 -, técnico de som, discotecário, locutor, escritor,
ensaísta, poeta. Nasceu em Marília, no interior do Estado
de São Paulo, em 18 de junho de 1932, filho de um alaudísta
de origem libanesa - outro filho da família tornou-se personalidade
importante nas artes brasileiras, o fotógrafo cinematográfico
Dib Lufti. Sim, o nome de nascimento de Sérgio Ricardo é
João Mansur Lufti, um menino que começou a estudar piano
clássico aos oito anos de idade. Ainda nos anos 50, Sérgio
substituía, numa boate de Copacabana, como pianista fixo da casa,
certo Tom Jobim, que também despontava.
Estudou orquestração na Escola Nacional de Música,
do Rio, e logo começaria a gravar. O primeiro sucesso foi Buquê
de Isabel, que Maísa registrou em 1955. A bossa nova nascia,
e Sérgio integrou o grupo de músicos que definiu o movimento,
do qual se libertaria para cumprir sua trajetória muito pessoal.
Lançou o primeiro elepê em 1960, que tinha o sucesso Pernas;
em seguida, incendiaria o país com o samba Zelão,
um dos marcos inaugurais da música de protesto que marcaria a resistência
intelectual ao regime militar imposto em 1964. Ao mesmo tempo, começava
a realizar filmes - seu primerio curta, O Menino da Calça Branca
(1961), é um clássico, e A Noite do Espantalho,
longa de 1974, revelou - como ator - o músico pernambucano Alceu
Valença, além de trazer como músico Geraldo Azevedo.
Musicou o único cordel jamais escrito por Carlos Drummond de Andrade,
História de João-Joana, e é autor de algumas
das mais belas e expressivas músicas do cancioneiro da segunda
metade século, da trilha sonora de Deus e O Diabo na Terra do
Sol, o filme de Gláuber Rocha, a Calabouço, Esse
Mundo É Meu, Mágoas, Arrebentação, Analfaville,
Conversação de Paz, Enquanto A Tristeza Não Vem,
Folha de Papel, Mundo Velho, para citar umas poucas. Além de
tudo, é dono de uma voz especialíssima, de timbre nasalado,
bela como poucas vozes masculinas da história da música
brasileira.
Mauro
Dias
ENSAIO
19/7/1990
Todo o
morro entendeu
Quando Zelão chorou
Ninguém riu, ninguém brincou
E era carnaval
No fogo de um barracão
Só se cozinha ilusão
Restos que a feira deixou
E ainda é pouco só
Mas assim mesmo Zelão
Dizia sempre a sorrir
Que um pobre ajuda outro pobre
Até melhorar
Choveu, choveu
A chuva jogou seu barraco no chão
Nem foi possível salvar violão
Que acompanhou morro abaixo a canção
Das coisas todas que a chuva levou
Pedaços tristes do seu coração
Todo o morro entendeu
Quando Zelão chorou
Ninguém riu nem brincou
E era carnaval
Todo o morro entendeu
Quando Zelão chorou
Ninguém riu, ninguém brincou
E era carnaval.
Zelão, Sérgio Ricardo.
Copyright by Nossa Terra.
Eu nasci
em 1932, Marília tinha um ano de idade e lá eu descobri
meu paraíso, que era uma cidadezinha brotando, uma cidade começando.
À medida em que eu ia tendo necessidade da evolução,
Marília ia me oferecendo porque crescia também. Quando eu
precisei ir para o grupo escolar, foi inaugurado, o ginásio a mesma
coisa. Enfim, até os 17 anos, eu vivia nesse paraíso, usando
o vento como a rota da minha vida e descobrindo através dele toda
a poesia que talvez viesse impregnar o meu trabalho.
***
Aí eu fui para Santos. Quando tinha 17 anos, fui ser locutor e
programador de rádio, discotecário, tudo o que se faz em
rádio eu fiz porque era a rádio do meu tio, que me chamou
para fazer um estágio lá. Então eu aprendi tudo o
que se pode conhecer de rádio, até desligar transmissor
eu sabia fazer. Bom, agora, depois de Santos, eu vim pro Rio de Janeiro
e comecei a trabalhar em boate, logo depois do serviço militar,
aos 18 anos. Comecei a trabalhar na vida noturna do Rio de Janeiro, aquele
aumento efervescente, tanto lá como em São Paulo. Naquele
momento inclusive uma das coisas que aconteceram comigo, assim muito engraçadas,
foi que num dos meus primeiros empregos, um dos meus primeiros trabalhos
como pianista de boate foi substituir o Tom Jobim num clube chamado Posto
Cinco, onde ele tinha seus habitués e trabalhava ali, ele
largava inclusive a noite para orquestrador, arranjador, compositor e
tal. E eu começava como pianista para depois também seguir
quase que o mesmo trajeto. Não era compositor ainda, então
meu repertório girava em torno daquelas músicas americanas,
tocava muito essas coisas assim.
POT-POURRI:
[Música instrumental: Laura]
Laura, Johnny Mercer. Copyright
by EMI.
[Música
instrumental: Tenderly]
Tenderly, Jack Lawrence/Walter Gross. Copyright
by Warner Chappell.
Nesse momento,
eu, trabalhando como pianista, de repente descobri que cantava também
e nessa de cantar comecei a compor. Uma das minhas primeiras composições
Maísa ouviu numa das boates em que eu trabalhava - era até
o Dominó naquela época - e acabou gravando. A música
era essa aqui:
Casou
Maria
Com Zé casou
Jogou o buquê
Solteirona Isabel pegou
Isabel no seu quarto sozinha
E distante da gente chorando
Desfolha um buquê
Isabel toda vez que uma amiga casava
Comprava um vestido, se empoava para ver
Se arranjava também casamento
Porque era um tormento viver sem ninguém
Mas o tempo passando esquecia
De dar-lhe algum dia
Um noivo também
Ela agora já sabe que a vida
Tornou esquecida por tudo e por quem
Isabel diz no olhar esquisito
Num sorriso aflito
Pra que buquê?
Pra quê?
E nervosa ela desce o decote
E ajusta o saiote pra forma se ver
E ajeita o cabelo pra frente
O que a faz de repente rejuvenescer
E ao sair olha o quarto calado
Onde fica um passado
E, pelo chão, um buquê
Acabou solidão de Isabel.
Bouquet de Isabel, Sérgio
Ricardo. Copyright by Nossa Terra.

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