Muito
provavelmente por provocar a inveja confessada de Manuel Bandeira, que
daria tudo para havê-lo escrito, é considerado o verso
mais famoso da música popular brasileira aquele do poema Chão
de Estrelas, de Orestes Barbosa, musicado por Sílvio Caldas:
"Tu pisavas nos astros distraída". Mas há outros
dois que disputam com ele a palma, e talvez sejam mais populares: "Tire
o seu sorriso do caminho, que eu quero passar com a minha dor",
do samba A Flor e o Espinho. São do poeta, compositor e pintor
Guilherme de Brito, carioca de Vila Isabel, nascido em 3 de janeiro
de 1922, na Rua Teodoro da Silva, a mesma do halé célebre
de Noel Rosa.
Durante muito tempo, sem que se ouvisse jamais correção
ou queixa por parte de Guilherme, os versos lapidares foram atribuídos
a Nelson Cavaquinho, compadre, amigo, parceiro gêmeo e co-autor
do samba. Juntos, os dois fizeram dezenas de obras-primas, numa parceria
que começou em meados dos anos 50, num botequim do subúrbio
de Ramos, e só terminou com a morte de Nelson, mais de três
décadas depois. A construção dos sambas comuns
não seguia método rígido, mas em geral Guilherme
fazia toda a primeira parte, letra e música (caso de A Flor e
o Espinho), e Nelson a segunda completa, melodia e poema.
Enquanto Nelson viveu, Guilherme só compôs, em parceria,
com ele. Essa demonstração de fidelidade refletia traços
essenciais no comportamento de Guilherme de Brito, a coerência
e a confiabilidade que o tornaram, por exemplo, modelar funcionário
de emprego único: entrou praticamente menino, como estafeta,
para a Casa Edson, a pioneira da indústria fonográfica
no país, e de lá só saiu aposentado, como mecânico-chefe
da seção de conserto de máquinas contábeis.
O sambista, no mangueirense Guilherme, sempre conviveu com o seresteiro.
Seu modelo de cantor é o Orlando Silva das modinhas e canções
de Leonel Azevedo e Cândido das Neves. E foi com duas valsas -
Meu Dilema e Audiência Divina - que se tornou compositor gravado,
na voz soberana de Augusto Calheiros. Ter mais de 80 anos não
o impede de habitualmente varar as madrugadas em longas caminhadas,
nas serenatas semanais de Conservatória, capital e museu vivo
da canção brasileira, no município fluminense de
Marquês de Valença.
Moacyr
Andrade
ENSAIO
13/5/1993
Depoimento
de Nelson Cavaquinho:
Agora vou cantar uma música que eu fiz com Guilherme de Brito,
que espero muita coisa dessa música. Chama-se Depois Que Eu Me
Chamar Saudade. Eu estou proibido... Uns dois ou três dos meus
amigos me aconselharam a não falar mais em morte, eu não
queria mais em música falar em morte. Então o Guilherme
disse assim: "Vamos fazer, porque esse negócio de a pessoa
ter medo de morrer..." Eu não tenho medo de morrer, mas
não queria fazer e acabei fazendo com ele. Quando Eu Me Chamar
Saudade:
Sei que amanhã quando eu morrer
Os meus amigos vão dizer
Que eu tinha bom coração
Alguns até hão de chorar
E querer me homenagear
Fazendo de ouro um violão
Mas depois que o tempo passar
Sei que ninguém vai se lembrar
Que eu fui embora
Por isso é que eu penso assim
Se alguém quiser fazer por mim
Que faça agora
(Guilherme de Brito):
Me dê as coisas em vida
O carinho, a mão amiga
Para aliviar meus ais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais
Depois que eu me chamar saudade
Não preciso de vaidade
Quero preces e nada mais
Quando Eu Me Chamar Saudade, Guilherme de Brito/Nelson
Cavaquinho. Copyright by EDITORA MUSICAL ARLEQUIM LTDA.
GUILHERME DE BRITO - É, o compositor é sempre o sacrificado.
Ele passa na vida, como Nélson passou fazendo com o repertório
fabuloso que ele tinha e veio morrer praticamente na miséria,
né? Porque ele não conseguiu ficar rico com a música.
De maneira que esse é o destino da maioria dos compositores aqui.
Mas só que o cara, quando morre, aí aparece alguém
pra pôr o nome do cidadão numa praça, numa rua.
Haja vista o caso do Cartola agora. O Nélson Cavaquinho mesmo
tem um Ciep1 lá em Mesquita, o Ciep Nélson Antônio
da Silva - "Nélson Cavaquinho", e eu participei da
inauguração do Ciep. Mas é aquele caso: por que
não fizeram isso com o Nélson em vida? Por que, sei lá,
não melhoraram a vida do Nélson? Então só
depois que o cara morre é que pinta alguém pra fazer alguma
coisa.
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua
É no espelho que eu vejo a minha mágoa
A minha dor e os meus olhos rasos d'água
Eu na sua vida já fui uma flor
Hoje sou espinho em seu amor
Tire o seu sorriso do caminho
Que eu quero passar com a minha dor
Hoje pra você eu sou espinho
Espinho não machuca a flor
Eu só errei quando juntei minh'alma à sua
O sol não pode viver perto da lua
A Flor e o Espinho, Alcides Caminha/Guilherme de Brito/Nelson
Cavaquinho. Copyright by TODAMÉRICA MÚSICA LTDA. (ADDAF).
***
Meu parceiro nessa música foi Nélson Cavaquinho. Eu fiz
a primeira parte, naquele tempo eu precisava de um parceiro pra dar
uma força na minha música. De maneira que eu fiz a primeira
parte e procurei um parceiro. Essa primeira parte esteve com o Pedro
Caetano muito tempo, mas o meu querido Pedro não ligou. Um dia
eu dei ao Nélson, o Nélson fez a segunda parte que ficou
maravilhosa.
***
O Nélson era um sujeito muito popular, todo lugar que você
chegasse encontrava o Nélson com o violão. E eu morava
em Ramos na época, então eu saía pro trabalho de
manhã e passava num boteco, que tinha o nome de São Jorge,
um botequim que tinha lá, e via aquela aglomeração
na mesa, era o Nélson com seu violão. De manhã,
o Nélson com o violão cantandoali. Eu queria me chegar
ao Nélson, eu já era fã do Nélson, admirava
o Nélson. De maneira que às vezes eu voltava de noite,
quando saía do trabalho (trabalhava na Casa Edson), chegava ali
quando eu desembarcava, continuava o Nélson lá, desde
de manhã ali,
tomando a cerveja preta dele e cantando. Um dia eu fiz a primeira parte
de um samba e, muito timidamente, cheguei a ele e disse: "Nélson,
tenho essa primeira parte aqui, queria 1. Sigla de centros educacionais
no Rio de Janeiro que você visse se tá bom". E ele
aprovou e fez a segunda parte da Garça, ali começou a
nossa parceria. Garça era assim:
És uma garça vadia
Voando na orgia
Sem ter direção
Em busca de pérolas raras
De jóias bem caras
Pra tua ambição
Fugida de um ninho pequeno
De um lago sereno
Que foi todo teu
Mergulhas neste lodaçal
Procurando no mal
O que o bem não te deu
Com gargalhadas alegres e perfumes
Levas os pacatos coitados ao fim
És uma garça sem ninho
Que pensas que o lodo é o teu bom caminho
És uma garça vadia
Voando na orgia
Sem ter direção
Em busca de pérolas raras
De jóias bem caras
Pra tua ambição
Fugida de um ninho pequeno
De um lago sereno
Que foi todo teu
Mergulhas neste lodaçal
Procurando no mal
O que o bem não te deu
Garça, Guilherme de Brito/Nelson Cavaquinho. Copyright
by ADDAF.
***
Eu aprendi muito com Nélson. Nelson dizia sempre pra mim: "Ô,
Guilherme, faz música pra lavadeira cantar". Porque ele
gostava da letra simples que realmente fosse ao encontro do povão,
né? Então era um sujeito muito bom ele, dava esmola, não
podia passar por um pobre que ele tinha que dar uma esmola. Às
vezes eu ia andando com ele na rua, ele dizia assim: "Peraí,
Guilherme, peraí". Era um pobre que estava lá pedindo
uma esmola e ele passou sem dar essa esmola, então ele voltava
pra dar. Então era um sujeito muito bom, eu aprendi muito com
ele, foi uma lição de vida não só na música
como na vida, eu aprendi muito com ele, na maneira de viver, de me comportar.
***
Ah, o Nélson vendia samba à beça. Eu até
fiquei com medo quando comecei com ele, que o pessoal pudesse achar
que eu estava comprando samba do Nélson, que eu estivesse pagando
pra entrar na musica. Mas eu não me importei, primeiro é
que eu sabia da minha capacidade, modéstia à parte, e
segundo é que sempre fui duro também, como sou até
hoje, de maneira que não tinha condições de pagar.
Mas o Nélson vendia samba, Nélson trocava samba por dormida
numa estalagem que tinha ali na Central. Nélson fazia o samba,
eu não vou citar o nome do santo, mas ele fazia o samba, chegava
lá, procurava o dono da estalagem e dava: "Eu te dou uma
parceria em troca de uma semana de dormida aí". Então
ele era assim. Tem uma história interessante do Nélson,
que ele vivia uma ocasião lá na Mendes Sá, tinha
um boteco e o Nélson estava lá com o violão. Aí
apareceu uns desses cidadãos que compravam samba do Nélson.
Quando ele viu, ele disse: "Poxa, é pra agora".
Ele tinha muita facilidade pra compor, então ele improvisou ali
um samba e chegou perto do camarada: "Vem cá, fulano, tenho
um samba aqui pra te vender". O cara disse: "Como é
que é?" Ele aí cantou o samba que havia feito na
hora e o cara gostou, ele pegou o dinheiro e foi embora. Quando foi
daí mais ou menos uma semana ou 15 dias, o cara apareceu, querendo
saber: "Nélson, aquele samba que você me vendeu..."
Ele disse: "Que samba?" "Aquele samba assim que eu te
paguei". "Ah, não me lembro mais não".
Ele tinha feito o samba na hora. Era espetacular o Nélson.
***
Mulher? Nélson era um cara apaixonado, eu conheci muitas mulheres
na vida do Nélson, inclusive a Lígia, por quem ele era
apaixonado e tinha uma tatuagem no braço com o nome dessa mulher.
Não sei se ela ainda existe. Mas a verdade é que um dia
ele encontrou com a e essa foi quem deu Durvalina jeito na vida do Nélson.
O Nélson teve um período de antes da Durvalina e depois
da Durvalina. A Durvalina conseguiu controlar mais ou menos, né?
Que o Nélson, botar ele nos eixos completamente não era
possível, mas a Durvalina foi muito importante na vida dele pelo
o que ela fez por ele. De maneira que ela é minha comadre também
e ele também era, né? De maneira que a Durvalina fez muito
por ele, foi uma mulher maravilhosa na vida do Nélson.
***
Quando eu fiz? Ah, eu pra data... Eu não guardo data. Eu tô
esquecendo tudo, esqueço até minhas próprias músicas.
Mas sei que eu fiz essa música com o Nélson e quem gravou
foi Pery Ribeiro. Mulher sem Alma. Que era assim:
Fui tão bom pra ela
Dei meu nome a ela
Tudo no princípio eram flores
Sem saber que eu era demais
Entre seus amores
Quase passei fome
Para honrar seu nome
Tropecei nos erros de uma mulher sem alma
Mas não perdi a calma
Eu não sei por que isso acontece em minha vida
Mais uma ferida no meu peito a sangrar
Só a minha fé é que me traz consolação
Pra tanta humilhação
Que eu vivo a suportar
Fui tão bom pra ela
Dei meu nome a ela
Tudo, no princípio eram flores
Sem saber que eu era demais entre seus amores
Quase passei fome
Para honrar seu nome
Tropecei nos erros de uma mulher sem alma
Mas não perdi a calma
Mulher Sem Alma, Guilherme de Brito/Nelson Cavaquinho.
Copyright by ADDAF.
***
A história de Pranto de Poeta. Essa historia... Eu fiz essa samba
e mais outro samba pra Mangueira, porque, como falei há pouco,
eu aprendi a gostar da Mangueira, hoje sou mangueirense. Alô,
dona Zica, um abraço pra senhora no seu aniversário. Dona
Zica vai aniversariar. Um beijo pra senhora, que eu gosto muito da senhora.
De maneira que agora foi inaugurado o Viaduto Cartola lá em frente
à quadra, eu estive lá. Mas esse samba não foi
especificamente pra Nara, só falando da Mangueira. Mas um dia
o Cartola ligou pra minha casa, falou assim: "Guilherme, eu quero
gravar esse samba Pranto de Poeta, mas tenho minhas dúvidas,
tenho algumas dúvidas na letra, queria que você me ensinasse
como é". Então eu pelo telefone eu passei pro Cartola,
desfiz as dúvidas que ele tinha e o Cartola aprendeu o samba.
Mas eu fiquei cabreiro, digo: "Pô, por que o Cartola, com
o repertório tão fabuloso que ele tem, quer gravar esse
samba?" Depois é que eu entendi porquê que ele quis
gravar, porque logo depois que ele gravou o samba ele morreu e naturalmente
já estava prevendo a morte dele quando ele quis gravar esse samba,
que é assim:
Em Mangueira
Quando morre um poeta
Todos choram
Vivo tranqüilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar
Quando eu morrer
Em Mangueira
Quando morre um poeta
Todos choram
Vivo tranqüilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar
Quando eu morrer
Mas o pranto em Mangueira é tão diferente
É um pranto sem lenço que alegra a gente
Hei de ter um alguém pra chorar por mim
Através de um pandeiro e de um tamborim
Em Mangueira
Quando morre um poeta
Todos choram
Vivo tranqüilo em Mangueira porque
Sei que alguém há de chorar
Quando eu morrer
Pranto de Poeta, Guilherme de Brito/Nelson Cavaquinho.
Copyright by EDITORA MUSICAL BRASILEIRA (ADDAF).
