Em
1976, em plena reativação do choro surgia no Rio o grupo
Coisas Nossas inspirado na figura emblemática de Noel Rosa (1910-1937),
de quem desvelaram em LP, em 1980, o inédito samba-choro "Disse-me
Disse" (1936). Um de seus integrantes, o cavaquinista Henrique
Cazes (carioca de Vila Valqueire, 1959) retomaria Noel em discos com
a cantora Cristina Buarque ("Sem Tostão... a Crise Não
é Boato", "Sem Tostão 2... a Crise Continua...)
mas acabaria se transformando num dos baluartes do néo-choro,
movimento que encara o estilo mais como forma de tocar (com direito
a repertório ampliado) do que como gênero.
Diplomado na Camerata Carioca, que lançou os históricos
"Vivaldi e Pixinguinha" (1982) e "Tocar" (1983),
apadrinhada pelo maestro Radamés Gnattali (1906-1988), ao lado
entre outros de Joel Nascimento, seguidor de Jacob do Bandolim, Henrique
abriu inúmeras frentes na luta pela sobrevivência do instrumental
de qualidade. Desde redimensionar o papel de Waldir Azevedo na projeção
do pequeno instrumento em discos como "Tocando Waldir Azevedo"
(1990), "Relendo Waldir Azevedo" (1997), co-produzido por
J.C. Bottezelli, o Pelão, até retomar a idéia da
Orquestra Brasília recuperando arranjos traçados por Pixinguinha,
a quem também revisitou em discos como "Pixinguinha para
Crianças", "Sempre Pixinguinha - 100 anos", "Pixinguinha
de Bolso" até o "Eletro Pixinguinha XXI", onde
seu cavaquinho midi viaja entre "loops" e "samplers".
Ou em projetos pouco ortodoxos como o miscigenado "Bach en Brasil"
(2000), gravado na Inglaterra ou "Beatles in Choro" (2202),
idealizado por Renato Russo, do Legião Urbana. Dono de um toque
impetuoso filtrado por alta técnica (que ele exercita também
no violão tenor, banjo, bandolim e viola caipira) exibida em
discos como o solo de estréia que levou seu nome em 1988 ou "Desde
que o Choro é Choro" (1995), onde lidera o grupo Familia
Violão, o ativista Cazes também dissemina lições
em livros como "Escola Moderna de Cavaquinho" (Lumiar Editora,
1998) e "Choro, do Quintal ao Municipal" (Editora 34, 1998)
além de "Lietarura Mínima para Cavaquinho",
também pela Lumiar. E o choro continua.
Tárik
de Souza
ENSAIO
17/6/1993
[Música instrumental: Língua de Preto]
Língua de Preto, Honorino Lopes. Copyright 1953
by EDIÇÕES EUTERPE LTDA.
HENRIQUE CAZES - Isso é Língua de Preto, isso é
um lundu, acho que da virada do século,
do século passado, é do Honorino Lopes.
***
O Pixinguinha, né? Cada vez se descobre que ele é maior
do que se pensava. Eu sempre acreditei que havia muita coisa assim pra
se descobrir em Pixinguinha, pra se aprender com ele.
E como, infelizmente, não se ensina isso em escola de música
e tal, eu fui à luta e consegui, já aprendi bastante com
Pixinguinha, dele como arranjador consegui achar umas coisas e fazer
a orquestra Brasília, esse trabalho. E eu sinto que no mundo
inteiro tá havendo em diversos lugares, diversos músicos
se interessando em conhecer o Pixinguinha. E eu acho que isso é
interessante pro brasileiro ficar mais ligado e também sentir
um pouco uma dimensão mais ampla, mais universalizaste da coisa,
da figura, porque o Pixinguinha é grande de mais, tem que ser
muito estudado e muito tocado, tem muita coisa pra fazer sobre esse
assunto. O assunto é quase virgem ainda.
***
É, o pai do Pixinguinha era um flautista, né? E o Pixinguinha
teve a sorte de ter logo de pequeno, de criança, né? Ter
uma formação musical com o professor Irineu, né?
Irineu "Batina", Irineu de Almeida, que ensinou ele a ler,
tocar flauta e tudo isso. Porque ele começou tocando muito cedo,
né? Começou profissionalmente moleque ainda. E teve uma
vida toda muito interessante. Eu acho que foi um sujeito fiel a tudo
que gostava, que acreditava, a coisa das raízes africanas, foi
o cara que fez a síntese do choro, um dos pais da orquestração
no Brasil, um monte de coisas.
***
O negócio do Carinhoso mesmo ficou conhecido com a letra, né?
Quando o Orlando gravou em 36 e tal... Mas eu não sei exatamente
quando é que é não. Eu sei que é de bem
antes. Vou fazer aqui.
[Música Instrumental: Carinhoso]
Carinhoso, Pixinguinha/João de Barro. Copyright
1936 by ADDAF/MANGIONE, FILHOS & CIA. LTDA./ADDAF. Todos os direitos
autorais reservados para todos os países do mundo.
***
Sobre a obra? Quando eu comecei a estudar música, eu queria estudar
as coisas do Pixinguinha, sobretudo o jeito dele de orquestrar, que
era muito diferente. Eu gostava daquelas gravações de
marchinhas de carnaval da época, aquelas gravações
originais do Mário Reis com os arranjos do Pixinguinha, geniais,
sempre geniais, com modulações surpreendentes. Então
eu falei isso pro meu professor de música, que eu queria estudar.
Depois de estudar teoria, harmonia e tal, quando entrou na parte de
arranjo, falei pra ele que eu queria estudar isso e ele falou que ele
não gostava nem um pouco do jeito que o Pixinguinha escrevia,
que achava horrível. Aí nós tivemos uma briga,
eu acabei parando de estudar com ele por causa dessa história
e foi procurar, passei um tempo procurando onde é que tinha e
achei na Biblioteca Nacional uma coleção de arranjos do
Pixinguinha, que não tinha sido gravado, não se encontrava
na discografia dele. E em função disso fiz um trabalho
chamado Orquestra Brasília, que é uma banda, né?
Tocamos arranjos do Pixinguinha, que junta-se uma rapaziada nova e os
músicos da velha guarda, inclusive alguns que tocaram com Pixinguinha
na Rádio Tupi, o Ed Maciel, o Formiga, o Netinho que já
tá aí com 72, firme, tocando saxofone, o mais antigo talvez
em antigüidade aí.
***
O Pixinguinha com os Oito Batutas, o conjunto dele, foi fazer uma espécie
de lançamento do maxixe em Paris, a convite do Duque 1 e patrocinado
pelo Guinle, o Arnaldo Guinle. Muita gente se liga muito nesse aspecto
dele dizer do negócio do jazz, que eles voltaram tocando saxofone
em vez de flauta. Que o Pixinguinha viu um cara tocando saxofone numa
boate, ele tava junto com o Arnaldo Guinle e o Arnaldo Guinle perguntou
pra ele: "Você consegue tocar aquilo ali?" E ele falou:
"Compra um que eu toco". Aí compraram um saxofone na
Selmer lá, deram pra ele e ele tocou. Agora, eu acho que houve
muito mais troca de informação do que simplesmente a respeito
da coisa jazzística. Porque havia em Paris naquela época
um negócio chamado baile negro, que era uma moda em Paris que
era a música da Martinica, e havia um grande compositor, o Steliaux,
que era um clarinetista da Martinica, que tocava com o clarinete acompanhado
de um trombone, com o espírito exatamente idêntico ao que
se viu depois o Pixinguinha fazer alguns anos depois com o Benedito
Lacerda, ele tocando saxofone e o Lacerda tocando flauta. Então
na verdade acho que houve muitas influências, ele deve ter conhecido
músicos, influenciado pessoas e recebeu influências. Foi,
sem dúvida, uma coisa enriquecedora, né?Tem um maxixe
dele que chama Os Oito Batutas, né?
[Música Instrumental: Os Oito Batutas]
Os Oito Batutas, Pixinguinha/Benedito Lacerda. Copyright
1977 by IRMÃOS VITALE S.A. INDÚSTRIA E COMÉRCIO.
Todos os direitos autorais reservados para todos os países. ALL
RIGHTS RESERVED. INTERNATIONAL COPYRIGHT SECURED.
HENRIQUE - Olha, o choro, acho que ele passou por um processo... No
começo era um jeito de tocar, né? Depois acabou surgindo...
Depois virou o nome do conjunto, né? Era o choro do sujeito,
o choro da Chiquinha Gonzaga, o choro do Calado e tal. Era o conjunto
que tocava com aquele estilo, né? Depois com o Pixinguinha, que
foi o cara que realmente amarrou em termos de estilo, né? Se
transformou num estilo, né? Musical. Mas eu acho que o choro
acima de tudo, assim de uma forma parecida com o jazz, é um espírito,
uma maneira de tocar, de frasear, de sentir a coisa da improvisação,
por exemplo, que existe nas duas músicas, mas que é muito
diferente numa música e na outra. É o choro tem muito
mais... A improvisação é menos... Não tem
aquela coisa do chorus, né? Tem um chorus pro piano, um chorus
pra... A improvisação no choro é uma coisa muito
mais rítmica, né? Que acontece o tempo todo, todo mundo
tá tocando, todo mundo tá brincando, né? Tá
quebrando dentro de uma formação tradicional. Tem a coisa
da baixaria, que é uma coisa livre normalmente, que o cara cada
vez que volta a primeira parte da música o cara faz uma coisa
diferente.
***
É essa coisa da "obrigação" é
uma coisa engraçada. Houve assim um processo depois que a fórmula
se estabeleceu, né? Primeiro experimentava-se de tudo. Depois
que a fórmula estabeleceu que o choro era pra tocar com dois
violões, um pandeiro, um cavaquinho e um bandolim ou uma flauta
ou um clarinete, com um solista, com um regional, as terças do
violão e tal, eu acho que, depois que essa fórmula chega
ao máximo, né? Com o Jacób do Bandolim, com aquelas
gravações incríveis dele, realmente ficou uma repetição
muito grande desse negócio, né? E virou tudo "obrigação".
Porque... Eu acho que não tem "obrigação"
nenhuma.
A obrigação é a do cara tocar à vontade.
Claro que tem certas coisas que fazem parte da música, né?
Se o cara não fizer, o outro não entra ou dá um
bode no meio. Mas é, pensado como tava sendo pensado há
uns anos atrás, que era tudo absolutamente passado, o violão
tocava junto àquelas terças do início ao fim, eu
acho que essa fase, né? Do choro, foi uma fase que não
acrescentou muita coisa não. E o espírito, né?
Que eu acho importante tentar passar, principalmente quando a gente
toca fora do Brasil. Por exemplo, lá no Japão, quando
eu fui fazer a primeira turnê lá em 89, como solista, o
meu amigo, o meu cavaquinista, meu aluno de cavaquinho, o Mitsuro, Mitsuro
Enoue, Mitsuro do Cavaco, ele tem um conjunto de choro, que me acompanha
lá e tal. E o Mitsuro também é meu empresário,
né? E ele, o Mitsuro, trata dessas viagens e tal, ele é
que negocia as coisas. É muito engraçado, ele é
um japonês com o cabelo igual ao do Gullit. Sabe daquele craque
lá da Europa? Bem, o que acontece é que o Mitsuro falou
assim: "Olha, a gente vai tocar em lugares, em clubes de jazz,
em lugares que
nunca ninguém ouviu música brasileira. Então você,
pra dizer que é do Brasil, pra se apresentar como brasileiro,
tem que tocar a música brasileira que mais é conhecida
aqui, que é o Manhã de Carnaval". Ai eu falei: "Pô
tudo bem. Agora, eu vou tocar Manhã de Carnaval, que todo mundo
conhece e que identifica como sendo do Brasil, com o espírito
do choro. Porque
aí as pessoas vão ficar sabendo que tem o Brasil e tem
um jeito de tocar que é de lá, que vem do Rio de Janeiro,
que é o ritmo do choro que nasceu com o Pixinguinha, esse negócio
todo", né? Então ficou mais ou menos nesse clima
aqui:
[Música instrumental: Manhã de Carnaval]
Manhã de Carnaval, Luiz Bonf/Antônio Maria.
Copyright 1958 by EDIÇÕES EUTERPE LTDA.
HENRIQUE
- No final do século passado assim tava na moda, né? As
danças que vinham, já a partir de 1860, as danças
que vinham da Europa, a polca, a mazurca, o scotch, a valsa que já
era mais antiga. E os músicos populares, né? Da época,
os músicos que tocavam de ouvido, eles ouviam no piano aquelas
músicas sendo tocadas e iam traduzindo aquilo à sua maneira.
Eu acho que isso aí é o fio mais ou menos assim por onde
começa a história.
E cada um deles foi criando com o nome dessas danças, que na
verdade as músicas já tinham um espírito, uma maneira
chorada de tocar, mas ainda tinham como gênero a polca, o scotch,
essas coisas todas. Então, por exemplo, o Calado fez muita polca
que é polca mesmo, né? E algumas polcas que já
têm uma conotação mais maxixada, a própria
melodia
já sugere isso. Tem uma polca que eu gosto muito dele, que é
pouco tocada, é uma chamada Saudosa. Vou tocar aqui.
[Música instrumental: Saudosa]
Saudosa, Antônio Callado. DOMÍNIO PÚBLICO.
Gostou?
***
Bem, a Chiquinha Gonzaga, né? Foi uma compositora que fez muita
música pra teatro, né? A grande marca da Chiquinha é
a passagem dela pelo teatro de revista como maestrina e como... Ela
fazia também muita coisa de adaptação, pegava coisas
que eram cantadas já, que não sabia de quem era, e adaptava
aquilo, fazia se uma nova letra e adaptava pro teatro. É uma
compositora típica de piano mesmo, né? Dessa geração
dos pianistas dela, Nazaré, etc. e tal. E é pouco tocado,
não se conhece muita coisa da Chiquinha e quase tudo precisa
do piano, né? Pra tocar. Vamo lá?
[Música instrumental: Gaúcho]
Gaúcho, Chiquinha Gonzaga. DOMÍNIO PÚBLICO.
INTERVALO
[Música instrumental: Revendo o Passado]
Revendo o Passado, Freire Júnior. Copyright by
ADDAF.
Bonito, né?
***
Eu nasci no Rio de Janeiro, no Andaraí, em 1959.
***
Lá em casa nós éramos cinco irmãos, né?
Eu sou o mais novo, depois é o Beto, depois tem mais dois homens
e uma mulher. E havia um ambiente de muita música, meu pai era
compositor amador, tocava violão e fazia letra e música,
gostava de muito escrever e tal. Minha mãe cantava, sempre gostou
de cantar, e ainda canta até hoje, e gostava do repertório
da Carmem Miranda, da Araci de Almeida e sobretudo da Elizeth Cardoso,
que Elizeth era especial. Tanto que quando eu fui tocar, anos depois,
na Camerata Carioca, que eu fiz o primeiro show com a Elizeth, aquilo
foi pra eles assim uma coisa demais mesmo, porque a Elizeth era uma
espécie de preferida, né?
***
Olha, eu comecei a tocar violão com seis anos de idade, vendo
os irmãos tocar, vendo meu pai tocar, mas não havia uma
preocupação propriamente com passar um ensino, uma coisa
codificada e organizada, estudar o instrumento. A música sempre
foi uma coisa ligada fundamentalmente ao prazer, à diversão,
ao encontro de fim de semana, à brincadeira mesmo, né?
Havia se essa forma de lazer que era uma coisa compartilhada por diversas
pessoas em casa, que tocavam juntas. Meus irmãos tiveram um conjunto
de iê-iê-iê, né? Que eu tinha cinco anos e
tocava bongô, fazia barulho lá no conjunto de iê-iê-iê
deles. E mais tarde,
quando surgiu a primeira oportunidade assim de trabalhar, como existe
muito violonista, apareceu a primeira oportunidade quando eu tinha 17
anos de me profissionalizar, foi uma oportunidade com o cavaquinho e
a partir dali eu peguei o cavaquinho, que era um negócio que
tinha lá em casa, que a gente usava em função de
tocar em grupo, né? E passei a me dedicar e tal, sempre sozinho,
né? Estudei sozinho. Só estudei música, a parte
teórica, né?
Que eu contei aqui o negócio que eu estudei até brigar
com o professor. Mas o cavaquinho e os outros instrumentos que eu toco
eu estudei por conta própria e o Paulo Sérgio Santos,
um grande clarinetista, diz que... Eu falo pra ele: "Eu fico pensando
hoje em dia como é que eu estudei sozinho". O Paulo Sérgio
falou uma coisa: "Você teve muita sorte, você não
teve ninguém pra te atrapalhar". Não teve ninguém
pra ajudar, mas não teve ninguém pra atrapalhar.
Que segundo as teorias dele, atrapalha mais do que ajuda, né?
***
O Garoto foi um craque nesses instrumentos todos, e principalmente no
violão, e um grande responsável pela evolução
do gênero, né? E do violão brasileiro e do choro.
A ligação dele com o Radamés também acho
que foi um pedaço assim importante e um caminho da modernização
mesmo, né? De se incorporar outras coisas, né? Eu sou
uma pessoa muito ligada na evolução, estou sempre pensando
pra frente, né? E o Garoto sempre me interessou muito por causa
de eu achar que, apesar dele ter morrido muito novo, né? Ele
já tinha andado bem adiante, né? Tinha ido muito adiante.
