Ivan
Guimarães Lins é o autor brasileiro mais conhecido e executado
fora do Brasil, idolatrado por gerações de intérpretes
instrumentais e vocais - de Joe Pass e Sarah Vaughan a Pat Metheny e
Dee Dee Bridgwater, elogiado como um dos grandes músicos do século
20 por gente do porte de Quincy Jones ou Wynton Marsalis. Os seis citados
são nomes do mundo do jazz, música de músicos,
o que faz curioso saber que a arte de Ivan Lins é quase intuitiva.
Nascido no Rio de Janeiro, em 16 dejunho de 1945, Ivan não teve
estudo formal de música. Havia um piano em casa, mas era da irmã
mais velha. E Ivan achava que piano era coisa de moça. Só
aos 18 anos aproximou-se do instrumento, para tocar jazz e bossa nova.
Em seguida, começaria com o violão - já que o piano
não poderia ser carregado para as festas onde o garoto boa-pinta
reinava. Em 1969, ao mesmo tempo em que Ivan formava-se em química
industrial (profissão que nunca exerceu), Elis Regina gravava
o primeiro grande sucesso do compositor - Madalena, que tinha letra
de Ronaldo Monteiro de Souza. No ano seguinte, Ivan comandaria o programa
Som Livre Exportação, da TV Globo, tendo como companheiros
a turma de músicos tijucanos com os quais formou gosto e conhecimento
musicais - Aldir Blanc, Gonzaguinha, César Costa Filho e outros.
Em 1974, com o lançamento do elepê Modo Livre, inaugurava-se
a parceria Ivan-Vítor Martins, com o sucesso Abre Alas. Juntos,
eles foram parte importantíssima da melhor trilha sonora dos
anos 70 e 80, com músicas como Somos Todos Iguais Essa Noite,
Aos Nossos Filhos, Bandeira do Divino, Cartomante, Começar de
Novo, Novo Tempo, Saindo de Mim, Desesperar, Jamais. Bilhete, Vitoriosa.
No final dos anos 80, os parceiros criaram uma gravadora independente,
a Velas (inicialmente tendo como terceiro sócio o produtor Paulinho
Albuquerque), capítulo fundamental na fonografia alternativa
brasileira: as multinacionais do disco abandovam a música de
qualidade, cujos autores começaram a migrar para os selos alternativos.
Atualmente desligado da Velas, Ivan estabeleceu, a partir do início
do novo século, bem-sucedida parceria com o paulistano Celso
Viáfora, com quem compartilha a autoria do samba Emoldurada.
Morando na região serrana do Estado do Rio de Janeiro, Ivan divide
o tempo entre gravações e espetáculos no Brasil
e no exterior e, no fim de 2002, atuou como produtor do disco Sweet
Lady Jane, da cantora Jane Duboc.
Mauro
Dias
ENSAIO
13/4/1991
Ô
Madalena, o meu peito percebeu
Que o mar é uma gota
Comparada ao pranto meu
Eiêiêiêiê
Fique certa
Quando o nosso amor desperta
Logo o sol se desespera
E se esconde lá na serra
Oh, Madalena
O que é meu não se divide
Nem tão pouco se admite
Quem do nosso amor duvide
Até a lua se arrisca num palpite
Que o nosso amor existe
Forte ou fraco
Alegre ou triste
Oh, Madalena, Madalena
Ô Ma, ô Mada, ô Madale, ô Madalelelelelena,
ô lalá
Ô Mada, ô Madale, ô Madalelelele, ô ma, ô
Mada, ô Madale
Leleiêiê ô ma...
Madalena, Ivan Lins/Ronaldo Monteiro. Copyright by WARNER
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Bom... Eu nasci no Rio de Janeiro, em 16 de junho de 1945, no bairro
da Tijuca, e tal. Quer dizer, nasci numa casa de saúde em Copacabana,
mas eu morava na Tijuca, tiveram que carregar pra lá porque eu
estava lá perto quando a minha mãe entrou em trabalho
de parto e não deu tempo de ir até a Tijuca, então
foi em Copacabana mesmo.
***
Bom, meu pai oficial de Marinha, minha mãe professora, né?
Depois que casou, ela largou o magistério. Meu pai, como naquela
época todo militar, né? Quer dizer e com cinco filhos,
porque eu tenho mais quatro irmãos, né? Quer dizer, formou-se
uma família grande, meu pai teve que, como engenheiro naval inclusive,
ele foi para os Estados Unidos pra se especializar. E quer dizer a gente
era classe média e tal, naquela época, como hoje os militares
não são assim pessoas... A não ser na época
da ditad..., né? Da famosa, né? Querida nossa revolução,
entendeu? Que vários militares se enriqueceram. Mas naquela época
os militares tinham dificuldade pra se enriquecer. Então meu
pai tinha problemas financeiros, então ele tinha que se virar,
então tinha que arrumar outros meios fez muitos cursos, meu pai
era uma pessoa muito estudiosa e tal. E minha mãe, dona Lulá,
né? E educação muito rígida. E a gente morava
numa chácara no Andaraí, naquela época ainda era
possível no Andaraí, na rua Leopoldo, ter chácaras
com árvores frutíferas. Hoje tem um prédio lá
de não sei quantos andares e tal.
***
Dos meus avós assim, eu só lembro do pai da minha mãe
e do pai do meu pai, as minhas avós eu não cheguei a conhecer,
quer dizer, não lembro delas, né? Porque com dois anos
de idade fui para os Estados Unidos e só voltei com cinco, nesse
período minhas avós já tinham morrido e só
vim realmente a conhecer meus avôs. E quer dizer, o pai do meu
pai era uma pessoa assim super calma, um cara super tranqüilo,
na dele, né? Já o pai da minha mãe era um cara
superneurótico, nervoso, autoritário, entendeu? Que eu
me lembro de cenas assim quando era garoto, dele quebrando copos na
cabeça dos empregados, era uma pessoa assim muito...Né?
***
Eu lembro disso, que eram copos de cristal, minha mãe tinha trazido
dos Estados Unidos. A gente tinha acabado de chegar dos Estados Unidos,
estava morando lá na chácara com ele e ele discutiu com
um empregado daqueles, chamou o empregado e todos os copos de cristal
verdes da minha mãe foram parar na cabeça. Eu assistindo
aquela cena e não entendendo nada, ele jogando os copos na cabeça.
Lembro do meu avô assim, não são lembranças
muito... Né?(ri)
***
Bom, a minha mãe, quer dizer, ela era assim talvez a filha assim
mais ligada ao meu avô, né? Tanto que, quando o meu avô
morreu, quer dizer, ela de repente até parece que incorporou
um pouco, entendeu? Aquele lado autoritário do meu avô.
Acho que a minha mãe não recebeu muito bem, né?
A perda do pai, né? E de uma certa forma, quer dizer, minha mãe,
quer dizer, depois da morte do meu avô, ela tornou-se assim uma
pessoa muito difícil, né? E assim, coisas assim que eu
lembro da minha mãe foi exatamente sobre uma namorada que eu
tinha. Não era namorada, era uma paixão de garoto. Eu
tinha o que? Uns nove dez anos, né? E ela morava no segundo andar,
eu morava no décimo, a gente estudava no mesmo colégio,
na mesma série. Eu era apaixonado por essa menina, aquele amor
platônico e tal. E um dia ela bateu na porta lá de casa,
querendo fazer os deveres, né? Que ela tinha faltado à
aula e queria copiar os deveres. Aí apareceu aquela beleza na
porta, eu falei: "Por favor, entre". Levei ela até
a mesa da sala, entreguei meus cadernos e tal: "Copia aí",
e tal, não sei quê, tá. Aí eu lembrei que
havia uma ordem expressa da minha mãe que não deixasse
ninguém entrar em casa sem autorização dela. Eu
fui, me dirigi a minha mãe, ela tava no quarto não me
lembro, e avisei: "A Ana está aí copiando os deveres".
Então ela falou: "Com ordem de quem ela entrou aqui?"
Aí eu fiquei assim: "Não, não, não
tem nada de mais". "Tem sim. Eu não dei ordem, então
ela não podia ter entrado". Foi lá e botou a garota
pra fora de casa, assim na minha frente. Puxa vida, eu fiquei arrasado,
né? Fiquei acho que um ano sem passar perto da garota. Que horror!
***
Bom, minha ligação com música é uma coisa
que veio desde a infância já, meus pais já falavam
que eu era um cantor nato assim, vivia batucando, cantando. Eu andava
com meu... Andava aquela caminha, não sei quê. Eu ficava
cantando e andava pela casa toda dançando assim em cima do berço,né?
Mas meu contato assim com música assim, que eu lembro assim,
o primeiro foi quando eu fui para os Estados Unidos. Eu tinha dois para
três anos de idade, meu pai me forneceu uns discos de música
do Walt Disney, Pinóquio, aquelas coisas todas, né? Cinderela,
Branca de Neve, e também música de Stephen Forster, que
é um compositor de música folclórica americana,
que fez Oh, Suzana, fez Capital Races, várias músicas
da época da guerra da secessão, essa coisa toda. E eu
lembro assim, muito assim dessas músicas, assim um pouco, né?
Quer dizer Stephen Forster, né? Que é aquela. (cantarola)
Ou aquela. Capital races sing a song... (cantarola) E esse foi assim
meu primeiro contato com música que eu lembro. E eu acho que
inclusive essas músicas que eu escolhi... Quer dizer. Porque
dentre vários discos e várias músicas que eu tive
contato na época, eu mesmo naquela época escolhi as minhas
favoritas e depois, analisando, há dois anos atrás resolvi,
entrando nesse assunto, né? Eu me deparei com como essas músicas
me influenciaram até hoje, pela forma harmônica e melódica,
atitude melódica e harmônica dessas músicas até
hoje permanecem na minha obra. Como desde três anos de idade,
quer dizer, essa atitude melódica e harmônica é
tão forte na minha música hoje, dessas que eu escolhi,
né? Que eu optei como as minhas favoritas daquela época.
***
Bom quando eu cheguei no Brasil, né? Cheguei em 1950, e aí
fui morar com meu avô na chácara e depois quer dizer, fiquei
morando. Depois morei na Muda da Tijuca, e fui tal... Morei em Niterói
uma época, exatamente quando acontece aquele fato da minha mãe
expulsar a minha paixão da sala e tal. E nessa época eu
ouvia muito rádio, né? Escutava radio e ouvia muito a
Rádio Nacional, e aqueles programas do César de Alencar
e outros, né? Manoel Barcelos, Paulo Gracindo. E eu era fã
do Carlos Galhardo, né? Não sei assim Carlos Galhardo
e Nora Ney, quer dizer assim, e o Risadinha que amo até hoje,
não sei por que... Risadinha. (ri) Não sei por que, né?
Tem as músicas que eles cantavam lá, alguma coisa. Eu
acho que Carlos Galhardo foi por causa da Branca de Neve, né?
Que ele cantava aquela música, da Branca de Neve, do príncipe.
Então, como eu era ligado ainda às músicas das
histórias, né? Então pode ser... A Nora Ney, que
dizer, Ninguém me Ama. Eu tenho pouca lembrança assim
das músicas assim da época, né? O Carlos Galhardo,
né? Quer dizer, Fascinação. Um negócio...
Por aqui né?
Os sonhos mais lindos sonhei
De quimeras mil um castelo ergui
E no teu olhar
Tonto de emoção
Com sofreguidão mil venturas previ
O teu corpo é luz
Sedução
Poema divino cheio de esplendor
Teu sorriso prende, inebria,
Entontece
És fascinação
Amor
Facinação (Facinacion), F. D. Marchetti/M.
de Feraudy (Versão: Armando Louzada). Copyright 1951 by IRMÃOS
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para todos os países do mundo. ALL RIGHTS RESERVED.
***
Nora Ney. Como é que é?
Ninguém me ama
Ninguém me quer
(cantarola)
Demais, né? A harmonia ainda é bonita até hoje.
E vai por aí.
***
Naquela mesma época, né? Quer dizer, também tinha
um programa no rádio que chamavase Hora da Broadway, que tocava
muita música americana. Que foi assim o meu contato, quando eu
voltei a ter contato com a música americana de novo foi através
desse programa e aí tocava todo tipo de música, né?
Tocava Frank Sinatra, tocava rock, na época, Elvis Presley. Eu
não gostava do Elvis Presley, a não ser das músicas
lentas dele. Gostava mais do Pat Boone, que era mais romântico.
Eu já tinha uma veia romântica, lírica e tal. E
Frank Sinatra também, né? Depois me tornei fã do
Frank Sinatra e um dia até me dei conta de que talvez a grande
paixão que eu tinha pelo Frank Sinatra não era nem muito
por ele, mas pelas músicas que ele cantava e principalmente pelas
bandas que estavam por trás dele, né? Que era o Nelson
Reedle na época, Billy May, né? E uma das músicas
que eu lembro assim que eu era superfã era I've got you under
my skin.
I've got you under my skin
I've got you deep in a heart of me
So deep in my heart you're really a part of me
I've got you under my skin
I've got you under my skin
I said to myself that I never go so well
And why should I try to resist
When darling I know so well
I've got you under my skin
Ive Got You Under My Skin, Cole Porter. Copyright by
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