Em oposição ao cantor das multidões Orlando Silva, o humorista Silvino Netto chamou o mineiro de Cataguazes Lúcio (Ciribelli) Alves (1927-1993) de "cantor das multidinhas". Queria com isso contabilizar o público diferenciado que cultivava sua voz grave maleável mas sem vibrato, ouvida inicialmente no conjunto Namorados da Lua, que ele integrou a partir dos precoces 14 anos. Aos 17, compôs um clássico da modernidade pré-bossa nova, "De Conversa em Conversa", em parceria com Haroldo Lobo, o mesmo que dividiria com ele outro sucesso, "Baião de Copacabana", em 1952. O Namorados (que revelaria também o cantor Miltinho) chegou a acompanhar Carmen Miranda nos EUA, mas Lúcio preferiu carreira solo e reinou nas paradas na era de transição do samba canção ("Amargura", "Se o Tempo Entendesse", "Terminemos Agora", "Sábado em Copacabana", "Na Paz do Senhor"). Rivalizava com Dick Farney cujos fãs formaram um clube que o reverenciava junto com Frank Sinatra. Em contraponto, havia o Dick Haymes/Lúcio Alves Fã Clube. A reunião das torcidas deu-se em 1954 quando os dois gravaram juntos o samba canção dialogado "Tereza da Praia", de Tom Jobim e Billy Blanco. Com o novo movimento, o precursor Lúcio foi redescoberto em discos como "Sua voz íntima, sua bossa nova interpretando sambas em 3D" (1959) e "A Bossa é Nossa" (1961). Em 1960, dedicou um LP inteiro ao samba canção refinado de Dolores Duran. Na Elenco, gravadora do ex- Bando da Lua Aloisio de Oliveira (autor de "Solidão", a versão do bolero "Tres palabras", primeiro sucesso do cantor), Lúcio lançou o suingadíssimo "Balançamba" (1963), abordando a obra da dupla Roberto Menescal/Ronaldo Bôscoli de "O Barquinho", "Rio", "Tetê", "Nós e o Mar". Lúcio gravaria também no selo "Bossa Session", com Sylvia Telles. Mais adiante, seria produtor musical de TV (especialmente na TVE), duetaria com Doris Monteiro e registraria dois discos de canções com nomes de mulheres. Uma dessas músicas, a romântica angustiada "Helena, Helena, Helena" (de Alberto Land, morto em 2002) marcaria o ultimo grande êxito deste cantor singular.

Tárik de Souza
MPB ESPECIAL
2/4/1973

Mas pra que?
Pra que tanto céu?
Pra que tanto mar?
De que serve essa onda que quebra?
E o vento da tarde?
De que serve a tarde?
Inútil paisagem
Pode ser que não venhas mais
Que não venhas nunca mais
Pra que servem as flores
Que se abrem pelos caminhos?
Se no meu caminho
Sozinho
É nada
É nada

Inútil Paisagem, Antônio Carlos Jobim/Aloísio de Oliveira. Copyright by JOBIM MUSIC LTDA.

Olha, eu conheci Tom no antigo auditório da Rádio Tupi, quando ele levava uma música para o nosso colega o Hernani Filho. E depois então eu tive o prazer de tê-lo em minha casa, quando ele compunha com Billy Blanco Sinfonia do Rio de Janeiro, Sinfonia de uma Cidade, da qual eu fiz parte com o cast da Continental: Dick Farney, Emilinha Borba, Gilberto Milfont, Jorge Goulart, Nora Ney, Doris Monteiro, Os Cariocas, eu, tinha Jamelão também, Elizeth Cardoso. A minha parte que eu cantei até foi: Arpoador Meu cantinho de areia - Falava sobre o Rio de Janeiro, o mar que abriu a montanha, o bairro bonito surgiu, Copacabana, o Dick iniciava. E daí pra adiante continuei amigo de Tom, freqüentei muito o barzinho onde ele tocava com o parceiro dele, o Newton Mendonça. Que era o Tudo Azul, de saudosa memória, um uisquinho amigo e um papo sensacional com o Tom.

***
- O Tom, o Tom é um sujeito sensacional, o Tom é gente, é um pouco introspectivo assim, mas ele é espetacular, é um cara da maior sensibilidade musical e humana. Tom é o imprevisto, né? É o imprevisível. Ele vai pro piano, às vezes a gente fica pensando numa harmonia que vai cair naquela, mas não é, cai na outra. Porque ele inventa mesmo, é o rei do instrumento dele, é um orquestrador de mão cheia mesmo, um compositor e um intérprete. Por incrível que pareça, eu gosto de ouvir o Tom cantar, acho que ele canta direito, sabe cantar.

***
- Eu cantei uma música do Tom, além dessa Inútil Paisagem, que eu acho um clássico da música popular brasileira. Inclusive aquela máquina carregou todos os reboques da música popular brasileira numa viagem aos Estados Unidos e Europa, que é Garota de Ipanema.

Olha que coisa mais linda
Mais cheia de graça
É ela menina
Que vem e que passa
Um doce balanço
Caminho do mar
Moça, do corpo doirado
Do sol de Ipanema
Seu balançado é mais que um poema
É a coisa mais linda que eu já vi passar
Ai, por que estou tão sozinho?
Ai, por que tudo é tão triste?
Ai, a beleza que existe
A beleza que não é só minha
Que também passa sozinha
Ai, se ela soubesse
Que quando ela passa
O mundo inteirinho se enche de graça
E fica mais lindo por causa do amor
Por causa do amor
Por causa do amor

Garota de Ipanema, Antônio Carlos Jobim/Vinícius de Moraes. Copyright by JOBIM MUSIC LTDA./TONGA EDITORA MUSICAL LTDA. (BMG MUSIC).

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- Eu cheguei ao Rio assim aos sete anos de idade, em 1934. Vinha de Cataguazes, uma terrinha mineira no meio do mato assim, Zona da Mata. É uma terra assim um pouquinho metida a besta, porque ela diz que lá nasceu o cinema nacional. Realmente nasceu, foi o primeiro filme que se fez, com Humberto Mauro. É a terra de Rosário Fusco, a terra de José Mauro. É uma terra pequenininha, mas que tem um painel de Portinari talvez até maior do que ela, o painel da Independência. O cataguasense se vangloria muito disso, porque inclusive esse painel já recebeu assim propostas do México para compra e o cataguazense não vende de jeito nenhum. Senão ele perde, né? Não vai poder falar mais em Cataguazes. Mas eu tô brincando, Cataguazes é uma cidade muito progressista, principalmente em termos de arquitetura. Lá nós temos diversos painéis de Portinari, temos painéis de... Me foge o nome agora. Temos assim construções de Niemeyer, o colégio foi projetado pelo Niemeyer e assim casas particulares também, porque lá tem muito "tutu", tem lá que o dinheiro tá saindo assim a rodo. Então eles constroem as residências mais pomposas, quer dizer, sabem viver, vivem bem até um certo ponto. Mas eu cheguei aqui ao Rio, a minha família toda ela foi de músicos, meu pai era maestro da banda da praça, era farmacêutico, tocava bombardino.

Hoje em dia não se usa muito isso. E ele ia lá pra praça, era o maestro. Minha mãe tocava piano. Minha tia, piano. Minha irmã, violino. Meus irmãos, violão. E eu, cavaquinho. Aí eles cismaram que eu tinha que aprender ou piano, ou violão ou violino. Então eu fui mexendo no violão, aprendendo umas posiçõezinhas, isso aos cinco anos de idade. Com sete anos eu já estava tocando um violãozinho, mais ou menos, como toco até hoje. E eu ganhei do meu pai aqui no Rio de Janeiro um violão que custou 14 merréis, era de cravelha. Pra afinar, se eu fosse fazer o programa, vamos dizer, no domingo, eu tinha que começar a afinar na segunda-feira anterior pra até que ele ficasse bem afinadinho, porque senão não dava pé. Eu estreei num programa chamado Bombonzinho, do Barbosa Júnior. Era um programa de crianças, de guris. Me recordo que eu cantei foi Um Juramento Falso. Não me recordo o autor no momento 2, sei que é gravação de Orlando Silva. Era um sucesso na época.

Um juramento falso
Faz a gente sofrer
Um sorriso fingido
Dos lábios de uma mulher


***
- Não é isso, não. É isso, sim. Mas o tom também não é esse. Cantando no tom de Vicente
Celestino, não dá.

Um juramento falso
Faz a gente sofrer
Um sorriso fingido
Dos lábios de uma mulher
Quando se tem amizade
Sofre-se a dor de verdade
Sempre com os olhos fitos na felicidade
É duro, é triste, é cruel
A dor de uma saudade
Quando se teve nas mãos a felicidade

Um Juramento Falso, J. Cascata/Leonel Azevedo. Copyright 1937 by MANGIONE, FILHOS & CIA. LTDA. Todos os direitos autorais reservados.

***
- É por aí, o resto não me lembro bem. Agora, tem uma musiquinha que eu fiz que é um gozo, que eu cantei nesse programa também, o Barbosa me deu uma chance: "Tá aqui o garoto prodígio que, além de cantar, compõe". Aquela jogada de garoto prodígio, né?

É um negócio assim.
Meu cavaquinho
Foi a minha salvação
Ao te dar meu carinho
Tu me deste inspiração
2. J. Cascata / Leonel Azevedo
Eu peguei no cavaco
Fiz um samba chorado
Solei uma canção
Vejo que estou inspirado
E vê se volta, mulher
Para o meu barracão
Aqui tem lua
Tem cuíca e violão
Aqui só falta você
Para alegrar o meu coração
Cumé que não?
Meu cavaquinho

Meu Cavaquinho, Lúcio Alves. DIRETO.