Como
é que um pernambucano, nascido em Caruaru, pôde compor
uma toada tão tipicamente do sudeste como é Menino de
Braçanã? É que, antes de completar dez anos de
idade, Luís Rattes Vieira Filho mudou-se, com a família,
da cidade pernambucana para o interior do Estado do Rio, onde às
tensões da música nordestinas ouvidas até então
somaram-se as cadências largas das canções daquele
fundo da Baía da Guanabara, área de concentração
de migrantes interioranos de São Paulo, Minas, Mato Grosso, Goiás.
Luís Vieira veio ao mundo no dia 12 de outubro de 1928. Já
no Rio, foi chofer de caminhão, engraxate e até guia de
cego, enquanto tentava a sorte como cantor e compositor. Cantou em cabarés
da Lapa carioca boêmia e chegou ao rádio em 1946, estreando
no programa Manhãs da Roça, de Zé do Norte, do
qual tornou-se. com o tempo, diretor músical. No final daquela
década, a Rádio Tamoio precisava de alguém para
concorrer com outro Luís pernambucano, o Gonzaga, consagrado
como Rei do Baião. Luís Vieira tornou-se o Príncipe
do Baião (a rainha era Carmélia Alves, e a princesinha,
Claudete Soares). No início dos anos 50, recebeu à porta
da rádio um certo João Batista do Vale, compositor maranhense
que tinha chegado ao Rio via Teófilo Otoni, Minas Gerais, na
qualidade de ajudante de caminhoneiro. João disse que era compositor
e mostrou-lhe o início de Na Asa do Vento. Luís Vieira
acertou a canção, gravada, enfim, em 1953, por Dolores
Duran. Foi um de seus maiores sucessos. Outro grande sucesso é
de 1962: o Prelúdio para Ninar Gente Grande, composto a bordo
de um avião e mais conhecido como Menino Passarinho. Pioneiro
da televisão, empresário, redator de programas de rádio
e TV, publicitário, Luís Vieira tem parcerias com Adoniran
Barbosa (Encalacrado) e Luís Bandeira (Cafundó), além
das várias com João do Vale - além de Na Asa do
Vento, Maria Filó, A Voz do Povo e, em ponto destacado, a obra-prima
Estrela Miúda.
Mauro Dias
ENSAIO
19/3/1975
- Mas eu estou sempre livrando a cara do violão, deixo eles e
tal. Eles é que... Não, eles vão tocar guitarra,
só guitarra.
***
- Ih, rapaz, que calor da peste, um suadô da moléstia.
Segunda vez termina em fá menor.
(cantarola)
Você é isso
Uma beleza imensa
Toda a recompensa
De um amor sem fim
Você é isso
Uma nuvem calma
No céu de minh'alma
É ternura em mim
Você é isso
Estrela matutina
Luz que descortina
Um mundo encantador
Você é isso
É parto de ternura
Lágrima que é pura
Paz do meu amor
Você é isso
Uma beleza imensa
Toda a recompensa
De um amor sem fim
Você é isso
Uma nuvem calma
No céu de minh'alma
É ternura em mim
Você é isso
Estrela matutina
Luz que descortina
Um mundo encantador
Você é isso
Parto de ternura
Lágrima que é pura
Paz do meu amor
Prelúdio Nº 2, Luiz Vieira. Copyright by EDITORA E IMPORTADORA
MUSICAL FERMATA DO BRASIL LTDA.
- Nasci em Caruaru de Pernambuco, o país de Caruaru. Caruaru
hoje é um país, já deu até ministro da Justiça,
Fernando Lira, sem falar de Austregésilo de Athayde, né?
Austregésilo, tem de falar dos cordéis.
***
- Não tenho muita lembrança não, porque eu vim
pequenininho e me criei na verdade no Estado do Rio. Só depois
de 18 anos já, até como artista, é que eu voltei
e aí rodei, fiquei por lá e pesquisando e conferindo as
coisas que eu havia aprendido dos livros. Não é isso?
Conferindo.
***
- Bom, eu sou órfão de mãe, fiquei pequeno órfão
de mãe e meu pai, um misto de boêmio, jornalista, veterinário,
advogado, né? Deixava-nos com meu avô, né? E o vovô
realmente Luiz Vieira (eu tenho esse nome artístico em homenagem
a ele), vovô é que foi o meu Sócrates, o meu Platão,
meu filósofo de vida e tudo. Com vovô é que eu aprendi
as coisas que sei hoje, né? As lições que aprendi
da vida.
***
- Ah, onde morou o vovô? Meu avô teve uma época de
riqueza e fausto, né? Nesta época, ele criou papai, educou
meu pai, minha tia. Mas quando nós estávamos já
começando nos 10, 12 anos, vovô tinha empobrecido de novo
e nós começamos a trabalhar pra ganhar a vida. E fazíamos
de todas as coisas possíveis e imagináveis, quer dizer,
nós pegávamos caranguejo no mangue pra vender caranguejo.
Foi a pior coisa que eu fiz na vida até hoje, né? Caranguejo,
vendia 55 caranguejos num saco por cinco mirréis, imagine só.
E tinha que dar cinco de quebra, 55, né? Cortávamos moirões,
vovô tinha encomenda, fazíamos casa de pau-a-pique, de
taipa. Enfim, todo tipo de serviço, de biscate, eu estava sempre
com vovô e nós fazíamos tudo isso. Trabalhando com
gado, com madeira, com tudo, né? Caminhão inclusive também.
Que depois nós vendemos os bois e compramos um caminhão.
Era um caminhão a gasogênio, naquela época da guerra.
E era um negócio danado, às vezes o caminhão enguiçava
e a gente tinha que pegar seis junta de boi pra tirar o caminhão
com os boi. (ri)
***
- Ah, fui guia de cego no Rio de Janeiro. Mas fui, quando eu digo guia
de cego, eu não digo isso como via de regra costuma-se dizer:
"Eu já fui até guia de cego", quase numa abordagem
de um sentido pejorativo. Ao contrário, eu como guia de cego
aprendi muito com o cego, foi uma pessoa incrível que eu conheci
na vida. E era curioso porque eu pegava ele pra almoçar no Hotel
Glória no Rio de Janeiro, pegava na Pedro Américo e levava
para o Hotel Glória, é até mais ou menos perto,
né? Lá no Rio. E levava uma caixinha de engraxate pra
faturar os americano. Tinha muito turista, muito americano naquela época.
Hoje tem muito mais, hein? (ri) E eu faturava, enquanto ele almoçava,
eu faturava os americanos. Eu aprendi, me disseram que dava pé
dizer "boy shushine", aí eu aprendi essa desgraça,
e eu falava e dava certo, eu ia engraxar. Ele ficava almoçando,
eu comia rapidinho. Por isso que eu digo que foi uma época boa,
porque até eu comia muito bem. E ele almoçava no Hotel
Glória todos os dias, não é que ele fosse rico
não. É que o filho dele era um paraibano que era chefe
da cozinha do restaurante do Hotel Glória. Então eu ia,
ele almoçava com o filho, ficava, passava a tarde toda lá
e eu à tarde faturava mais uma graninha na graxa, não
e isso? Foi uma pessoa fantástica.
***
- Só não fui guia de cego de apontar freguês, né?
Ah, bom, guia de cego de apontar freguês é outro lance.
O guia de cego, por exemplo, de cantadores é o guia que, quando
a gente diz apontar freguês, é a historia do sujeito, o
garoto ou o guia, quase sempre garoto, tem que ter uma grande percepção
de psicologia humana. O cego fica cantando, vai rodeando de gente e
tal, e o guia tem que ter percepção, sacar quem é
que melhor na roda, que pode dar uma melhor propina pra cantoria, etc.
Ele então sopra no ouvido do cego: "Tem um cidadão
aí de chapéu branco, sapato marrom, tá bem vestido".
Então o cego ouve e diz assim: "O senhor de chapéu
branco com um sapato marrom dê uma esmola pro ceguinho que eu
preciso do jeton". Ai inventa um negócio qualquer. Eu não
fui este guia de apontar freguês. A propósito, contam uma
história do cego Sinfrônio que um dia andou meio caipora
com outro cego, encontraram os dois e eles: "Não sei o que
tá havendo, a minha vida tá no fim, porque o guia que
tenho não aponta freguês pra mim". Diz que o Sinfrônio
respondeu assim: "O meu também era assim, não me
apontava freguês, mas um dia eu peguei ele, só de porrada
dei seis. Ele agora me aponta cinco e oito cada vez". O cego Sinfrônio,
é uma história engraçada.
***
- E antes eu já estava na rádio, porque eu cantava em
tudo que era programa de calouros no Rio de Janeiro, né? Antigamente
você começava com calouros, Ari Barroso, Pescando Estrelas
do Arnaldo Amaral, que aliás, foi um dos primeiros galãs
mais bonito do cinema, né? "Futebol em Família",
me lembro até do filme, Arnaldo Amaral, saudoso amigo que tinha
o programa Pescando Estrelas. Ari Barroso, Ari era invocadíssimo,
né? Eu nunca tirei nota cinco no Ari, cheguei a quatro e meio
com Deusa do Maracanã, de um primo meu, Jaime Guilherme. Mas
andava em todos os calouros, né? A época era aquela, né?
Hoje há uma inversão muito grande, Faro 1, você
sabe. Antigamente, o sujeito cantava, vivia nos calouros, se tornava
conhecido, aí ganhava um programa de rádio. Depois de
ganhar o programa de rádio, então é que ele pleiteava
a gravadora. Aí é que você gravava, então
já como artista com um programa, mais ou menos seu nomezinho
difundido e tal, você gravava. Hoje é o contrário,
né? Você primeiro grava e depois que toca o disco, se pintar
um programa, é que o cara é famoso. Não é
isso? Naquela época era diferente. Andei em todos os calouros,
até que fui bater na Rádio Clube do Brasil com Zé
do Norte. Aí foi em 1945 pra 46 e dali é que eu fui pro
cabaré, porque na rádio a gente não ganhava nada.
***
- Ah, bom, Zé do Norte é uma figura importante na minha
vida, Alfredo Ricardo Nascimento, nascido em Patos de Ingazeira, né?
Paraibano. O Zé do Norte foi quem me deu a primeira oportunidade.
Aliás, custou muito também pra me dar, mas eu era teimoso,
eu era teimoso, eu ia todos os dias. Era um programa que se fazia de
manhã, sete horas da manhã. A primeira emissora que ia
pro ar no Rio de Janeiro era a Rádio Clube do Brasil, né?
Agora, sete horas naquela época era um programa assim pro cagar
dos pintos, bem de madrugadinha, né? E eu ia todos os dias, só
que eu saía de Alcântara e vinha, eu pegava três
ou quatro conduções, eu pegava ônibus, eu pegava
trem, eu pegava barca, eu pegava o diabo pra chegar, e chegava. E às
vezes eu chegava e diziam: "Hoje não vai dar pra você,
não vai dar". E eu voltava chateado e pegava numa oficina
mecânica do meu tio, tio João, e trabalhava até
seis, sete, pra compensar a coisa durante o dia que eu ia pra rádio.
Mas um dia, eu cheguei, todos tinham feito greve com Zé do Norte,
não foi ninguém, só eu que apintei. Ele então
olhou pra mim sozinho, meio desolado, e disse: "Rapaz, desses cabra
todo que tem aqui você é o único cara que vai vencer
na vida, porque você é teimoso, você quando quer
uma coisa quer mesmo". E a partir dali eu passei a secretariar
esse programa. Quer dizer, a função de secretário
era muito engraçada, eu ia, fazia aquelas notinhas: "Receberá
o nome na pia batismal fulano de tal, tá convidando pra festinha,
convida amigos, parabéns e tal". Até que um belo
dia, e eu ai tinha direito a fazer três números por dia.
Até que um belo dia apareceu Augusto Calheiros, Patativa do Norte,
o cantor pra mim o mais afinado que eu conheci até hoje em minha
vida, né? E ele tava também vivendo uma época de
caipora e tal, foi pra lá pro Zé do Norte e ficou até
... E suscetibilizei-me até com aquilo porque ele disse: "Olha
eu não resolvo não, quem resolve isso é o Luiz
Vieira, ele que programa". Mas quem era eu, pô, com Calheiros?
Então disse: "Ô Sr. Calheiros, o senhor faz o seguinte:
eu tenho três números, o senhor faz dois na parte que me
pertence e deixa eu fazer unzinho, por favor. Eu quero ouvir é
o senhor pra aprender". Então eu dava a minha cota pro Calheiros
e ficava ouvindo o Calheiros e aprendendo com o Calheiros uma porção
de coisas. A partir daí sim é que eu fui pro cabaré
2. Como a gente não recebia nada... Aliás, a bem da verdade,
eu só me lembro que recebi um cachezinho de cem merréis
uma vez, porque apareceu um cidadão que era dono de uma fábrica
de produtos de bebida, Sagres! Sagres. E eu então, pra puxar
o saco do cidadão, e puxar o saco do Zé do Norte e ficar
no programa, eu todos os dias, criei uma quadrinha por dia, fazia uma
trovinha, né? Todo dia, uma trovinha alusiva a um produto. E
um dia eu falei uma coisa lá e o cidadão disse: "Olha,
eu só quero que fale em Sagres". Porque antigamente se pagava
os textos como texto de telegrama, não era por tempo como se
faz hoje, 30 segundos, antigamente era por palavra como telegrama, trinta
palavra custava não sei quanto cada palavra. Então eu
fiz uma quadrinha que foi a primeira grande sensação da
minha vida, porque o cara fez um contrato e eu passava o dia todo ouvindo
a rádio pra ouvir os locutores durante os programas citarem a
quadrinha que eu fizera, né? E que era:
O poeta faz quadrinha
Os santos fazem milagres
O padre diz ladainha
Quem bebe diz: quero Sagres
Bote uma gota aí
1. Dirigindo-se a o diretor do programa, Fernando Faro.
***
- Eu me lembro disso. Então foi o primeiro dinheirinho que eu
ganhei assim em forma de cachê. E com isso, eu fui angariando
a simpatia do Zé do Norte, fazendo coisas e fiquei no programa
até ir pro cabaré.
2. Luiz foi cantor na noite muito tempo, apresentando-se em cabarés.
