Carioca
de Vila Isabel, Luis Carlos (Pereira de) Sá (1945) emergiu na
era da bossa nova, em meados dos 60 e foi gravado por Pery Ribeiro ("Escadas
do Bonfim", "Giramundo") e Nara Leão ("Menina
de Hiroshima", com Chico de Assis). Classificou "Inaiá"
entre as finalistas do I FIC e no ano seguinte, 1967, atuaria ao lado
do futuro parceiro Gutemberg (Nery) Guarabira (Filho) e Sidney Miller
na inauguração do teatro Casa Grande no Rio. Este foi
o ano de Gut, baiano da cidade de Barra (1947), que a bordo do Grupo
Manifesto (Gracinha e Fernando Leporace, Mariozinho Rocha, Guto Graça
Melo) ganhou o II FIC com "Margarida", derrotando nada menos
de três músicas do estreante Miton Nascimento. Engrenada
apenas em 1972, a dupla começou como trio, com a inclusão
do tecladista e compositor Zé Rodrix (ex-Momento 4uatro), que
sairia em 1973 e só voltaria em 2001. O trio e depois duo, foi
responsável por um novo conceito, o rock rural, adaptação
nativa muito mais próxima do folk/rock estradeiro que do "country"
americano. Mas o sotaque sempre foi brasileiro, embora a "Primeira
Canção da Estrada", tenha operado como hino da geração
"hippie" nativa, incluído no disco de estréia
do trio, "Passado Presente e Futuro". No ano seguinte sairia
"Terra", o último do trio com "O Pó da
Estrada". A partir de "Nunca" (1973) com a "2ª
Canção da Estrada" seriam apenas S&G, também
sócios do estúdio Viceversa com o maestro tropicalista
Rogério Duprat. A habilidade de produzir melodias colantes, refletida
nos jingles publicitários do estudio como o da Pepsi-Cola ("Só
tem amor/ quem tema amor pra dar") que chegou a ser lançado
em compacto nas lojas, resultou numa profusão de sucessos. De
"Pirão de Peixe com Pimenta" (1977) saltaram "Sobradinho"
e "Espanhola". E ao celebrar "10 Anos Juntos" (1983)
somavam-se ainda "Dona", "Caçador de Mim",
"Vem Queimando a Nave Louca" e "Sete Marias". Sem
formar o que seria uma dupla sertaneja apesar do canto a duas vozes,
S&G costuraram com acordes inspirados o enredo interiorano ("Cheiro
Mineiro de Flor", "Roque Santeiro", "Me Faça
um Favor") às guitarras urbanas.
Tárik de Souza
ENSAIO
8/4/1994
Dona
Desses traiçoeiros
Sonhos sempre verdadeiros
Ô dona desses animais
Ô dona
Dos teus ideais
Pelas ruas onde andas
Onde mandas todos nós
Somos sempre mensageiros
Esperando tua voz
Teus desejos uma ordem
Nada é nunca, nunca é não
Tu que tens essa certeza
Dentro do teu coração
Tam, tam, tam batem na porta
Não precisas ver quem é
Pra sentir a impaciência do teu vulto de mulher
Um olhar me atira à cama
Um beijo me faz amar
Não reclamo, não me escondo
Porque sei que és minha
Dona
Dona
Desses traiçoeiros
Sonhos sempre verdadeiros
Ô dona
Desses animais
Ô dona
Dos teus ideais
Não há pedra em teu caminho
Não há ondas no teu mar
Não há vento ou tempestade
Que te impeçam de voar
Entre a cobra e o passarinho
Entre a pomba e o gavião
O teu ódio ou teu carinho
Nos carregam pela mão
É a moça da cantiga
A mulher da criação
Umas vezes nossa amiga
Outras nossa perdição
O poder que nos levanta
A força que nos faz cair
Qual de nós inda não sabe
Que isso tudo te faz
Dona
Papará papará papará...
Dona, Sá & Guarabyra. Copyright 1997 by IRMÃOS VITALE
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SÁ - Essa Dona entrou no Roque Santeiro e foi engraçado
porque o produtor, o Mariozinho Rocha, ele adorava já o Dona,
né? Mas a gente já tinha duas músicas já
na novela, uma que a gente estava fazendo pro segundo LP e o próprio
Roque Santeiro, né? Aí o Mário disse: "Não,
eu tenho certeza que quem vai gravar isso aí e vai ser um tremendo
sucesso vai ser o Roupa Nova". E foi dito e feito, né? O
Roupa gravou e rolou.
Dizem que Roque Santeiro
Um homem debaixo de um santo
Ficou defendendo o seu canto
E morreu
Mas sei que ainda é vivente
Na lama do rio corrente
Da terra onde ele nasceu
Dizem que Roque Santeiro
Um homem debaixo de um santo
Ficou defendendo o seu canto
E morreu
Mas sei que ainda é vivente
Na lama do rio corrente
Da terra onde ele nasceu
E no ABC do Santeiro
O que diz o A?
O que diz o A?
O A diz adeus à matriz
O que diz o B?
O que diz o B?
O B é batalha de morte
O que diz o C?
O que diz o C?
Cuidado com povo feliz
O D diz que Roque Santeiro
Não pôde ver seu povo em pranto
Com a vida defendeu seu canto
E morreu
Mas sei que ele é vivente
A pessoa por pouco crente
Até quem não me surpreendeu
E no ABC do Santeiro
O que diz o A?
O que diz o A?
O A diz adeus à matriz
O que diz o B?
O que diz o B?
O B é batalha de morte
O que diz o C?
O que diz o C?
Cuidado com povo feliz
O D diz que Roque Santeiro
Não pôde ver seu povo em pranto
Com a vida defendeu seu canto
E morreu
Mas sei que ele é vivente
A pessoa por pouco crente
Até quem não me surpreendeu
Ôôôôô...
Roque Santeiro, Sá & Guarabyra. Copyright 1997 by IRMÃOS
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GUARABYRA - A gente gosta muito de viajar pelo rio São Francisco,
rio São Francisco, onde eu nasci, nasci em Barra, morei em Chique-Chique
e fui criado em Bom Jesus da Lapa. E tem uma região lá
muito interessante, às margens do rio São Francisco, que
se chama os Tabuleiros. O rio sobe na cheia e ele invade os tabuleiros,
são as regiões planas às margens do rio. Quando
ele desce, pequenas cavidades ficam cheias de água e ali sobram
alguns peixes que se reproduzem. Quando rio enche de novo no ano seguinte,
pega-se os peixes, chama pleito dos rios. E a gente gosta de passear
pelos Tabuleiros e ali tem muitas cidades que ficam esperando o asfalto
chegar. É uma coisa que a gente não gostaria que acontecesse
inclusive, porque iria estragar bastante os Tabuleiros. Mas eu acho
que a coisa não tem jeito, a gente quanto mais constrói,
mais destrói também, é impressionante. Mas essa
música Tabuleiros é muito gostosa, muito gostosa. A novela
era "Fera Radical".
No sertão
As cidades esperam
O dia em que o asfalto chegar
No sertão
As cidades esperam
O dia em que o asfalto chegar
Lá se vão os amigos
Lá se vão os tropeiros
Lá se vão automóveis
Tudo no mesmo areião
Lá se vão os amigos
Lá se vão os tropeiros
Lá se vão automóveis
Tudo no mesmo areião
Tabuleiros!
Fica o sol no caminho do campo
Brilhando na mata rasteira
Fica a ponte do tempo
Entrando no mundo pra lá da poeira
Da poeira
Da poeira
Pra lá da poeira
Lá se vão os amigos
Os tropeiros
Automóveis
Tudo no mesmo areião
Lá se vão os amigos
Lá se vão os tropeiros
Lá se vão automóveis
Tudo no mesmo areião
Tabuleiros
Fica o sol no caminho do campo
Brilhando na mata rasteira
Fica a ponte do tempo
Entrando no mundo pra lá da poeira
Da poeira
Da poeira
No mundo pra lá da poeira
Lá se vão os amigos (os amigos)
Os tropeiros (os tropeiros)
Automóveis
Tudo no mesmo areião
Lá se vão os amigos
Lá se vão os tropeiros
Lá se vão automóveis
Tudo no mesmo areião
Tabuleiros
No sertão as cidades esperam
O dia em que o asfalto chegar
No sertão as cidades esperam
O dia em que o asfalto chegar
Tabuleiro, Sá & Guarabyra. Copyright by IRMÃOS VITALE
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SÁ - Eu me lembro muito que eu via essa novela, essa novela eu
via e meu filho via e ficava enlouquecido e vinha me contar como é
que era o "Que Rei Sou Eu", as aventuras do Ravengar e de
num sei que lá, num sei que lá. E um belo dia eu estava
vendo a novela e de repente toca Espanhola, né? E com uma gravação
que não era nossa e não era do Flavinho Venturini também,
o parceiro do Guarabyra nessa música. Eu fiquei olhando aquilo
e disse: "Poxa, mas quem é, cara?" Depois descobrimos
que o Kledir... É engraçado, quando o Kleyton e Kledir
surgiram tinha uma espécie de rivalidade, não entre nós
que sempre fomos amigos desde o tempo dos Almôndegas. É
que todo mundo dizia "Sá e Guarabyra e Kleyton e Kledir,
e coisa e tal, tem briga, não tem?" E nunca foi isso e o
Kledir provou isso definitivamente gravando Espanhola, né?
***
Agora, Espanhola é o tipo de música que não se
pode tocar com viola de 12, porque não dá certo.
