O
roteiro está pronto e veio sendo escrito - oficialmente - entre
1908 (23 de maio) e 1998 (3 de fevereiro), embora há gente que
diga que ele nasceu mesmo em 1.900 e que teria morrido portanto com
98 anos. É possível. Tudo era possível na vida
cinematográfica de Sílvio Antônio de Figueiredo
Caldas, carioca do imperial bairro de São Cristovão e
que começou a carreira artistica, cantando no bloco Família
Ideal, que saia nos carnavais do início do século XX,
nas imediações da rua São Luiz Gonzaga, onde ele
nasceu. É só fazer o filme. Já começou famoso.
Era chamado O Rouxinol da Familia Ideal, cantando nos ombros de um tio.
Passando por diversas profissões (foi mecânico de automoveis,
leiteiro, motorista de caminhão, cozinheiro, lavador de carros
e - já consagrado - garimpeiro por puro prazer) fez sempre da
música o motivo principal de sua vida. Bon-vivant, gourmet, com
um carisma enorme e igual capacidade de fazer amigos, era comum ve-lo
íntimo de presidentes da República e de pescadores; de
generais do Exercito e garimpeiros. Mas só cantava quando queria.
Quando cercado de amigos ou no clima que o agradasse. Era o terror dos
empresários, pois assinava contratos milionários e na
hora dos shows desaparecia, preferindo garimpar no Acre ou pescar no
Mato Grosso. Não ligava para dinheiro e por suas mãos
passsaram fortunas. Certa feita recusou um cachê belissimo para
cantar na TV Record (na Bienal do Samba, uma homenagem a Ari Barroso,
seu descobridor), por que o programa seria gravado em teipe. Seu argumento:
"Eles pagam uma vez e faturam cada vez que repetem a gravação.
Quero um cachê maior." Naquela noite, enquanto era substituido
por outro interprete, Sílvio cantou de graça em um asilo
para idosos, no bairro de Santana, em São Paulo. Assim era Sílvio
Caldas e assim foi a vida inteira, desde de seu lançamento, cantando
Faceira (Ari Barroso) na revista Brasil do Amor (de Marques Porto e
Ari), no Teatro Recreio, na Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro,
até o fim da vida, na tranquilidade de seu sítio na cidade
paulista de Atibaia. Considerado por muitos o maior intérprete
da história da música popular brasileira, foi também
excelente compositor e basta para isso lembrar que é sua a melodia
da considerada o "Hino Nacional da MPB", Chão de Estrelas,
em parceria com o poeta Orestes Barbosa, com quem fez também,
entre outras, o clássico Torturante Ironia. Gravou mais de uma
centena de 78 rotações e dezenas de LPs, muitos deles
já remasterizados em CDs. Entre seus clássicos está
o album duplo que gravou com a cantora Elizeth Cardoso, ele cantando
o repertório dela e vice-versa. Foi e sempre será o Caboclinho
Querido (como o chamou César Ladeira), mas gostava mesmo de se
auto-intitular de Titio.
Arley Pereira
ENSAIO
2/6/1992
Mas isso é na hora das marchas, quando eu falo no Danela.
Vou à Penha
Vou pedir, vou implorar
Para a santa me ajudar
Pra ver a minha santa padroeira
Quem muito corre acaba se cansando
Minha cruz vou carregando
Como quer a sorte
Tudo tem maneira de se realizar
Minha santa padroeira há de me ajudar
Eu na Penha vou bem satisfeito
Não sou como o sujeito que foi lá pra se divertir
E no fim da festa houve briga e fuzuê
O malandro foi morrer com um bruto rasgão na testa
Pra ver a minha santa...
Aqui é enciclopédia, aqui não é palpiteiro
não.
Oi, abre a cortina do passado
Tira a mãe preta do cerrado
Bota o rei congo no congado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Deixa cantar de novo o trovador
À merencória luz da lua
Toda a canção do meu amor
Quero ver a Sá Dona caminhando
Pelos salões arrastando
O seu vestido rendado
Brasil, Brasil
Pra mim, pra mim
Aquarela do Brasil, Ary Barroso. Copyright 1939 by IRMÃOS VITALE
S.A. INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Todos os direitos autorais
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Esta música é de Ari Evangelista de Resende Barroso, o
famoso Ari Barroso. Eu conheci o Ari Barroso através de uma música
que eu gravei na fábrica Brumswik. Por incrível que o
pareça, uma fábrica onde fazia tacos de bilhar e billiard
snooker. Mas havia junto a essa firma uma fábrica de gravações
e eu fui gravar, gravei um samba do professor... Era um pianista famoso
e maestro, Henrique Vogeler. Que dizia assim:
Ioiô deste ano
Futurista baiano
Venho implorar
Com emoção
O Rio abraçar, de todo o coração
Pram, pram, pram, pram
O carioca me quer, eeba
Ou seja homem ou mulher
Sei disfarçar todo o sofrer
Quero amar e o querer é poder
Ioio Deste Ano, Henrique Vogeler. Copyright by ADDAF.
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1929. Esse "eeba" foi o breque que eu criei dentro do samba.
E quando o disco saiu, o Ari Barroso passando por uma casa vendedora
de discos, tocava este samba na porta, ele se impressionou com o breque
que eu dei. Entrou na casa e perguntou: "Quem é esse cantor?"
Eles disseram:"É o Sílvio Caldas, um cantor novo,
aí começando, tal". Então ele foi me procurar
e me levou para o Teatro Recreio, numa peça dele, do Marques
Porto e do grande Luís Peixoto. Chamava-se Brasil do Amor, onde
eu cantava um samba, também dele, Ari Barroso, que era assim:
"Foi num samba de gente bamba, ô gente bamba". Faceira.
Foi num samba de gente bamba
Oi, gente bamba
Que eu te conheci
Faceira
Fazendo visagem
Passando rasteira
Oi, que bom, que bom
E foi...
Faceira, Ary Barroso. Copyright 1962 by MANGIONE, FILHOS & CIA.
LTDA. Todos os direitos autorais reservados para todos os países
do mundo.
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Era o Faceira, do Ari Barroso. Eu sapateava, tocava um chapéu
de palha e fui chamado cinco vezes à cena. Quer dizer que até
hoje não foi registrado um sucesso no teatro de revista igual
a este meu. Cinco vezes o público exigiu que eu voltasse à
cena pra repetir o samba. E a Margarida Max, a grande atriz, a grande
estrela do teatro de revistas, ela que me empurrava, e eu com muito
nervoso, né? Com aquela estréia, com aquele sucesso todo.
E foi assim o meu início e a minha carreira no teatro de revista,
através do disco Ioiô Deste Ano.
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O samba de breque foi criado justamente nessa época, de 28, 29
pra cá. Mas o Ari Barroso, dentre as suas composições,
os grandes sucessos internacionais que ele tem, o início dele
também foi muito interessante, muito bonito. Ele estudava advocacia,
estava para se formar e fez uma marcha, entrou num concurso de uma fábrica
de cigarros e venceu. Esta marcha.
Esta mulher há muito tempo me provoca
Dá nela, dá nela
É perigosa
Fala mais que pata choca
Dá nela, dá nela
Fala, língua de trapo
Pois da tua boca eu não escapo
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E esta marcha ganhou o concurso e mais cinco mil réis em dinheiro,
dado pelo patrocinador, e uma medalha de ouro que o Ari Barroso recebeu
da Prefeitura. Com este dinheiro, o Ari Barroso casou-se com a dona
Ivone de Arantes Barroso, a esposa dele, e comprou o anel de formatura
com brilhantes e tudo. Ainda sobrou dinheiro. Mas o interessante é
que em frente à casa do Ari Barroso tinha um velho português,
amigo do Ari, seu Maneco, e o Ari Barroso fez uma amizade muito grande
com o seu Maneco. E todo dia, quando ele saía pro trabalho, passava
pela porta da quitanda: "Ô, seu Maneco, como vai o senhor?"
E o Maneco: "Ô, Dr. Ari Barroso". Aquela amizade. Um
dia o Ari Barroso passou pela quitanda, o Maneco é que gritou
de lá dizendo: "Ô, Dr. Ari Barroso, cumé que
vai o senhor?" O Ari meio irreverente: "Eu estou passando
muito mal, Maneco". "Mas, Dr. Ari Barroso, o senhor está
doente, tem alguma coisa?" "Eu não tenho nada, eu só
tenho que lhe contar uma coisa". E o bom português: "Então
o senhor conte logo, homem". "O senhor sabe que a sua mulher
tem outro homem?" Aí o português: "Mas não
me diga, Dr. Ari Barroso, a minha mulher tem outro homem? Ai, meu Deus
do céu. E quem será ele?" "É o Antonico,
aquele rapaz lá da esquina". "Ah, então não
é o outro, é o mesmo". São as histórias
do Ari Barroso e dos grandes mestres da música popular da minha
época.
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Mas o Ari Barroso, depois da peça Brasil do Amor, ele foi à
Bahia. Foram com uma revista para a Bahia e eu não fui. E ele
então me escreveu uma carta dizendo: "Sílvio Caldas,
estou completando pra você aqui um samba jongo. Chama-se Na Baixa
dos Sapateiros. E quando ele veio, eu fui à casa dele, ele foi
para o piano e me ensinou, eu gravei e criei mais uma criação
minha, de autoria de Ari Barroso.
Oi, amor, ai ai
Amor bobagem que a gente não explica, ai ai
Prova um bocadinho, oi
Fica envenenado, oi
E pro resto da vida é um tal de sofrer
Ô lalá ô lelê
Oi, Bahia, ai ai
Bahia que não me sai do pensamento
Faço meu lamento, oi
Na desesperança, oi
De encontrar por esse mundo
O amor que eu perdi na Bahia
Vou contar
Na Baixa dos Sapateiros
Encontrei um dia
A morena mais frajola da Bahia
Pedi-lhe um beijo, não deu
Um abraço, sorriu
Pedi-lhe a mão, não quis dar
Fugiu
Bahia, terra da felicidade
Morena, eu ando louco de saudade
Meu Senhor do Bonfim
Arranja outra morena igualzinha pra mim
Oi, Bahia, ai ai
Oi, amor, ai ai
Na Baixa do Sapateiro, Ary Barroso. Copyright 1938 by IRMÃOS
VITALE S.A. INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Todos os direitos autorais
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Depois... Depois, não. Essa que eu vou falar talvez seja um pouco
antes até, porque ele fez de parceria com Luís Peixoto.
O samba chama-se Maria. "Maria, o teu nome principia na palma da
minha mão". Beleza!
Maria
O teu nome principia
Na palma da minha mão
E cabe bem direitinho
Dentro do meu coração
Maria
Maria, Ary Barroso/Luiz Paixoto. Copyright 1932 by IRMÃOS VITALE
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(Emenda com:)
Risque meu nome do seu caderno
Pois não suporto o inferno
Do nosso amor fracassado
Deixe que eu siga novos caminhos
Em busca de outros carinhos
Matemos nosso passado
Mas se algum dia talvez
A saudade apertar
Não se perturbe
Afogue a saudade nos copos de um bar
Creia, toda quimera se esfuma
Como a brancura da espuma
Que se desmancha na areia
Risque, Ary Barroso. Copyright 1952 by IRMÃOS VITALE S.A. INDÚSTRIA
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