Filho de um pianista, o guarda-civil carioca Roberto Martins (1909-1992) viu seu nome circular no meio musical pela primeira vez através da composição (sintomática, para a profissão escolhida) Justiça, de 1929. Mas não foi em disco, ou no rádio, mas impressa no livro Samba, do compositor, jornalista e ensaísta Orestes Barbosa (o de Chão de Estrelas). Seu primeiro sucesso só viria em 1936, o samba Favela, parceria com Valdemar Silva, na voz de Francisco Alves. A gravação não saiu de graça. Como o voluntarioso rei da voz não tinha gostado dacomposição ("já tem muito samba falando de favela"), num episódio que virou lenda da MPB, Roberto propôs-lhe uma troca. Chico Alves queria um cachorrinho basset que pertencia a uma amiga do compositor, mas só levou o animal depois de comprometer-se a gravar a música, que acabaria recebendo mais de cem outras gravações, além de ser uma das primeiras brasileiras editadas nos EUA. Já com a batucada Cai Cai, outro estrondo carnavalesco, a história foi oposta. Roberto tinha oferecido a música à dupla Joel e Gaúcho, mas Chico Alves ficou sabendo e quis ouvi-la. No célebre Café Nice, o autor foi obrigado a cantar a música para ele, mas o fez com tanta má vontade que ela foi reprovada, tal como queria. Quando a música estourou - no carnaval de 1940 -, Chico ficou uma fera. E ainda mandou o recado ameaçador: "malandro sou eu que sou da Lapa", lembrou o compositor em depoimento à Rádio Jornal do Brasil, em 1974.
Iniciador de Araci de Almeida (é dele Viram O Meu Amor por Aí?, sua estréia na Rádio Guanabara, antes de ser apresentada a Noel Rosa), Roberto também foi gravado com enorme sucesso por Ciro Monteiro (Beija-me, parceria com Mário Rossi) e Orlando Silva em Aliança Partida (com Benedito Lacerda) e no clássico Meu Consolo É Você (parceria com o dublê de desenhista Nássara). Orlando também gravou Dá-me Tuas Mãos, com Mário Lago, que a partir desse sucesso foi convencido pelo parceiro a abandonar o emprego e dedicar-se à vida artística. Inicialmente imitador de Orlando, Nelson Gonçalves projetou-se a partir de outra composição sua, o fox Renúncia (com Mário Rossi). Já a debochada marchinha O Cordão dos Puxa-Sacos (com Frazão) passou por uma via-crúcis na censura do Estado Novo, antes de tomar o carnaval de 1946 na voz dos Anjos do Inferno. O compositor teve de recorrer à filha do ditador Getúlio Vargas para conseguir a liberação, num bilhete de próprio punho do pai. Ritmista da Orquestra de Simon Boutman, que tocou surdo nos filmes do personagem Zé Carioca de Walt Disney, sócio fundador da arrecadadora UBC, Roberto Martins emplacou ainda inúmeros outros sucessos como Cadê Zazá (com Ari Monteiro), Marcha dos Gafanhotos (Frazão) e o precursor da questão social Pedreiro Waldemar (Wilson Batista). Apesar de seu nome ser pouco badalado, ele foi um dos grandes da era de ouro, enfrentando concorrentes do porte de Ari Barroso, Lamartine Babo, João de Barro, Noel Rosa, Custódio Mesquita e Herivelto Martins, entre muitos. Concedeu esta entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo, em 1991, aos 82 anos.

Tarik de Souza
ENSAIO
1991

Cai, cai, cai, cai
Eu não vou te levantar
Cai, cai, cai, cai
Quem mandou escorregar
Cai, cai, cai, cai
Cai a chuva no telhado
Teu olhar caiu no meu
Cai a cinza do passado
Sobre o sonho que morreu
Muita gente cai à toa
Outras caem com razão
A saudade é uma garoa
Caindo no coração
Cai a rosa da roseira
Cai do bonde o passageiro
Pra morena mais faceira
Do meu bolso cai dinheiro
Outros caem por simpatia
Outros caem porque têm amor
Deus ajuda se eu cair
Nos bracinhos do meu bem
Cai, cai, cai, cai
Eu não vou te levantar
Cai, cai, cai, cai
Quem mandou escorregar.
Cai Cai, Roberto Martins. Copyright 1939 by MANGIONE, FILHOS & CIA. LTDA.

Meu consolo é você, meu grande amor
Eu explico por quê
Sem você sofro muito
Não posso viver
Sem você mais aumenta
O meu padecer
O que eu fiz sem querer
Meu grande amor
Eu peço desculpa a você
Mas se por acaso
Você não me perdoar
Juro por Deus
Que não vou me conformar
Pois a minha vida sem você
É um horror
Eu sofro noite e dia
E você sabe por quê
Meu consolo é você.
Meu Consolo É Você, Roberto Martins/Nássara. Copyright 1938 by MANGIONE, FILHOS & CIA. LTDA.

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Que eu gravei até agora? Gravei 384 músicas, mas tenho 56 anos de carreira.
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Nasci na Estação do Riachuelo, na Zona Norte do Rio de Janeiro, onde passava trem e bonde naquela época. O bonde acabou, o trem ainda está passando.
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Meu pai era português, chamava-se José Francisco Martins. Minha mãe Isaura Maria Machado Martins. Eu sou o segundo filho do casal.
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Tem. Minha mãe era pianista. Naquele tempo, no cinema, quando aparecia o mocinho dando tiro, ela fazia aquele negócio no piano, tinha que inventar um troço para acompanhar.
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Ópera não, árias de ópera, Aída, essas coisas que são mais populares. Há árias de ópera que se tornam populares, chegam até a fazer música de carnaval com elas.
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Eu me lembro muito de Sobre As Ondas. Ela tocava uma ária de Verdi, da Aída. Agora, o que me lembro mais era uma historinha que ela cantava, do padre com a menina que ia se confessar e o padre pedia um beijo à menina e a menina dizia que não dava: "Isso não, senhor padre. Pode o meu noivo saber. Saber o quê? Na confissão ninguém pode se meter". Aí ela ia embora: "Adeusinho, senhor padre. Adeus, filha, passe bem. Olha o segredo dos beijos nunca contes a ninguém".
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Eu primeiro tirei o ofício de empalhador, veja você. Os antigos tinham uma lei que a gente tinha que ter um ofício. Como o ofício de empalhador era mais fácil, porque eu tinha um amigo que era empalhador, tirei o ofício de empalhador, mas nunca empalhei cadeira nenhuma. Deixei o ofício e fui trabalhar no comércio, trabalhei no comércio muitos anos, em calçados. Eu era especialista em calçado de mulher.
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Conheci. Desde menino, conheci a praça Onze. Você quer que eu fale, mas não vou falar das escolas de samba, porque antes tenho que falar como era a praça Onze. A praça Onze, vocês deviam conhecer. Tinha a rua Senador Eusébio, a Visconde de Itaúna e tinha a rua Santana e Marquês de Pombal, ela ficava no meio, onde tinha a gafieira As Colombinas. A Kananga do Japão nunca foi na praça Onze.
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Não. A Kananga era na rua Senador Eusébio 42 ou 48, um desses dois números.