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Através
de sua voz encorpada, os sambistas Geraldo Pereira e Nelson Cavaquinho
estrearam em disco. Ele foi o primeiro a gravar a trilha da peça
Orfeu do Carnaval de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, além
de interpretar um dos grandes sucessos do carnaval de todos os tempos,
o samba de protesto O Trem Atrasou (Paquito/Estanislau Silva/Villarinho),
depois regravado por Nara Leão. Pelo nome da identidade - Helim
Silveira Neves, carioca da Vila Isabel, nascido em 1921 - ninguém
o conhece. Mas Roberto Paiva, o cantor, entrou para a história
da MPB por todas essas e várias outras façanhas.
Começou como calouro na era do rádio (Club Fluminense, em
Niterói). Depois, Ciro Monteiro o levou para a Mayrink Veiga. Aí
conheceu o pianista Nonô e o violonista Laurindo de Almeida, que
o apresentaram na gravadora Odeon, onde ele estreou em disco, aos 17 anos,
em 1938. Elogiado pelo rei da voz Francisco Alves, no primeiro disco cantou
composições dos padrinhos, Jardim de Flores Raras (Nonô/Francisco
Mattoso) e Último Samba (Laurindo).
O início de carreira foi difícil, com o pseudônimo
usado para burlar a resistência familiar (o pai queria que ele terminasse
os estudos) e a conciliação do tiro-de-guerra (o serviço
militar da época) com o contrato de cinco discos (78 rotações)
por ano. Gravou Se Você Sair Chorando, a primeira de Geraldo Pereira,
em cuja pauta Pixinguinha anotou elogios, e estourou no carnaval de 41
com O Trem Atrasou. Também emplacou uma versão (de Paulo
Roberto) que virou hino estadual, Vienne sul mare ("Ó Minas
Gerais"). "Foi a maior praga da minha vida. Nunca fui a uma
cidade, por menor que fosse, que não me pedissem para cantá-la",
confessou numa entrevista em 1979, ao Jornal do Brasil.
Guiando-se sempre pela intuição na escolha das músicas
dos mais variados estilos, ele também lançou Nelson Cavaquinho
("o nome não aparece nos discos porque ele vendia os sambas")
e Luiz Vieira (Alguém que Não Vem, um samba-canção,
e depois o estouro, O Menino de Braçanã). Emplacou ainda
sucessos como Tagarela (1946), do xará Roberto Martins, o compositor
que mais gravou (16 músicas), ao lado de Paquito (o do Trem e de
outro sucesso, A Marcha do Conselho, de 1957), com 10, e Geraldo Pereira
(8). Em 1957, na era de transição do 78 para o LP, ele gravou
um 10 polegadas com as músicas (de Tom Jobim) da peça (de
Vinícius) Orfeu da Conceição, incluindo a estréia
do samba-canção sinfônico Se Todos Fossem Iguais a
Você. Em mais um lance de pioneirismo, participou (com Francisco
Egídio), em 1953, da primeira gravação em disco da
polêmica entre Noel Rosa e Wilson Batista, refeita 11 anos depois
em outra gravadora, com o caricaturista do samba, Jorge Veiga. Com sua
onipresença de sensibilidade interpretativa e bom gosto na escolha
do repertório, o cantor Roberto Paiva marcou a história
da MPB. Concedeu esta entrevista ao programa MPB Especial, da TV Cultura
de São Paulo, em 1974, aos 53 anos.
Tarik de Souza
ENSAIO
5/6/1974
Na
década de 40, exatamente em agosto de 1940, eu havia terminado
meu contrato com a Odeon e eu tinha todas as possibilidades de renovar
esse contrato, e me foi oferecido um aumento de royalties, mas foi mantido
o mesmo número de gravações anuais. Eu pretendia
gravar 12 discos por ano1 e a Odeon só me oferecia um mínimo
de cinco, com possibilidade de gravar mais de cinco. Mas eu queria, rezando
no contrato, 12 discos por ano. Isso não me foi dado. Então
eu fiquei com o contrato no bolso, não assinei e fiquei sem gravar.
Até que apareceu um amigo meu, Claudionor Cruz, que me levou para
a RCA Victor, para que eu gravasse uma valsa dele. Chegando na RCA Victor,
o Ernestinho (falecido), que era o diretor da Victor nessa ocasião,
ficou naquele chove-não-molha: "É hoje, é amanhã,
deixa para lá, agüenta um pouquinho aí", coisa
e tal. Eu, cansado de subir aquela escada - a Victor era na praça
da República, no primeiro andar, um prédio antigo, o primeiro
andar tinha mais de 30 degraus -, então, um dia eu disse: "Olha,
seu Ernesto, eu não vou subir mais essa escada. Afinal de contas,
se o senhor quer gravar comigo, muito bem, eu aceito, tenho muito prazer
em gravar. Mas se não quer, eu tenho um contrato na Odeon e vou
gravar". Ele disse: "Então, você vai gravar, mas
não vai gravar a valsa do Claudionor Cruz. Se quiser gravar aqui,
tem que gravar carnaval, porque nosso suplemento é feito com muita
antecedência. Então vou lhe oferecer cinco músicas
para você gravar". Eu peguei as partes de piano, não
leio música, li as letras e pedi ao maestro Celso Macedo que passasse
para mim. Devolvi as músicas, porque não gostei. Ele me
deu mais cinco músicas, eu tornei a não gostar. Então,
acredito que aí, já polemizando ou então para me
jogar pra corner, como diz o outro, ele me deu cinco músicas e
esqueceu que nessas músicas tinha um carimbinho escrito: "Rejeitada".
Então eu desci outra vez aquelas escadas, peguei um bonde de Vila
Isabel-Engenho Novo (eu morava em Vila Isabel) e então no bonde
fui lendo as letras. A terceira letra era um samba, que eu realmente gravei
e que se tornou o meu hino carnavalesco: O Trem Atrasou. Vamos lembrar.
Patrão
o trem atrasou
Por isso estou chegando agora
Trago aqui o memorandum da Central2
O trem atrasou meia hora
1 Discos de 78 rotações, com duas músicas cada um.
2 A E. F. Central do Brasil entregava memorando aos passageiros comprovando
o horário no caso de atraso na chegada.
O
senhor não tem razão
Para me mandar embora
O senhor tem paciência
É preciso compreender
Sempre fui obediente
Reconheço meu dever
Um atraso é muito justo
Quando há explicação
Sou um chefe de família
Preciso ganhar o pão, e eu tenho razão
Porque patrão, o trem atrasou...
O Trem Atrasou, Artur Villarinho/Estanislau Silva/Paquito. Copyright by
RIO MUSICAL (FERMATA).
***
Eu nasci em Vila Isabel, na rua Santa Luísa, onde se passavam grandes
batalhas de confete. A mais famosa batalha de confete era do bulevar 28
de Setembro, da rua Santa Luísa e da rua Dona Zulmira, isso perto
do largo do Maracanã. Para quem não conhece, a dois minutos
a pé do maior estádio do mundo, do Maracanã. Nasci
no dia 8 de fevereiro de 1921.

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