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Demorou cinco
anos para juntar os dez mil-réis necessários para comprar
a primeira viola, feita a canivete. Dinheirinho suado, ganho no cabo da
enxada, como contavam sempre Tonico (João Salvador Perez) e Tinoco
(José Perez), os irmãos que formavam a mais verdadeira e
tradicional dupla sertaneja da história, já que eram caboclos
autênticos, nascidos na roça; Tonico em São Manuel
(1919) e Tinoco em Botucatu (1920).
A primeira influência foi dosdiscos de Cornélio Pires e as
primeiras experiências foram cantando em dupla e ponteando a violinha,
nos bailinhos sertanejos e nas serenatas de fazen-da, em Botucatu e depois
em Sorocaba, no Estado de São Paulo. Mas foi em São Manuel
que enfrentaram um microfone pela primeira vez. O administrador da fazenda
São João de Sintra, onde trabalhavam, era fã da dupla
e os levou até a emissora da cidade. Cantaram Namoro de Velhos
e passaram a se apresentar - de graça - todos os domingos.
Daquele domingo, em 1938, até 1994, quando Tonico morreu em São
Paulo, a dupla cumpriu uma das mais belas carreiras da música popular
brasileira. Fiéis às origens, cantando o autêntico
gênero sertanejo, sem fazer concessões, apresentando-se em
programas de rádios tradicionais, sempre nas madrugadas, quando
a gente do campo acorda para a lida. Cantando também em circos,
em teatros, em cinemas, em televisões, em grandes festivais ou
modestas festas religiosas e, até mesmo, no Teatro Municipal de
São Paulo (em 1979), Tonico & Tinoco consolidaram a posição
da mais antiga, autêntica e respeitada dupla caipira brasileira.
Intérpretes de suas próprias composições ou
de consagrados autores do gênero, como Catulo, Joubert de Carvalho,
Capitão Furtado, Raul Torres, João Pacífico, entre
outros, os irmãos Perez prestaram inestimável serviço
à cultura popular do Brasil.
Concederam esta entrevista ao programa MPB Especial, da TV Cultura de
São Paulo, em 1973, aos 54 e 53 anos, respectivamente.
Arley Pereira
MPB ESPECIAL
30/4/1973
[Declama]
Cada vez que eu me alembro do Chico Mineiro
as viagens que nós fazia era o meu companheiro
Eu sinto uma tristeza, uma vontade de chorar
Alembrando daqueles tempo que não mais há de vortá
Apesar de eu ser patrão
Eu tinha no coração
O amigo Chico Mineiro
Caboclo bom, decidido
Na viola era dolorido
E era o peão dos boiadeiro
Hoje, porém, com tristeza
Recordando das proezas
Da nossa viage e motim
Viajemo mais de dez anos
Vendendo boiada e comprano
Por esse rincão sem fim
O caboclo de nada sabia
Mas, porém, chegou um dia
Que Chico apartou-se de mim.
[Cantando]
Fizemo a úrtima viagem
Foi lá pro sertão de Goiás
Fui eu e o Chico Mineiro
Também foi o capataz
Viajemo muitos dia
Pra chegá em Ouro Fino
Aonde nóis passemo a noite
Numa festa do Divino
A festa tava tão boa
Mas antes não tivesse ido
O Chico foi baleado
Por um home desconhecido
Larguei de comprá boiada
Mataram meu companheiro
Acabô o som da viola
Acabô-se o Chico Mineiro
Depois daquela tragédia
Fiquei mais aborrecido
Não sabia da nossa amizade
Porque nóis dois era unido
Quando vi seu documento
Me cortou o meu coração
Vim saber que o Chico Mineiro
Era meu legítimo irmão.
Chico Mineiro, Tonico/Francisco Ribeiro. Copyright by LATINO (WARNER/CHAPPELL).
TONICO -
Essa música chama Chico Mineiro. Faz quantos anos que nóis
gravemo, Tinoco?1
TINOCO - 28 anos.
TONICO - 28 anos. É uma das música mais preferida do público,
inté demais, e está vendendo disco até hoje.
***
TINOCO - Quantos mir disco vendeu? Isso não dá pra carculá,
mas a Continentar fornece a estatística.
TONICO - Tem tudo lá. No momento a gente não alembra.
TINOCO - Bastante. Faz muitos ano que a gente gravou e está saindo
até hoje ainda.
***
TINOCO - Nóis começamo desde que nós se conhece por
gente, eu tinha seis anos, o Tonico tinha dez. Nóis já cantava,
sem viola porque não tinha viola no interior. Nóis cantava
ao vivo. Ocê alembra, Tonico, que nóis sentava na porta da
casa, no batente da porta, e ali nóis ficava esperando passá
os camarada da fazenda, eles dava um dinheiro pra nóis? Nóis
nem conhecia o dinheiro ainda.
TONICO - Eles gostava de ver dois menino cantá. Então falavam:
"Canta um versinho que eu dou um tostão".
***
TINOCO - Foi em São Manuel.
TONICO - Na fazenda do Sintra. Hoje é mais invernada, é
cana.
TINOCO - Eu tive em São Manuel faz quinze dias, quase não
conheci mais, é canaviar por tudo lado ali.
TONICO - A Castelo Branco passa bem no meio da fazenda, né?
TINOCO - Não, não é a Castelo Branco, é outra
rodovia que passa ali na fazenda. A música que nóis cantava,
quando era pequeno, é uma que o pai ensinou nóis.
TONICO - É uma moda de viola, né?
TINOCO - O pai até hoje canta. Tá meio fraquinho, mas canta.
TONICO - É o Burro Saudoso.
TINOCO - Você lembra, Tonico, algum verso?
1 Neste programa torna-se necessária a identificação
de quem dá a resposta.

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