Francisco dos Santos, o Cascatinha, nasceu em Araraquara, São Paulo, na Fazenda Cafelândia, em 1919; virou Cascatinha ainda adolescente, quando era estudante, em Marília, pois gostava de tomar banho de rio onde houvesse quedas d'água. Estudou um pouco, foi servente de pedreiro e, ao mesmo tempo, conseguiu ser admitido, como tocador de caixa, na banda local. Animava bailes, cantava em festas e, num belo dia, quando tinha 18 anos, entrou para o conjunto musical do Circo Nova Iorque, que passava pela cidade e estava precisando de baterista. De baterista a cantor, formou, primeiro, uma dupla com Natalício Fermino dos Santos, um paraibano, também malabarista, apelidado de Chope.

Em 1941, quando o circo passava por Araras, conheceu uma filha da terra, Ana Eufrosina da Silva, quatro anos mais nova, que era a cantora da cidade (fazia dupla com a irmã, Maria das Dores da Silva, na Jazz Band de Araras; outros irmãos dela tocavam bateria e acordeom, na mesma banda). Namoraram, casaram em cinco meses e Ana abandonou a banda para viajar com o marido - que mantinha a dupla com Chope. Mas, em 1942, Cascatinha e Chope brigaram. A solução doméstica fez surgir a dupla Cascatinha e Inhana (vale registrar que, no interior, as Anas são Inhanas, corruptela de Sinhá - Nhá - Ana).

A nova dupla foi ficando famosa no interior, andanças constantes, até que Manezinho Araújo convidou o casal para a Feira Folclórica de 1948, no Rio de Janeiro. Vieram apresentações na Rádio Nacional, um contrato com a Rádio Record, trabalhos de acompanhamento vocal para Raul Torres e Florêncio. A estréia de Cascatinha e Inhana em disco deu-se em 1951, num 78 rotações que tinha La Paloma e Fronteiriça. Curiosamente, os dois discos seguintes levavam o nome apenas de Ana Silva - sem Cascatinha.

Mas o disco seguinte da dupla iria torná-la um dos pares de vozes mais conhecidos da música brasileira e trazia versões das guarânias Índia (de Ortiz Guerrero e Asunción Flores, letra em português de José Fortuna) e Meu Primeiro Amor (de Herminio Giménez, letra em português de José Fortuna e Pinheirinho Júnior). Convém recordar que Gal Costa regravou a primeira e Nara Leão, a segunda.

O sucesso nacional veio ainda com outras músicas, como Casinha Pequenina (também regravada por Nara Leão), Na Casa Branca da Serra, Mestiça, Triste Caboclo, Guacira (que João Gilberto regravou há pouco tempo), A Saudade.

Até a morte de Inhana, 11/6/1981, foram 35 anos de sucessos, dezenas de discos e uma
multidão de imitadores. Cascatinha prosseguiu em carreira solo, depois da morte da par-ceira, até morrer, em 14/3/1996. Mas foi com o trabalho em dupla que se tornou uma das
maiores glórias da música caipira. Concederam esta entrevista ao programa MPB Especial,
da TV Cultura de São Paulo, em 1973, Cascatinha com 64 anos, e Inhana com 60 anos.

Mauro Dias
MPB ESPECIAL
17/9/1973

Índia, seus cabelos nos ombros caídos
Negros como a noite que não tem luar
Seus lábios de rosa para mim sorrindo
E a doce meiguice desse seu olhar
Índia da pele morena
Sua boca pequena
Eu quero beijar
Índia, sangue tupi
Tem o cheiro da flor
Vem que eu quero lhe dar
Todo meu grande amor
Quando eu for embora para bem distante
E chegar a hora de dizer-lhe adeus
Fica nos meus braços só mais um instante
Deixa os meus lábios se unirem aos seus
Índia, levarei saudade
Da felicidade que você me deu
Índia, a sua imagem
Sempre comigo vai
Dentro do meu coração
Flor do meu Paraguai.

Índia, Manuel Ortiz Guerrero/J. Asunción Flores/vs. José Fortuna. Copyright by EDITORA E IMPORTADORA MUSICAL FERMATA DO BRASIL/ADDAF.

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CASCATINHA - Foi gravado em 51.