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Cordovil era o nome de seu pai, o médico Cordovil Pinto Coelho, que resolveu transformar seu prenome em sobrenome ao batizar o filho Hervê, nascido em 3 de fevereiro de 1914, na mineira cidade de Viçosa. Da mãe, Maria de Lucca Pinto Coelho, musicista amadora, herdou o talento musical que faria dele um dos maiores nomes da história da música popular brasileira. Filho de classe média alta - seu pai era médico de Artur Bernardes, futuro presidente da República -, Hervê saiu cedo de Viçosa, passou por Manhuaçu e foi estudar no Rio de Janeiro. No Colégio Militar já estava envolvido com música, tocando na banda e formando um grupo de jazz com colegas, enquanto se aperfeiçoava no estudo de piano. Descobre então que sabe compor e cria um chorrilho de músicas, que submete ao compositor Eduardo Souto, diretor da primeira gravadora brasileira, a famosa Casa Edison, do Rio de Janeiro. Souto se engana redondamente e desaconselha o adolescente a continuar, o que não o desanima. Já acadêmico de Direito, em 1931 estréia como pianista, na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, e em breve é um dos quatro tecladistas mais solicitados da capital federal, ao lado de Carolina Cardoso de Menezes, Romualdo Peixoto (o Nonô) e Custódio Mesquita. Começa a se tornar conhecido como compositor - Carolina, com Bonfiglio de Oliveira; Madame Du Barril, jingle com Lamartine Babo; Triste Cuíca, com Noel Rosa são seus primeiros sucessos. Já advogado e com nome firmado como compositor também de trilhas para cinema e no teatro de revista, muda-se para Belo Horizonte, onde, trabalhando na Rádio Guarani, compõe, em parceria com a prima Marisa Pinto Coelho, a toada Pé de Manacá, que viria a ser um de seus sucessos internacionais. Em 1941 casou-se em São Paulo com Daicy Portugal, que seria mãe de seus filhos, todos cantores e compositores, Ronnie Cord, Hervê Jr., Norman e Maria Regina. A lua-de-mel foi em Manhuaçu, e aí ficou advogando por quatro anos. Em 1945 é contratado pela Rádio Record de São Paulo, onde permanece 26 anos, até se aposentar. Pianista excelente, arranjador notável, compositor versátil criando em todos os gêneros, destacou-se como o mineiro que sabia fazer baião, tornando-se o compositor favorito de Carmélia Alves, a Rainha do Baião, a quem deu sucessos como Me Leva; Sabiá lá na Gaiola; Cabeça Inchada; Pé de Manacá e tantos outros. O que não o impediu de fazer de seu filho Ronnie Cord o primeiro Rei da Juventude, ao criar para ele o rock que dominou o Brasil em 1964, Rua Augusta. Nem de compor o ultra-romântico Uma Loira, sucesso de Dick Farney em 1951. Concedeu esta entrevista ao programa MPB Especial da TV Cultura de São Paulo, em 1973, aos 59 anos. Arley
Pereira [Música
instrumental: Queimada] Esse foi um tema que eu fiz para um filme francês chamado Queimada. Mas o filme não veio, a música ficou por lá. Levaram daqui. É um troço sério. Pediram, escrevi, levaram e eu não vi. Bacana, né? Isso se dá muito com brasileiro. Lá
detrás daquele morro *** Eu nasci em Viçosa. Você sabe que eu tô tão acostumado a falar que nasci em outro lugar, por engano, que eu até me atrapalho? Eu nasci em Viçosa, no Estado de Minas Gerais, no ano de 1800 e antigamente. Bom, eu tô vivo. Mas fui criado até os sete anos em Manhuaçu, uma cidade de Minas, e todo mundo pensa que eu nasci lá. Realmente, eu fui pra lá com um ano de idade e fiquei até os oito. Sou meio mineiro. Essa cidade existe e existe mesmo, tá lá firme, "firme fixa e anexa", como diz o outro, nas margens da Rio-Bahia, perto da Rio-Bahia, aliás, bem na margem da Vitória-Minas, no cruzamento das duas estradas, de maneira que ela recebe mineiros, baianos, nortistas e sulistas, todos eles. *** A cidade? A cidade é uma beleza, só você vendo. É uma rua que vai daqui até lá, duas montanhas do lado de cá, uma de cada lado da cidade e a gente passando de avião pelo meio tem a impressão que está, assim, na ponte Rio-Niterói, que está passando num lugar incrível. É um vale tremendo. Manhuaçu é o nome dessa cidade. *** Fui pro Rio com nove anos, fui pro Colégio Militar do Rio de Janeiro, me matriculei com dez. Aí fiquei a vida inteira no Rio de Janeiro, até... *** Fiz o curso todo, sim, puxa, se fiz. Duro pra burro, mas fiz o curso. É um grande colégio, um colégio formidável. Foi lá que eu comecei mesmo música por música, porque até então eu tinha dez anos, mas eu tocava uma porção de instrumentos, mas tudo aqui, de ouvido. *** Todo mundo lá em casa toca. É uma coisa incrível, parece que é praga, sabe? Toca mal mas toca. Todo mundo toca piano, canta, faz ou acontece, mas vai. *** Eu comecei assim. Eu era da banda do Colégio Militar, então me entusiasmei pela banda do Colégio Militar. É uma característica minha, me entusiasmo por tudo que eu faço. Então eu me entusiasmei pela banda de música do Colégio Militar. Tocava aqueles dobrados, dobrados do Pedro Salgado, coitado, que morreu outro dia com 80 e sei lá quantos anos. Não recebe direito autoral, porque banda no Brasil não paga direito, você sabe disso. Então eu tocava aquele dobrado dele. [Música instrumental] Tinha aquele outro que é muito conhecido aqui. Começa assim: [Música
instrumental: Dois Corações] Toca no circo do Arrelia, toca em toda parte, chama Dois Corações. |