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Chico Buarque o tem na condição de primeiro mestre. Vinícius de Moraes, que lhe exaltava na obra, em primeiro lugar, "aquela perfeita maciez melódica", reputou-o "um dos três maiores do samba carioca". José Lino Grunewald confirmava-o, ao lado de Sinhô e Noel Rosa, no "trio básico de sambistas puros da fase de ouro da nossa música popular". O grande Ismael Silva - como disse certa vez Lúcio Rangel, corrigindo Mário de Andrade, que o citara simplesmente por nome e sobrenome, sem a reverência que se impunha - pode ser considerado, à frente dos bambas de sua convivência no Estácio, o estruturador do samba, na forma pós-maxixe em que se converteu no ritmo da pulsação nacional. Ismael Silva nasceu em Jurujuba, Niterói, em 14 de setembro de 1905. Ficou carioca aos três anos, cidadão do Estácio. No bairro, fundou com os companheiros a primeira escola de samba, ainda sem essa designação, a Deixa Falar, no final dos anos 20. Sua turma - Ismael, Nilton Bastos, Bide (Alcebíades Barcelos), Rubens, Edgard, Aurélio, Brancura, Baiaco, alguns mais - reunia-se nos cafés Apolo e do Compadre. Aí, fazia os maravilhosos sambas que rapidamente se espalhavam pela cidade. Numa crônica famosa, o compositor Evaldo Rui narrou sua expectativa de jovem diletante daquele ambiente: "Procurando disfarçar a minha curiosidade, aguardava o momento em que os dedos ágeis e cheios de ritmo dos mestres começassem a tamborilar sobre o mármore da mesa". Poderia ser, talvez, o último retoque em Se Você Jurar ou Nem é Bom Falar. Pragmático garimpeiro de talentos, o cantor Francisco Alves, figura onipresente no meio artístico, passou a freqüentar o Estácio e propôs a Ismael gravar-lhe toda a produção, aceita a condição de que figurasse igualmente como autor das músicas. E assim o trio Ismael Silva, Nilton Bastos (o verdadeiro parceiro) e Chico Alves passou a inundar de sucessos a cidade e o país. Nilton Bastos morreu em 1931. Para ele, Ismael fez o extraordinário samba Adeus, com um novo parceiro, Noel Rosa. Quando Noel morreu, em 1937, a dupla já havia feito mais dez. Mas antes, Ismael Silva sumira. Estivera preso - tiros num bar, processo, condenação - e desaparecera (extremamente reservado, era parte de sua vida sobre a qual não falava). Voltou triunfalmente em 1950, com dois grandes êxitos na mesma temporada, os sambas Antonico, gravado por Alcides Gerardi, e Único Desejo, na voz de Gilberto Alves. Antonico, desde logo um clássico, comprovava: o compositor da maturidade, que terminaria seus dias na Lapa, era o mesmo dos tempos do pioneirismo no Estácio. Ismael Silva morreu pouco depois das 20 horas do dia 14 de março de 1978, de enfarte agudo, no Hospital da Lagoa, onde se internara em dezembro do ano anterior para operar-se de uma úlcera varicosa na perna esquerda. Por conta dela acrescentara a bengala ao figurino da elegância diária dos ternos irrepreensíveis e imaculadas camisas de seda. Concedeu esta entrevista ao programa MPB Especial da TV Cultura de São Paulo, em 1973, aos 68 anos. Moacyr
Andrade Trabalho
igual ao meu Essa música é uma das novas do meu repertório. Eu tenho um repertório de..., não tenho muitas músicas, estou com 30 músicas novas. *** Meu Único Desejo não é nova, é quase nova, já foi gravada, mas quase ninguém conhece, foi gravada há muito tempo por Alcides Gerardi. A única gravação que teve. Tu devolveste
meu retrato, minhas cartas *** Cristina
- É Receio. *** A minha entrada na música foi bem diferente dos outros compositores, talvez até seja um caso único, porque o comum é o compositor procurar o cantor. No meu caso foi diferente, o cantor é que andava querendo saber quem é esse Ismael Silva aí? Quem é esse Ismael Silva? Quem é esse Ismael Silva? Pelo seguinte: cada vez que alguém da sua ligação chamava-o para ouvir um samba e, depois que acabava de cantar, perguntava: "É bonito ou não é?" - "É, de quem é?" - "É de Ismael Silva". Então o cantor, revoltado, dizia: "Quem é esse Ismael Silva?" Isso aconteceu várias vezes. |