Rui Alexandre Faria, nascido em Cambuci, em1938, Milton Lima dos Santos Filho, de Campos, 1944, Antônio José Waghabi Filho, de Itaocara, 1945, e Aquiles Rique Reis, de Niterói, 1949, todas cidades do Estado do Rio de Janeiro, formam o mais antigo conjunto de que se tenha notícia, no mundo, a manter, desde a criação, os mesmos integrantes. Rui, Miltinho e Aquiles criaram o grupo em 1962, em Niterói, e a eles juntou-se, em seguida, Waghabi - que, pelo tipo físico, tinha o apelido de Magro, que mantém ainda hoje. No início, eram o Quarteto do CPC, pois apresentavam-se nos espetáculos promovidos pelo Centro Popular de Cultura da União Nacional dos Estudantes. Foi Sérgio Porto, o Stanislaw Ponte Preta, que os batizou de MPB-4 - e nascia, aí, a sigla MPB, para designar aquele tipo de música popular brasileira voltada para a história urbana da constituição da música popular. O primeiro disco, um compacto - aqueles disquinhos com uma música de cada lado - saiu em 1964. No ano seguinte eles juntaram as quatro vozes com as das meninas baianas, descobertas por Aloísio de Oliveira, do Quarteto em Cy, num espetáculo montado em São Paulo por Chico de Assis.

Chico de Assis foi um dos incentivadores do jovem Chico Buarque de Holanda e entra nessa história não só por haver aproximado o xará Buarque do MPB-4 quanto por haver dado o ultimato aos meninos fluminenses: ou vocês largam a faculdade e resolvem fazer música profissionalmente, em tempo integral, ou é melhor desistir. Eles largaram a faculdade, depois de uma reunião - que varou a noite - realizada ali no então célebre bar Redondo, na Av. Ipiranga, em São Paulo. Começava uma das histórias mais bonitas e íntegras da canção brasileira. Com uma formação de extrema simplicidade - o violão de Miltinho, a tumbadora do Magro, um eventual chocalho de Aquiles e a voz de Rui (inicialmente era só isso), o grupo alcançou um grau de sofisticação que poucas vezes um quarteto vocal conseguiu.

O uníssono é perfeito, as vocalizações (quase sempre escritas por Magro) mudaram o conceito de arranjo vocal e ainda hoje constituem a fórmula em que se baseiam os arranjos vocais. Trabalharam - em shows, peças de teatro, comícios, ou que manifestação tenha sido importante para nossa história recente - com os maiores artistas de seu tempo (houve época em que Chico Buarque não entrava em palco sem eles) e o conjunto de seus discos memoráveis forma uma antologia do que melhor se produziu na MPB - afinal, eles são homônimos da sigla e de certa forma responsáveis por ela - nos últimos 40 anos.

Concederam esta entrevista ao programa MPB Especial, da TV Cultura de São Paulo, em 1973. Rui, com 35 anos, Miltinho com 29, Magro com 28 e Aquiles com 24.

Mauro Dias
MPB ESPECIAL
4/6/1973

Quando um muro separa
Uma ponte une
Se a vingança encara
O remorso une
Você vem e agarra
Alguém vem e solta
Você vai na marra
Ela um dia volta
E se a força é tua
Ela um dia é nossa
Olha o muro
Olha a ponte
Olha o dia de ontem chegando
Que medo você tem de nós
Olha aí
Olha aí
Olha aí
Olha aí
Você corta um verso
Eu escrevo outro
Você me prende vivo
Eu escapo morto
De repente, olha eu de novo
Perturbando a paz
Exigindo troco
Vamos por aí, eu e meu cachorro
Olha o verso
Olha o outro
Olha o velho
Olha o moço chegando
Que medo você tem de nós
Olha aí
Olha aí
Olha aí
Olha aí
O muro caiu
Olha a ponte
Da liberdade guardiã
O braço do Cristo horizonte
Abraça o dia de amanhã
Olha aí
Olha aí
Olha aí
Olha aí
Mordaça
, Paulo César Pinheiro/Eduardo Gudin. Copyright by EDIÇÕES MUSICAIS TAPAJÓS LTDA. (EMI).

RUY - Olha aí.

***

RUY - O conjunto começou, quer dizer, sem ser profissionalmente, começou em Niterói, nos meios estudantis.
AQUILES - Os famosos meios estudantis.
RUY - Os famosos meios estudantis de Niterói. O Miltinho e o Magro faziam engenharia, eu fazia direito e o Aquiles estava no clássico.
AQUILES - Naquela época era ginásio ainda.
RUY - Ginásio ainda? Nós ainda não conhecíamos. Não conhecia nem Miltinho nem você. Já tinha um trio à parte.
AQUILES - O Magro foi o último a entrar no conjunto. Nós tínhamos um quarteto que era eu, Miltinho, Ruy e mais uma menina. Aí essa menina saiu.
RUY - E entrou a outra moça aqui no lugar.
AQUILES - O Magro expulsou a moça do conjunto e entrou. Mas o Magro conheceu o Ruy num baile. O Magro tinha um conjunto de baile e o Ruy freqüentava muito as festinhas em que o Magro tocava.
MAGRO - Conjunto Praia Grande, de bailes.
AQUILES - O Ruy era o bico do baile, ficava tocando, enquanto os músicos iam fazer o lanche.
RUY - No intervalo, enquanto os músicos iam lanchar. O Miltinho tava nessa também, não tava?
MILTINHO - Não, não vou a esses bailes não.
RUY - Tava, sim senhor. Eu lembro que não peguei sozinho. Tinha um negócio de uma guitarra, que a gente começou a cantar bolero no intervalo.
AQUILES - Mas era você e seu trio de bolero.
MILTINHO - Aí o Magro perguntou se eu arranhava, né?
AQUILES - O Ruy participava de dois conjuntos ao mesmo tempo, era o trio de bolero, o Trio Itaipu, e o quarteto.

***

RUY - A gente se formou nesse negócio de estudante.
AQUILES - Era um grupo. A gente já tinha teatro, a gente fazia música, esse grupo fazia artes plásticas e várias coisas assim. O grupo de música era a gente que representava.
RUY - Éramos os responsáveis.
AQUILES - Então a gente cantava todo tipo de música, cantava em festa de estudante, em coisas de operários.
RUY - Fizemos uma peça.
AQUILES - O Ruy escreveu uma peça, inclusive. Como chamava?
RUY - O Menino e a Bola. Os atores não falavam.
AQUILES - Não tinha texto, a gente fica off. Os atores desempenhavam e a gente dizendo lá no gogó.