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A biografia do compositor Newton Carlos Teixeira tem o início idêntico ao da maioria de todos os suburbanos cariocas do começo do século que se envolveriam com a música popular de sua cidade. Nascido em 4 de abril de 1916, Newton fez os primeiros estudos na escola do Barão de Macaúbas, terminando o secundário no Pritaneu Militar. A música aparece mais concretamente aos dez anos, quando se inicia no bandolim, que na adolescência trocaria pelo violão. Afinal, o instrumento era dominado por seu irmão mais velho Valzinho, o também compositor Norival Carlos Teixeira, um músico avançadíssimo para a época. O violão era então o símbolo dos boêmios, e Newton que começava a freqüentar o Ponto dos Cem Réis, na Vila Isabel, e conhecendo Noel Rosa, escolhia em definitivo seu destino de músico, compositor e cantor. Cantor ao estilo de Sílvio Caldas e Orlando Silva, de quem se tornou muito amigo e para quem criou grandes sucessos, como a marchinha Mal-Me-Quer, em 1940. Aliás, Newton gravou sempre com os três maiores intérpretes da época (A Deusa da Minha Rua, dele e Jorge Faraj, enorme sucesso de Sílvio é outro exemplo), e Chico Alves chegou a brigar com ele, acusando-o de preferir dar suas melhores músicas aos dois. Como músico (violonista), acompanhou muito as apresentações dos três - além de outros grandes cantores daquele período -, a ponto de Sílvio e Orlando homenageá-lo de forma singular: na gravação (Odeon, 1937) de Quando Eu For Bem Velhinho (Lupicínio Rodrigues/Felisberto Martins), cantada por Newton, os violões acompanhantes são tocados pelos dois cantores. Parceiro de grandes compositores como Cristóvão de Alencar, Jorge Faraj, Ataulfo Alves, Mário Lago, David Nasser, Wilson Batista, um dos últimos sucessos de Newton em parceria foi a marcha-rancho Avenida Iluminada, feita com Brasinha para o Carnaval de 1969. Deixando uma obra extensa e nome consagrado, morreu no mesmo Rio de Janeiro em 7 de março de 1990, poucos dias antes de completar 74 anos. Concedeu esta entrevista ao programa MPB Especial da TV Cultura de São Paulo, em 1974, aos 58 anos. Arley
Pereira Eu perguntei
ao malmequer Essa música foi a minha primeira composição de carnaval, foi para o carnaval de 1940, gravada em 39. *** Orlando Silva? Eu comecei na minha vida artística e tive três fases distintas. Na primeira fase, eu tocava violão e, nessa fase de tocar violão, conheci grandes artistas, grandes cantores. Fui acompanhador de Sílvio Caldas, que foi quem me lançou no rádio praticamente. Fui acompanhador de Chico Viola, o Francisco Alves. Orlando Silva praticamente começou comigo. João Petra de Barros. *** Noel Rosa, eu comecei com ele na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, lá na rua da Carioca. Eu comecei, mas logo depois ele faleceu. Ele tinha uma vida muito irregular e não conseguiu..., como é que se diz?, não teve condições físicas para agüentar o padrão de vida que estava levando. *** A primeira vez que eu toquei com Noel, ele cantou um samba assim: Oi de
babado sim Os versos eu não me lembro. Noel improvisava muito. *** O Noel morreu com 27 anos, era moço ainda. Estudava medicina, mas não gostava muito do estudo de medicina, o que ele queria mesmo era tocar violão. *** Ah, era sim. Ele não gostava de comer. Tem uma história interessante. Eu fui jantar com Noel Rosa e ele, pra poder fugir da alimentação, me disse assim: "Escuta, vou tomar uma cervejinha e depois peço um bife". De maneira que chegou o bife e ele tapeou assim: "Esse bife eu não posso comer, não. Ele está com o instinto da conservação". E pediu outra cerveja. *** O Sílvio Caldas? Eu conheci o Sílvio fugindo de um guarda, que queria pegar o Sílvio por causa da seresta que nós estávamos fazendo. De forma que eu conheci o Sílvio nessa oportunidade, mas não sabia que estava correndo junto com Sílvio Caldas. Depois me tornei grande amigo dele e eu devo inclusive ao Sílvio Caldas... A seresta foi em Vila Isabel. Ele não gosta que eu conte essa história. Em Vila Isabel, ele estava cantando e eu estava acompanhando. Aí o guarda chegou e disse assim: "Olha, não se pode fazer seresta. Você sabe que é proibido". Aí o Sílvio disse assim: "Bom, mas de qualquer maneira é gente conhecida, gente amiga e eu não posso deixar de fazer essa seresta aqui porque prometi inclusive". Aí o guarda: "Então vou chamar um carro pra levar vocês". Aí nós fomos andando depressa, não correndo, andando depressa. *** Eu nasci no dia 4 de abril de 1900 e antigamente. Eu fui criado... Nasci praticamente em Irajá, mas foi uma conseqüência da ida da minha mãe para Irajá, porque o sujeito que acabou sendo meu padrinho era médico, então eu nasci na Vila Irajá por causa dele. Mas na verdade a minha infância toda foi entre Vila Isabel e São Cristóvão, morei nos dois bairros, e a minha família mora até hoje em Vila Isabel. |