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A armação foi bem-feita. Fernando Faro convidou Paulinho da Viola para gravar o Ensaio, para a TV Cultura, de São Paulo, e a gravação começou dentro do esquema habitual, Paulinho - já consagrado e famoso - sendo entrevistado, respondendo perguntas que sóele ouvia e que eram depreendidas pelo telespectador por meio das respostas, um estilo criado pelo Faro, que se tornou a marca registrada do programa. O assunto era o primeiro espetáculo de palco, na carreira de Paulinho da Viola, o famoso musical Rosa de Ouro. Ele contou que, além de números próprios, o acompanhamento musical e vocal das estrelas Clementina de Jesus e Aracy Cortes era feito pelo conjunto Os Quatro Crioulos, que virou Cinco quando ele, menino e desconhecido, foi chamado a fazer parte do espetáculo. Que cada um dos integrantes se apresentava cantando um verso, em um partido-alto criado especialmente para o show. Fernando Faro provoca a "deixa", insistindo para que Paulinho lembre ao menos o primeiro verso da apresentação e, quando ele o canta, a magia se estabelece, os anos deixam de existir, o tempo retrocede. Elton Medeiros, Jair do Cavaquinho, Anescarzinho do Salgueiro e Nelson Sargento surgem da penumbra já cantando e tocando, como se estivessem no palco do Teatro Jovem, em Botafogo, em 1965. Paulinho sorri surpreso, se refaz rapidamente do susto, acerta o tom e volta a ser um dos Crioulos, na maior felicidade, cantando o verso com o qual se apresentava à platéia, ao Rio de Janeiro, ao Brasil, girando em sustenidos e bemóis a chave que abria a porta de sua carreira. Vi, ouvi, apreendi o Rosa de Ouro, mais de cinqüenta vezes. Ajudar a remontar um trecho seu, a criar a surpresa para Paulinho, resultou no maior e melhor pagamento que o trabalho com música me proporcionou até hoje: rever Os Cinco Crioulos cantando Silas de Oliveira, Paulo da Portela, Baiaco, Cartola, além dos grandes sambas de seus próprios integrantes. Sambas da limpidez de Água do Rio, de Anescarzinho; da altivez de Pecadora, de Jair do Cavaquinho; da beleza de O Sol Nascerá, de Elton Medeiros; do antológico As Quatro Estações (conhecido como Primavera), de Nelson Sargento, embasaram aquele espetáculo, um divisor de águas na história da MPB, e que, ao lado de muitos outros clássicos, tornaram o Rosa de Ouro referência obrigatória para quem quiser saber de nossa cultura popular. Neste Ensaio - que virou um bate-papo entre os compositores - detalhes saborosos são lembrados, os sambas são cantados com a mesma alegria da época, quando Nelson Sargento ainda não era sucesso no Japão, Elton não fazia shows na Suécia, Jair não pensava em ser atração da Velha Guarda da Portela. Infelizmente Anescarzinho, o nosso "Paciência", foi bater seu tamborim em algum Salgueiro que existirá em outra dimensão. Felizmente, Paulinho da Viola é a expressão mais fina que o samba pode apresentar em todos os tempos. Concederam esta entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura de São Paulo, em 1990, quando Paulinho da Viola tinha 48 anos. Arley
Pereira São
quatro crioulos, inteligentes *** PAULINHO DA VIOLA - Isso é uma surpresa maravilhosa. Vou apresentar agora, isso foi uma surpresa que eu não esperava, fora de roteiro, mas quero apresentar as figuras que começaram comigo. Acho que eu é que comecei com eles, ainda menino, exatamente no Rosa de Ouro. Eu não sabia que o Faro ia me dar essa surpresa tão agradável e que está me deixando assim emocionado. Mas é o Anescarzinho do Salgueiro, um dos maiores compositores do Salgueiro, autor de inúmeros sambas de sucesso no Salgueiro e muitas músicas também, autor de Chica da Silva, quem não se lembra? Autor de Água do Rio e inúmeros outros sambas que fizeram sucesso no Salgueiro. Também, ao lado dele, o Elton Medeiros, que é o meu parceiro mais constante agora, amigo já de muitos anos, com quem fiz muitas músicas e fiquei mais ligado a partir desse espetáculo que foi o Rosa de Ouro. Aqui ao lado, o Jair do Cavaquinho, que Jacob do Bandolim dizia que era a maior palhetada de samba que ele conhecia. Talvez Jair nunca tenha falado isso para você, mas Jacob falava isso: que foi a maior bossa em termos de palhetada de samba. É um grande compositor da Portela também, veteraníssimo. E, ao lado dele, a figura maravilhosa de Nelson Sargento, grande compositor da Mangueira, autor de sambas como Primavera, que foi um samba-enredo da Mangueira que fez muito sucesso, Falso Moralista e vários outros. Alguns gravei também. Essas pessoas aqui são praticamente o começo do nosso trabalho. *** PAULINHO
- Anescarzinho, você fez muitos sambas para o Salgueiro. Você
é um compositor que a gente tem que estar sempre lembrando como
um compositor do Salgueiro. Você, Djalma Sabiá, Geraldo Babão.
Canta um samba que você fez para o terreiro, para a quadra do Salgueiro,
um daqueles que, se cantar hoje lá no Salgueiro, todo mundo vai
saber. Tudo ficou, *** PAULINHO
- Você acha que a gente pode, Anescarzinho, cantar um samba desse
hoje numa quadra de escola de samba e a bateria acompanhar? *** PAULINHO - É impossível. |