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Completando 30 anos de carreira em 2000, o pernambucano Quinteto Violado edificou uma revolução armorial à parte na terra de Ariano Suassuna. A coerência artística de sua trajetória sempre ligada à MPB essencial impressiona pela resistência aos modismos da hora e imposições de mercado. Organizado em 1970, em Recife, em torno da música nordestina e pesquisas de folclore, o Quinteto era inicialmente integrado por Toinho Alves (voz e contra-baixo), Marcelo Melo (voz, violão), Fernando Filizola (viola), Luciano Pimentel (bateria, percussão) e Sandro (flauta). Sua inspiração instrumental aberta a improvisos segue nítida influência do antecessor Quarteto Novo, formado (em meados da década de 60) por Hermeto Pascoal (flauta), Theo de Barros (violão), Heraldo do Monte (viola) e Airto Moreira (percussão). Da formação inicial permaneceram apenas Toinho e Marcelo (com Dudu Alves, teclados, Ciano, flauta e violão, e Roberto Medeiros, percussão), mas o grupo não mudou sua ideologia estética. Descobertos por Gilberto Gil após apresentações em Nova Jerusalém, em Pernambuco, onde receberam o apelido de "violados" pelo número de instrumentos de cordas, os cinco gravaram o primeiro disco em 1972, no ramal baiano da então Philips/Phonogram. Na capa, um cangaceiro estilizado montado num cavalo eletrônico e no repertório de clássicos de Luiz Gonzaga, Asa Branca, Vozes da Seca, Acauã, Baião da Garoa, a temas folclóricos como Marcha Nativa dos Índios Quiriris a Roda de Ciranda. Com o produtor Marcus Pereira, o grupo participou do mapeamento músical da região (nos quatro discos Música Popular do Nordeste, lançados em 1973), premiado com os troféus Noel Rosa e Estácio de Sá (do MIS carioca). No espetáculo A Feira (também transformado em disco) em 1974, o Quinteto lançava a cantora Elba Ramalho e abria um circuito de shows pelas capitais nordestinas. Suas incursões no teatro utilizando a feição dramática do trabalho musical mobilizaram ao longo da carreira diretores e cenógrafos como Túlio Feliciano, Naum Alves de Souza, Benjamim Santos e Rubens Teixeira. Além de participar do festival MIDEM na França, entre várias excursões internacionais, o QV também influiu na volta do carnaval de rua do Recife a partir de apresentações do Bloco Azul, de 1977. Em sua vasta discografia (parcialmente lançada em mercados como Japão, Alemanha, Espanha e outros países europeus), o grupo inventariou do baião em Antologia do Baião (1977), Pilogamia do Baião (1979) e Coisas que Lua Canta (1983) ao forró (O Maior Forró do Mundo, 1986), passando pelo registro da célebre A Missa do Vaqueiro (1976), uma abordagem da História do Brasil (1987), além da música das Ilhas de Cabo Verde (1989) e até repertório infantil (Criar e Recrear, 1994). Partindo do princípio de "interação com o erudito sem desfiguração" mais a idéia de que "a arte é a universalização do popular", o Quinteto, biografado no livro Bodas de Frevo, de Gilvando Filho (Editora Cepe, 1998), recentemente regravou o repertório de um dos ícones nordestinos em Quinteto Canta Vandré (incluindo entre as faixas de Disparada e Caminhando a Fica Mal com Deus, Cantiga Brava e até a pouco conhecida República Brasileira). Em Farinha do Mesmo Saco (1997), eles foram além, estabelecendo uma ponte com o movimento mangue beat de Chico Science (Macô, Coco Dub) e mundo livre s/a (Ligação Direta), a geração emergente de Lenine (Leão do Norte, Miragem do Porto) e os antecessores Djavan (Violeiros), Caetano Veloso (O Ciúme) e Jackson do Pandeiro (A Mulher do Aníbal, Forró em Caruaru, Ele Disse). Sem se fechar às mudanças, o Quinteto Violado nunca se afastou da unidade musical nordestina. Concederam esta entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura, de São Paulo, em 1993, quando o Quinteto tinha 23 anos. Tárik
de Souza MARCELO MELO - A gente diz sempre que o Quinteto é uma proposta musical. Não é mudando um ou outro, mas é a idéia, a proposta, a música. Já tem uma característica na forma de trabalhar. Não querendo desmerecer o dele. *** MARCELO - O dia de um reboco de casa no sertão do Nordeste é o dia da grande festa, a grande reunião. Há dois tipos de reboco de casa: o de barro sacudido e aquele que o sujeito passa a colher de pedreiro na parede pra ficar bem lisinha; essa é a casa do sertanejo mais caprichoso. E um pai de família também caprichoso só leva suas filhas pra um lugar desse: pra se divertir e gozar do momento mais significativo. Todo tempo
quanto houver No meio da festa encontrei a mulher amada, chamei-a pra dançar, saí entortando o chão pelo pé, mais pra adiante chamei-a pra perto e disse: "Ô, minha filha, você gosta de mim?" Ela disse: "Cuidado, que os meninos vêm dançando por aí!" Nessa advertência eu me afastei, mais adiante chamei-a de novo e disse: "Ô, minha filha, quando é que a gente se vê de novo?" E ela disse: "Só sábado". Saí pra casa com o tom da sanfona no meu ouvido e a cor do vestido dela na lembrança. *** MARCELO - Essa história de homem dançar com homem é uma coisa muito normal nas danças dramáticas do Nordeste, nos folguedos, no teatro popular, na chegança, não, nos reisados, no bumba-meu-boi. Nas festas populares a gente vê sempre quando as personagens femininos dentro dos folguedos são homens vestidos de mulher. Isso é uma coisa muito normal. *** MARCELO - O bumba-meu-boi é um drama popular do Nordeste que tem algumas variações, é diferente do Nordeste da nossa região, Pernambuco, Alagoas, Paraíba. Do Maranhão é diferente o boi de lá, e a gente encontrou dentro do bumba músicas, temas musicais belíssimos. O boi morre, o boi ressurge, surge em vários personagens, cada personagem tem uma música que o caracteriza dentro da dramatização, é um trabalho bonito. E bumba-meu-boi cada um tem uma história, diz a origem do bumba. O capitão Antônio Pereira dizia: "O meu boi chama-se o Boi Misterioso, porque você nunca viu um boi de papelão, então esse boi é misterioso". Mateu,
ô Mateu |