A cantora potiguar Ademilde Fonseca é talvez para a contrariedade de alguns puristas despidos de um mínimo de condescendência, que receberam sua ousadia como atentado a um gênero sem mácula, a fixadora de uma das modalidades de maior aceitação de nossa música popular: o chorinho com letra. Ademilde é a soberana inconteste dessa vertente des

de que praticamente a patenteou, em julho de 1942, ao lançar em selo Columbia (mais tarde a gravadora Continental, de tanta história em nossa discografia), a versão com versos do eterno e mundialmente conhecido Tico-Tico no Fubá, do compositor paulista (Santa Rita do Passa Quatro) Zequinha de Abreu.

A letra era de outro paulista, Eurico Barreiros, e Ademilde já a cantava, conhecendo-a da transmissão oral, menina da escola primária em Natal. Nascera ali perto da capital rio-grandense-do-norte, na cidade de Macaíba, em 4 de março de 1921. Viera para o Rio, já casada e com uma filha, em 1941.

O sucesso imediato e geral do Tico-Tico cantado puxou o de outros choros clássicos: Darcy de Oliveira fez uma letra para Apanhei-te Cavaquinho, de Ernesto Nazareth, e João de Barro providenciou outra para Urubu Malandro, de Lourival de Carvalho, adaptado de antigo motivo popular fluminense. Os choros passaram a ser feitos também com poemas e Ademilde gravava um êxito após outro, sempre acompanhada de conjuntos liderados por chorões vir-tuosos, da estirpe mais genuína, como, por exemplo, o flautista Benedito Lacerda, o violonista Garoto, o clarinetista Abel Ferreira, o saxofonista K-Ximbinho (por sinal, seu conterrâneo e de quem gravou duas obras-primas, os choros românticos Sonoroso e Sonhando) e o cavaquinista Waldir Azevedo (voz e interpretação de Ademilde têm muito a ver com o agrado universal de Brasileirinho e do baião Delicado).

Na Rádio Clube, Rádio Tupi, Rádio Nacional, cantou em geral escoltada por formações chefiadas por expoentes do nível de Rogério Guimarães, Claudionor Cruz e Severino Araújo, com cuja Orquestra Tabajara, em 1952, foi cantar choros em uma das festas inesquecíveis do milênio, o baile do Castelo de Coberville, nos arredores de Paris, com o qual o estilista Jacques Fath apresentou o algodão brasileiro à alta-costura européia.

Ademilde Fonseca, celebrada em um primor de chorinho a ela dedicado pela dupla João Bosco-Aldir Blanc, não tem sucessoras: ninguém chega perto da espantosa agilidade e do andamento realmente vertiginoso com os quais sem perder um mínimo da perfeita dicção e do timbre viçoso alterou a trajetória do choro. Concedeu esta entrevista ao programa Ensaio, da TV Cultura, em 1997, com 76 anos de idade.

Moacyr Andrade
ENSAIO
23/6/1997


O brasileiro quando é do choro
É entusiasmado
Quando cai no samba
Não fica abafado
E é um desacato
Quando chega no salão
Não há quem possa resistir
Quando o chorinho brasileiro faz sentir
Ainda mais de cavaquinho com pandeiro
E um violão na marcação
Não há quem possa resistir
Quando o chorinho brasileiro faz sentir
Ainda mais em cavaquinho com um pandeiro
E um violão na marcação
Brasileirinho chegou a todos encantou
Fez todo mundo dançar a noite inteira no terreiro
Até o sol raiar
Quando o baile terminou
A turma não se conformou
Brasileirinho abafou, abafou
Até um velho que já estava encostado
Nesse dia se acabou
Pra falar a verdade
Estava conversando com alguém de respeito
Ouvi um grande choro
Dei logo um jeito
Deixei o camarada falando sozinho
Sozinho
Gostei, pulei, dancei, pisei
Até me acabei
Nunca mais esquecerei o tal chorinho
Brasileirinho
O brasileiro quando cai no choro
É entusiasmado
Quando cai no samba
Não fica abafado
E é um desacato
Quando chega no salão
O brasileiro quando cai no choro
É entusiasmado
Quando cai no samba
Não fica abafado
E é um desacato
Quando chega no salão
Não há quem possa resistir
Quando o chorinho brasileiro faz sentir
Ainda mais de cavaquinho com pandeiro
E um violão na marcação.
Brasileirinho, Waldir Azevedo/Ruy Pereira Costa. Copyright by TODAMÉRICA MÚSICA LTDA. (ADDAF).

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Bom, eu nasci num dia 4 de março de 1921. É bom dizer o ano porque eu não aparento mesmo! Sou filha de uma família de dez irmãos, quer dizer, vida difícil pra criar dez pessoas. Nem todos cantaram como eu, tiveram a felicidade de ter o dom de cantar, mas éramos dez e tivemos muitas dificuldades. Estudei, fiz até o primeiro ano Normal1, mas não concluí porque fiquei muito aborrecida por não ter passado em português. Quando eu sabia a matéria, o professor não me chamou, eu não passei e por isso hoje não sou uma professora, sou então uma cantora.

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Eu nasci no Rio Grande do Norte, lá em Natal, num lugarejo chamado Pirituba, que tinha assim umas poucas casinhas. Foi ali que eu nasci e com quatro anos eu vim para a capital. Ali estudei no Grupo Escolar Antônio de Sousa, fiz ali o curso elementar. Hoje tudo é diferente, eu também já não sei mais nem falar, confundo tudo. Mas, como já falei antes, fiz até o primeiro ano Normal. Eu me criei no bairro do Tirol, ficava entre Tirol e Petrópolis, na avenida Afonso Pena, nº 517. Vai jogar no bicho? É cachorro, né? Eu sei.

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Minha casa era uma casa de uma porta, tinha uma janela assim bem alta, um batente, aquele degrauzinho que a gente sobe. Tinha muita areia na rua onde eu morava e eu brincava todas as noites ali de joelho nas marcas dos carros que por ali passavam. Brincava de roda, uma porção de brincadeiras, de melancia porque às vezes a barriga tava inchada, melancia tá boa! E várias cantigas de roda, a gente se unia em rodas e cantava muita, muita, muita música bonitinha que hoje até foi gravada comercialmente.

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1 Curso de formação de professores primários.