Foi com a brejeirice e a malícia de Carmem Miranda que a obra imorredoura de Assis Valente se tornou popular, mas nada no repertório desse extraordinário compositor baiano terá sido tão bem interpretado, cantado tão adequadamente como a sensualidade do samba Fez Bobagem na gravação original de Aracy de Almeida. E o que dizer da classe com a qual ela imortalizou os versos malandros de Ari Barroso no irresistível Camisa Amarela?

O compositor mineiro, provavelmente nosso mais fértil e bem-sucedido autor popular, proclamava a gravação desse samba por Aracy como a mais feliz realização fonográfica de toda a sua imensa produção. Esses momentos de primazia configuravam uma constante na carreira da cantora. Os lamentos do pungente Luís Soberano talvez não nos tivessem doído tanto, se não fosse a voz de Aracy a externá-los em Não Me Diga Adeus. E a perenidade da queixa social de Tenha Pena de Mim ("trabalho, não ganho nada, não saio do miserê", denunciavam Babaú e Ciro de Souza em 1938) se deve não apenas a sua vergonhosa atualidade, mas igualmente à maneira como foi formulada pela porta-voz popular.

Não se falou ainda de Noel Rosa, mas falar de Aracy é citá-lo, tal a indissociabilidade da carreira dos dois, afinidade afirmada também nas lides boêmias, em que formavam par freqüente. Aracy, pode-se dizer, lançou a parte mais substancial da criação de Noel, uma cota considerável já com o compositor morto, como é o caso, para citar apenas um, da obra-prima Último Desejo, gravada em 1º de julho de 1937. Noel Rosa morrera a 4 de maio desse ano e o descaso cultural ameaçava condená-lo ao esquecimento quando coube a Aracy de Almeida –a pessoa certa– revivificá-lo para sempre (a partir daí Noel nunca mais precisou ser "redescoberto" ou "resgatado"), com o lançamento, pela gravadora Continental, em setembro de 1950 e março de 1951, numa produção com direito a requintes como capa do pintor Di Cavalcanti, de dois álbuns com uma síntese perfeita da obra noelina.

Consolidava-se ali o básico do compositor, por uma intérprete plenamente autorizada. Voz ligeiramente anasalada, divisão especialíssima, esplêndida –sem qualquer esforço vocal– nos tons mais altos e nas notas longas, Aracy tinha sobretudo bossa e picardia. E mobilidade: era cantora do Carnaval, do samba-canção, da noite, lenda em casas históricas como o Vogue e o Night and Day. Morou 12 anos em São Paulo, mas foi sempre fidelíssima a seu subúrbio carioca do Encantado, onde nasceu (em 19 de agosto de 1914) e morreu (em 20 de junho de 1988).

Concedeu esta entrevista em 1972, ao programa MPB Especial, da TV Cultura, com 58 anos.

Moacyr Andrade
MPB ESPECIAL
2/10/1972

Estamos aqui no tablado
Feito de ouro e de prata
De filó, de náilon
Eles querem salvar as glórias nacionais
As glórias nacionais
Coitados
Ninguém me salva
Ninguém me engana
Eu sou alegre
Eu sou contente
Eu sou cigana
Eu sou terrível
Eu sou o samba
A voz do morto
Os pés do torto
A vez do louco
A paz do mundo
Na glória
Na glória
Na glória
Na glória.
Eu canto com o mundo que roda
Eu e Paulinho da Viola
Viva Paulinho da Viola.
A Voz do Morto
, Caetano Veloso. Copyright by MUSICLAVE.

***

Eu realmente conheço muita gente de morro, mas, por exemplo, nunca gravei uma música
do Paulinho da Viola. Eu conheço, por exemplo, Saturnino, o Cartola, o Casaca, Padeirinho,
e conheço um também que realmente me deu o primeiro sucesso, onde eu me tornei po-pular,
que era um crioulo que se chamava Babaú.

Ai, ai, meu Deus
Tenha pena de mim
Todos vivem muito bem
Só eu que vivo assim
Trabalho, não tenho nada
Não saio do miserê
Ai, ai, meu Deus
Isso é pra lá de sofrer
Ai, ai, meu Deus
Tenha pena de mim
Todos vivem muito bem
Só eu que eu vivo assim
Trabalho, não tenho nada
Não saio do miserê
Ai, ai, meu Deus
Isso é pra lá de sofrer
Sem nunca ter nem conhecer felicidade
Sem um afeto, um carinho ou amizade
Eu vivo tão tristonha
Fingindo-me contente
Tenho feito força pra viver honestamente
Ai, ai, ai, ai, ai, meu Deus.
Tenha Pena de Mim (Ai, Meu Deus)
, Babahu/Cyro de Souza Copyright 1937 by IRMÃOS VITALE S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Todos os direitos autorais reservados para todos os países. ALL RIGHTS RESERVED. INTERNATIONAL COPYRIGHT SECURED.

***

Bom, a minha primeira gravação foi realmente quando eu fui cantar na Rádio Educadora do Brasil, no Rio de Janeiro, levada por Custódio Mesquita. Lá então tive a sorte de encontrar Noel Rosa. Então, Noel Rosa ficou assim gostando muito de mim, travou um conhecimento. Noel Rosa era muito boêmio e me levou então até a Taberna da Glória, onde ele, com outros sambeiros, como se chamava na época, né?, malandro, sambeiros ou sambeiras, então, chegou lá, me ensinou uma música. Disse assim: "Essa música eu fiz aqui pra você agora". Não é uma música de grande qualidade, mas ele teve a boa vontade de fazer essa música pra mim, que se chama Seu Riso de Criança.

Seu riso de criança
Que me enganou
Está num retratinho
Que eu guardo e não dou
Guardei sua aliança
Pra ter a lembrança
Do meu violão, que você empenhou
Canta agora de passagem
Você ouve mas não vê
É a última homenagem
Que eu vou fazer a você
Seu riso de criança
Que me enganou
Está num retratinho
Que eu guardo e não dou
Guardei sua aliança
Pra ter a lembrança
Do meu violão, que você empenhou.

Riso de Criança, Noel Rosa. Copyright by MANGIONE, FILHOS E CIA. LTDA.