São Paulo sempre foi pródiga em excelentes violonistas. Na linhagem do lendário Américo Giacomino, o Canhoto, vieram nomes com os de Aníbal Augusto Sardinha, o Garoto, Paulinho Nogueira, Armandinho, Aymoré e o não menos conhecido e talentoso Antônio Rago. Musical já por ascendência, neto de calabreses e criado no musicalíssimo bairro paulistano do Bexiga, onde guitarras e violões mesclavam-se nas noites de serenatas, cantadas com o sotaque peninsular dos recém-chegados da Itália e de seus filhos e depois netos, o menino Antônio era íntimo de primas e bordões ao entrar na adolescência. Antes dos 15 anos acompanhava "os mais velhos" nas valsas e canções, com tal desenvoltura que em pouco tempo já era aluno de violão clássico.
A vida profissional abriu-se aos 20 anos, quando começou entre os grandes, integrando com seu violão o conjunto regional de outro violonista famoso, o paulista Armandinho, na Rádio Record. Para que se tenha idéia da qualidade do grupo, basta dizer que o terceiro violão era um certo Zezinho, mais tarde conhecido apenas como... Zé Carioca. Aos poucos Rago foi se tornando o acompanhador preferido dos grandes cantores da época, chegando mesmo a escoltá-los ao exterior, como no caso de sua primeira saída do Brasil, ao se apresentar com Arnaldo Pescuma, na Rádio Belgrano de Buenos Aires. Francisco Alves, então o mais popular cantor brasileiro, o escolhe como acompanhador e Rago já tem carreira definida no final da década de 40, até como compositor.
É chamado, então, para dirigir o Regional da Rádio Tupi de São Paulo, assumindo posição pela qual viria a ser conhecido artisticamente por toda a sua carreira. Rago e seu Regional tornaram-se emblemáticos e personalíssimos. Grandes músicos estiveram em suas formações, como o violonista Juci, o cavaquinista Esmeraldino, o acordeonista Orlando Silveira, o clarinetista Siles, entre outros, sempre garantindo qualidade superior ao grupo.
Foi ele quem acompanhou Francisco Alves na última apresentação do cantor, na antevéspera de sua morte, na via Dutra, retornando de São Paulo para o Rio de Janeiro.
Como compositor, sua criação mais famosa é o bolero Jamais te Esquecerei, feito em parceria com Juracy Rago, que se tornou uma espécie de marca registrada musical sua, embora tenha outras obras de sucesso como Duas Lágrimas, Ranchinho da Saudade, Festa Portuguesa e O Barão na Dança, feita em homenagem ao Barão de Itararé, o humorista Aparício Torelli, que, segundo o próprio Rago, apareceu-lhe em sonhos e, dançando, inspirou a melodia.
Arley Pereira
ENSAIO
9/5/1996

(Identificando fotos) Nessa foto temos aí da esquerda, de pé, Iara Lins; depois, sentados: Mário Genari Filho, o acordeonista, né?, Juci do violão, Robertinho, que fazia ritmos para a gente, e eu, o Rago. (Outra) Atrás está o cantor Alfredo Moretti. Sentados: Rago, Zé Carioca e Armandinho. (Mais outra) Agora os de trás: Suti, Joãozinho da Flauta e o Penosa; de bandolim, o Nestor Amaral. A cantora eu não lembro bem, era uma cantora uruguaia, se não me falha a memória, eu esqueci. (Nova foto) Agora, depois vêm: o magrelo lá, o Joel, e o Gaúcho, que formavam a dupla Joel e Gaúcho; depois o Barreto, de violão, e eu na ponta.
Olha eu como era mocinho.
(Mais uma foto) Aqui o Regional da Rádio Tupi: violão, Juci; contrabaixo, o Correa, depois eu de violão, o Zequinha atrás de mim, Esmeraldino do Cavaco e o acordeonista Orlando Silveira. (Mais uma) De afoxezinho, ritmista, o Robertinho; acordeão, Mário Genari Filho; Hebe Camargo e Rago. (Outra) Orlando Silva, violões, o Rago e depois o Juci. (Outra) Aracy de Almeida e Rago. (A última) Essa aqui é Alda Perdigão e o meu regional nos primeiros programas de carnavalescos da televisão, do Canal 3.
[Música instrumental: Jamais te Esquecerei]
Jamais te Esquecerei, Antonio Rago/Juracy Rago. Copyright by BANDEIRANTE EDITORA MUSICAL LTDA. (ADDAF).
Antônio Rago, este é meu nome todo. Nasci em 1916, no dia 2 de julho.
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E o mais interessante é que eu nasci no Bexiga1. Olha que beleza! A minha casa no Bexiga era uma casa comum, casa térrea, duas janelas de frente, um portão de ferro na entrada e um corredor, comprido. E as laterais seriam as portas: a porta da sala, porta de um quarto, porta de outro quarto, varanda. Depois vinha o quintal, descia umas escadas e tinha o quintal, até um quintal grande. Lá vivíamos muito bem, graças a Deus, com meu pai, minha mãe, minhas irmãs, meus irmãos. Ao todo nós éramos em dez, cinco homens e cinco mulheres.
E meu pai e minha mãe, doze. Então era uma família alegre, bonita, modéstia à parte.
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Olha aí, veio uma pergunta aí muito boa, se éramos ricos. Bom, ricos de saúde e não faltava nada, a gente se alimentava bem, tinha boas roupas e coisa. Mas a ser o rico mesmo, não.
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Engraçado, na minha família não tinha músicos. Tinha, sim, professores, uma irmã professora, outro irmão economista e professor também, mas músico não. Depois é que surgiu um na família, exatamente o caçula, o famoso Raguinho. Todo mundo conhece o Raguinho, que

Nota: 1. Nome popular da Bela Vista, bairro da cidade de São Paulo.