Foi certamente a admiração de sua mãe por cinema que a levou a batizar a filha com o nome de Claudette Colbert Soares, evidente homenagem à estrela de Hollywood, em evidência quando a cantora nasceu, no Rio de Janeiro, em 31 de outubro de 1937. Dizer que já cantava desde pequenina é um lugar-comum que a acompanha por toda a vida, pois pequenina é até hoje. Pequenina e talentosa desde seu início no Clube do Guri, na então Rádio Tamoio carioca, passando para o famoso Papel Carbono, de Renato Murce, na Rádio Nacional, responsável pela revelação de tantos valores (Dóris Monteiro, Lúcio Alves, para citar alguns).
Como sói acontecer com artista em começo de carreira, há que seguir modismos e a moda no momento era o baião. Rapidamente foi coroada Princezinha do Baião, depois de gravar seu primeiro disco, um "bolachão" de 78 rpm com os baiões Você Não Sabe e Trabalha Mané. Mas não era por aí e o mundo logo veria. Caiu no bar do Hotel Plaza (onde nasceu a bossa nova) e, atuando como crooner, enturmou-se com Durval Ferreira, Maurício Einhorn, Eumir Deodato, Johnny Alf, enfim, a patota que iniciava o movimento e definiu em sua vida a linha da carreira artística.
Trocando o Rio de Janeiro por São Paulo, transformou-se na musa da bossa, soltando a voz nos templos paulistas, que respondiam por nomes como A Baiúca; João Sebastião Bar; Ela, Cravo e Canela, por aí. Hora de gravar seu primeiro disco solo (1964), que virou prova de sua modernidade, pois até hoje é atualíssimo. Em Claudette É Dona da Bossa, pelo selo pernambucano Mocambo, gravou coisas como Garota de Ipanema (Tom/Vinícius) e Tristeza de Nós Dois (Maurício Einhorn/Bebeto/Durval Ferreira). No segundo disco, ainda pela Mocambo, ratificou o bom gosto e o bom ouvido, lançando na discografia talentos como os maestros Severino Filho, Erlon Chaves e Zezinho (José Antônio Alves), além de certo pianista chamado César Camargo Mariano. Daí para a frente cumpre uma carreira plena de sucessos e bom gosto, interpretando os maiores e melhores compositores brasileiros da segunda metade do século XX, de Chico Buarque a Vinícius de Moraes, de Gilberto Gil a Roberto Carlos, de Carlos Lyra a Taiguara. Carreira que se desenvolveu em grandes musicais, em pequenos palcos noturnos, em estúdios de gravação, em rádio, televisão, discos. Conforme ela conta (e canta) com muita propriedade e graça, como, aliás, sempre foi de seu pequenino feitio, neste programa, mais um do mapeamento da MPB que as câmeras de Fernando Faro fizeram (e fazem) ao longo das últimas décadas.
Arley Pereira
ENSAIO
28/1/1992

1964. Eu estava cantando numa boate aqui em São Paulo, a Toalha de Mesa, de propriedade do nosso querido Alfredo Borba, juntamente com Walter Wanderlei ao piano. E Marcos Valle e Paulo Sérgio Valle estavam terminando de fazer essa música e deram, assim, de presente pra mim. A gente, a partir daquela noite, lançou essa música pra todo o Brasil. Que era mais ou menos isso.
Ah, se eu te pudesse fazer entender
Sem teu amor eu não posso viver
Que sem nós dois
O que resta sou eu
Eu assim tão só
E eu preciso aprender a ser só
Poder dormir sem sentir teu amor
E ver que foi só um sonho e passou
Ah, o amor
Quando é demais
Ao findar, leva a paz
Me entreguei sem pensar
Que a saudade existe
Se vem é tão triste
Vê, meus olhos choram a falta dos teus
Estes teus olhos que foram tão meus
Por Deus entenda que assim eu não vivo
Eu morro pensando no nosso amor.

Preciso Aprender a Ser Só, Marcos Valle/Paulo Sérgio Valle. Copyright by EDIÇÕES MUSICAIS TAPAJÓS LTDA.
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É, eu gravei. Eu fui uma das primeiras. Mas eu com as gravadoras estamos sempre em desencontros e esse disco saiu tão tarde que eu deixei de ter o primeiro lugar, né?... em lançamento.
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Eu nasci no Rio de Janeiro, no bairro de Laranjeiras, fluminense de coração (riso) e me criei em Copacabana.
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Sim, eles estão vivinhos. Até eles voltaram agora a me assistir, depois de uma longa ausência. Meu pai Durval e minha mãe Djanira vivinhos aí. Oitenta e tantos pela frente.
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Olha, a lembrança não é muito boa não, porque eu queria cantar com nove anos de idade no programa do Renato Murce, chamado Arraia Miúda, antes do Programa do Guri1, que depois eu vim fazer parte. Eu tinha sido levada por uma amiga, porque meu tio Antenor foi um grande cantor e canta até hoje com Carlos José e várias pessoas, é um seresteiro. Mas o Orlando Silva ficou com tanto ciúme dele, porque ele cantava tão bem, que puxaram o tapete do meu tio. Então ele hoje canta só por prazer. Então é aquela coisa de família mesmo. Minha mãe também fez teatro amador, atriz, é, coisa maravilhosa. Mas minha mãe não queria mesmo que eu seguisse. Então eu estava no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, e pedi ao Regional do Dante Santoro que deixasse eu cantar, porque meu tio conhecia o Dante Santoro. E dez anos de idade, minha mãe me procurando feito uma louca, no intervalo desse programa, do Arraia Miúda, onde ele apresentava cantores. Aliás, foi onde foi lançado também o Agnaldo Rayol, Ellen de Lima, uma porção de artistas da época, Wilson das Neves, uma turma ótima. E a minha mãe louca, desesperada, procurando assim com o Juizado de Menores pela filha dela que estava sumida. E levei uma tremenda bofetada porque eu apareci cantando, logo em seguida, depois que a cortina abriu, cantando uma música de Emilinha Borba. Eu ganhei a bofetada pelo terror que ela ficou, pensando que eu tinha sido seqüestrada, já naquela época, né?, e que tinha acontecido alguma coisa comigo muito séria. Depois ela gostou, é claro. Mas a minha avó é que é a grande responsável, porque me levava aos programas.
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Ah, eu me lembro. É mais ou menos assim:
Um dia, uma vez lá em Cuba
Dançando uma rumba
Disseram que eu era
Escandalosa
2
Porque eu era viva, né?, porque Emilinha Borba tinha um pique total de popularidade. A Marlene era ótima também, mas a Emilinha é que tinha a "tchurma" melhor, assim de mais público. Então eu muito viva comecei a cantar músicas do repertório de Emilinha Borba.
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É, foi uma coisa assim... Foi amor à primeira vista mesmo, porque... eu sempre fui muito boêmia. Eu cantava, comecei a cantar, gravei na Colúmbia e Fernando César, uma pessoa que estava assim muito famosa na época, ele tinha grandes sucessos e eu fui pra Colúmbia e gravei algumas coisas dele, como O Velho Gagá, uma coisa que estava muito em moda, que era a Colombo3.

Notas:
1. Refere-se ao programa Clube do Guri, na Rádio Tamoio do Rio de Janeiro.
2. Escandalosa, rumba de Moacir Silva e Djalma Esteves gravada em 1947 por Emilinha Borba.
Aracy de Almeida também a gravou, mas sem o mesmo sucesso.
3. A famosa Confeitaria Colombo, localizada no centro do Rio de Janeiro.