Mineiro de Paraibuna, filho de um mestre de banda, Claudionor José da Cruz (1910-1995) foi um dos ases do regional brasileiro disputando com outro líder, o flautista Benedito Lacerda, a hegemonia do setor de acompanhamento nas principais emissoras de rádio do país, especialmente nas décadas de 40 e 50. Entre os ases que atuaram em seu conjunto estão os violonistas Bola Sete e Arlindo Ferreira, o clarinetista Abel Ferreira e Jair do Pandeiro. O instrumento que o notabilizou foi o violão tenor de quatro cordas, menor que um violão comum, de timbre pouco usual, adotado depois que ele passou pelo cavaquinho e pela bateria.
Pilotando este último numa casa de víspora (o atual bingo) no início da década de 30, Claudionor conheceu o principal parceiro, o paulista de Bananal, Pedro (Walde) Caetano (1911-1992). Foi apresentado a ele depois de ter acompanhado nas baquetas o primeiro sucesso individual de Pedro, o samba choro Juramento Falso ("Foi uma pedra que rolou").
A primeira gravação da dupla, Tocador de Violão foi feita por Augusto Calheiros, o Patativa do Norte, em 1934. Juntos, eles compuseram as valsas Caprichos do Destino (1938), sucesso na voz de Orlando Silva, Duas Vidas (1943) e a marcha Eu Brinco (Com Pandeiro ou sem Pandeiro), Haja Carnaval ou Não, ambas por Francisco Alves (uma em 1944, outra em 1945), a Marcha dos Carpinteiros (Anjos do Inferno), os choros A Felicidade Perdeu seu Endereço (1940), Levei um Bolo (gravação de Almirante), os sambas Disse me Disse e Há Mais de uma Semana (por Carlos Galhardo), o samba-canção Falta-me Alguém, além de seus congêneres modernistas Tormento e Nova Ilusão (este inspirado na melodia de Da Cor do Pecado, de Bororó), os dois últimos gravados por Lúcio Alves no começo dos 50.
Outro parceiro importante de Claudionor Cruz foi Ataulfo Alves com quem ele fez Errei e o clássico Sei que É Covardia, de 1939. Conta Pedro Caetano que ele seria o autor da segunda parte desse samba confiado ao cantor Carlos Galhardo, mas, quando foi procurá-lo, Ataulfo tinha passado na frente e entregue o samba pronto. Claudionor também compôs com André Filho, Wilson Batista, Dunga e Portinho e participou de shows e gravações com ídolos do rádio como as irmãs Dircinha e Linda Batista, Ângela Maria, Aracy de Almeida, Isaura Garcia, Gilberto Alves, João Petra de Barros e Deo. Arranjador, maestro e professor de música, Claudionor Cruz é ainda um chorão emérito, autor de composições do calibre de Este Choro É meu Pranto (com Pedro Caetano) e mais as individuais Preto Velho, Caçula, Isto É Muito Bom, Potiguar, Arranca Toco, Cidinha no Choro e outras. Depois de 36 anos à frente do regional, com o qual atuou nas rádios Tupi, Nacional, Globo, Mundial, ele ainda teve de trabalhar no cais do porto e acumular outras profissões como vendedor de livros até ser redescoberto pela geração que revalorizou o choro em meados dos anos 70.
Tárik de Souza
ENSAIO
21/1/1992

Com pandeiro ou sem pandeiro
Eh, eh, eh, eh, eu brinco
Com dinheiro ou sem dinheiro
Eh, eh, eh, eh, eu brinco
Com pandeiro ou sem pandeiro
Eh, eh, eh, eh, eu brinco
Com dinheiro ou sem dinheiro
Eh, eh, eh, eh, eu brinco
No céu a lua caminha
Tão triste, sozinha
Se meu dinheiro acabar
Com pandeiro ou sem pandeiro
Meu amor, eu brinco
Com pandeiro ou sem pandeiro
Eh, eh, eh, eh, eu brinco
(Ai, meu Deus!)
Com dinheiro ou sem dinheiro
Eh, eh, eh, eh, eu brinco
Com pandeiro ou sem pandeiro
Eh, eh, eh, eh, eu brinco
Com dinheiro ou sem dinheiro
Eh, eh, eh, eh, eu brinco
Tudo se acaba na vida
Morena querida
Se meu dinheiro acabar
Com pandeiro ou sem pandeiro
Meu amor, eu brinco
Com pandeiro ou sem pandeiro
Meu amor, eu brinco
Com pandeiro ou sem pandeiro
Meu amor, eu brinco

Eu Brinco, Pedro Caetano/Claudionor Cruz. Copyright 1943 by IRMÃOS VITALE S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Todos os direitos autorais reservados para todos os países. ALL RIGHTS RESERVED. INTERNATIONAL COPYRIGHT SECURED.
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Quem gravou essa música foi o Francisco Alves. Era 1941, 42 ou até em 431, porque você sabe que vão passando os anos e a gente não sabe.
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Francisco Alves era um homem sistemático, um valor que era uma coisa maravilhosa, mas os acompanhadores dele ele queria ver quem era. Então, modéstia à parte, eu e Pereira Filho acompanhamos muito tempo ele, até a morte. Se fizesse um acorde ou um baixo trocado, ele brigava. Eu, Dalva2 e ele, em Vitória, eu acompanhando, mas a letra caiu, aí ele disse: "Oh, Claudionor, você errou aí nessa coisa". Eu digo: "Não, não errei. Nós estamos ficando velhos e a letra caiu". Eu não tinha nada com isso, porque tinha seis mil pessoas lá dentro e não podia ter erro.
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Como é que disse? Não, ultimamente ele já não decorava mais as letras, queria a estante na frente. Mas era um cantor que quando cantava era um silêncio, uma maravilha, a coisa mais linda do mundo.
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Dava sim, palpites dava demais, queria ver o acompanhamento. Diversas vezes eu entreguei o violão a ele: "Tenha a bondade então". Ele dizia: "Não, eu não sei". A gente às vezes tem que falar porque a gente estuda também. Aí ele: "Não, não, esse baixo aí eu não gosto". Então aí fizemos outro. Mas era bom camarada ele.
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Como é? Vinte e cinco para vinte e seis anos com o regional do Rio de Janeiro, que tinha o Benedito Lacerda, que era muito bom, mas tinha eu que era, modéstia à parte, eles falavam que era moderno, era uma maravilha e tudo que era gravação era nossa, tudo que era cinemas e teatros tudo era nós.
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Quem fazia parte? Eu como chefe, Abel clarineta, Abílio Ferreira clarineta, Bola Sete no segundo violão, Arlindo, que hoje chamam de Arlindo Cachimbo, no primeiro violão, e Pernambuco no pandeiro. Era um regional que eles hoje são tudo astros.
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Hum? Nós começamos na Tupi, nós tocava [sic] no Circo Dudu, ali na praça da Bandeira. Mas depois começou a melhorar e me chamaram para a Rádio Tupi. Aí lá era o Almirante que era o chefe e o sr. Brotera, isso era tudo os chefes. Então me chamou e eu levei o regional lá, trabalhamos, nada nada para 17 pra 18 anos. Depois fomos chamados para a Rádio Globo, que era na avenida. Aí fomos pra Rádio Globo, pagando mais um bocadinho, a gente vivia disso, fomos embora pra lá. Mas tudo carteira assinada, tudo uma beleza. E de lá nós fazia tudo então, até televisão a gente que fazia.
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O regime de trabalho era uma coisa muito séria, que hoje eu, com 81 anos, fico até apavorado. Porque eu chego aqui, por exemplo, o Regional do Evandro é uma beleza, estão trabalhando, são honestos no seu trabalho, vivem disso. Agora antigamente era assim: quando nós íamos para a televisão, vinha o contra-regra ver até as meias. Era sapato de verniz, calça de smoking, era o summer e o smoking. Mas se estivesse de meia clara com sapato de verniz tinha que sair fora, não tocava. E nós tínhamos também um código, que a gente fazíamos entre nós, que aquele que errasse pagava uma caixa de cerveja.
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Coca-Cola parece que não tinha. Sei que era de cerveja e pagava mesmo, tinha que pagar porque era descontado. Então ninguém errava. (ri)
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Paulo Tapajós foi o produtor e cantor também, ele cantava muito bonitinho. Hoje eu não posso falar de ninguém, eles eram formidáveis. Respeito em primeiro lugar, porque todo mundo que ia lá era competente, não tinha ninguém para estar aprendendo nem nada, todo mundo sabia. Depois que se convencionasse, a gente tinha que trabalhar. Eles chegavam e diziam: "Tá tudo certo?" Digo: "Tudo certo".
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Conheci o Haroldo3 muito. Haroldo ainda está por lá. É irmão dele, eram os dois cantores, cantava ele e o Haroldo.
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Gravei mais com Orlando Silva, só gravava com o Orlando. Orlando, quando chegava com o violão lá na rádio, ele piscava os olhos pra mim pra não mostrar a música, mostrar na casa dele, lá na praça da Bandeira. Aí eu mostrava lá, não deixava ver. Mas tinha outros cantores que eu adorava, tinha a Dircinha Batista, que eu adorava. Então, antes de mostrar ao Orlando, eu ia lá na casa da Dircinha. E a Dircinha era uma beleza de cantora. E mais Linda...4. Gravei com todo mundo, não tem um cantor do Brasil que eu não gravasse.

Notas:
1. Claudionor errou por um ano. Foi sucesso no carnaval de 1944.
2. Dalva de Oliveira, a cantora.
3. Haroldo Tapajós, também cantor e irmão de Paulo Tapajós.
4. Linda Batista, cantora e irmã de Dircinha.