Alagoano de Lagoa da Canoa, Arapiraca, nascido em 1936, Hermeto Pascoal aprendeu em uma sanfona de oito baixos (a famosa "pé-de-bode"). Ao deparar com uma de 32 baixos, descobriu as infinitas possibilidades dos teclados e mais adiante de todos os instrumentos que lhe caíam às mãos. Passou daí para a noção de que todo som é música e incorporou tanto objetos como panelas e garrafas quanto animais (incluindo porcos, na concorrente Sereiarei na voz de Alaíde Costa em um tumultuado Festival da Canção) e daí para encenações narrativas e interpretações do som da aura de cada pessoa, além da composição monumental de um calendário sonoro com uma música para cada dia do ano.
Mas foi bem convencional o início da carreira deste criador caudaloso, reconhecido em todo o mundo e pilhado na autoria de duas músicas pelo trompetista de jazz Miles Davis (Igrejinha, Nem um Talvez) - uma forma sub-reptícia de admiração. Começou ao lado do irmão José Neto, com quem trabalhou em emissoras de rádio do Recife e mais adiante na Rádio Mauá do Rio, no Regional de Pernambuco do Pandeiro. Tocou ainda com Fafá Lemos e Copinha antes de mudar-se para São Paulo, onde fez o circuito das boates já como pianista e flautista, ingressando na ala paulistana da bossa nova em grupos como Som Quatro e o Sambrasa Trio, com Airto Moreira na bateria. Ao lado do mesmo Airto, já na percussão, Theo de Barros (violão) e Heraldo do Monte (viola), integrou o efêmero mas influente Quarteto Novo, que gravou um único disco, em 1966, e acompanhou Geraldo Vandré em sua disparada pelos festivais. No começo dos 70, gravou nos EUA com Airto Moreira e Miles Davis, além de perpetrar sua estréia solo no comando de 35 músicos de jazz e muitas garrafas sopradas como flautas.
Nascia o conceito A Música Livre de Hermeto Pascoal, título de seu primeiro LP (lançando seu clássico Bebê), gravado aqui em 1973, que definiria um caminho instrumental à parte dentro da MPB. Gravou também outros títulos marcantes como Slave Mass (1977), Zabumbê-bum-á (1979), Cérebro Magnético (1980), Hermeto Pascoal & Grupo (1982), Lagoa da Canoa, Município de Arapiraca (1984), Brasil Universo (1985), Só Não Toca Quem Não Quer (1987), Por Diferentes Caminhos (1988), Festa dos Deuses (1992), Eu e Eles (1999). Além disso, registrou em dois discos sua passagem pelo festival de jazz da cidade suíça de Montreux (um entre inúmeros de que participou mundo a dentro), um deles ao lado da cantora Elis Regina, em 1979. Ultrapassando os limites da música popular, Hermeto escreveu peças para orquestra sinfônica como Berlim e sua Gente durante o festival Horizonte, em 1982, e a Suíte Pixitotinha, executada pela orquestra da rádio de Copenhague, na Dinamarca. Em 1994, uniu seu grupo a uma big band de jazz britânico em um projeto que percorreu diversas cidades da Inglaterra e País de Gales. Autor exímio de choros nem sempre ortodoxos (Chorinho pra Ele, Ginga Carioca, Mestre Radamés, Salve Copinha, Chorinho MEC) e dos mais variados formatos da música nordestina (Forró em Santo André, De Sábado para Dominguinhos, Arrasta-pé Alagoano), além de composições abstratas fruto de improvisos ensaiados exaustivamente ou que incorporam gêneros diversos, Hermeto Pascoal merece como ninguém o apelido de bruxo. Tudo que ele toca literalmente vira música.
Tárik de Souza
ENSAIO
19/12/1990

O gaio da roseira
O gaio da roseira
O gaio da roseira
Bela menina
O gaio da roseira,
O gaio da roseira, oi
O gaio da roseira
Ô fio da peste
O gaio da roseira
Bela menina
O gaio da roseira, oi
O gaio da roseira, oi oi oi
O gaio da limeira
O gaio da laranja
O gaio da goiabeira, oi, oi
Bela menina
O gaio da roseira
Esta música foi feita na roça
O meu pai e minha mãe fizeram com muita bossa
Naquele tempo também era bossa nova
E hoje eles estão aí cantando
A minha mãe Virgilina Helena de Oliveira está vivinha pra danar
Está lá no Rio de Janeiro e está a me esperar
O gaio da roseira, oi
O gaio da roseira, oi
O gaio da roseira
Bela menina
O gaio da roseira, oi
O gaio da roseira
O gaio da roseira
O gaio da roseira
O Galho da Roseira
, Hermeto Pascoal. DIRETO.
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Lagoa da Canoa. Eu sou de lá, Lagoa da Canoa, antigamente município de Arapiraca, mas continua sendo filha de Arapiraca, porque nós íamos pra lá fazer feira, se pegava o caminhão na calçada da igreja, aquela calçada alta, que continua hoje. A igreja é do mesmo jeitinho, do mesmo jeitinho a igreja, bonitinha. Até eu tinha um órgão em casa, um órgão de pedal, de pedaleira, um pequenininho assim. Mandei pra lá pro pessoal pra juntar e começar a tocar também todo mundo junto na igreja lá de Lagoa da Canoa. Então eu nasci em Lagoa da Canoa, antigo município de Arapiraca. Hoje, porém, Lagoa da Canoa tem avenida com o nome de Hermeto. É demais, não? Avenidas e os colégios. Eu fui visitar. Só que o vice-prefeito lá me levou, aí ele se esqueceu, ficou tão emocionado, começou a me levar na casa das pessoas do meu tempo, que queriam me conhecer, me conhecer não, me rever novamente, né? A gente ficava conversando e tinha o desfile que os colégios iam fazer em minha homenagem, com o nome na placa Hermeto Pascoal. E eu não fui, o cara esqueceu de me levar e eu fiquei conversando lá o tempo todinho (risos). E as meninas foram pra lá pra ver o Hermeto e ninguém viu o Hermeto, ninguém me conhecia, as meninas na base de 16 anos, 13 anos, 14 anos de idade não me conheciam, não. Mas depois eu fui nas escolas, na hora das aulas, eu fui lá cumprimentar todos e pedir desculpa pelo vice-prefeito, que não me levou. Ele presente, que ele é um cara legal, também é músico, só podia ser músico, né? Então não me levou lá, mas foi linda a avenida no meu nome, está tudo bonito em Lagoa da Canoa, hoje é uma cidade, né? Filha de Arapiraca, é uma cidade que eu amo muito e fica ali pertinho de Propriá, Sergipe, Propriá, é tudo pertinho, Palmeira dos Índios. Então fui criado ali no meio. Então, gente, aproveitando o negócio, olha, vamos tomar cuidado com esse negócio sabe de..., essa coisa de querer lançar ecologia como moda, sabe? Ecologia já faz parte da coisa de cada um, é natureza de cada um, ecologia não é moda. Então vamos acabar com isso, hein. Ecologia é uma parte do nosso corpo, né?, que vem com a inspiração das nossas mentes e da nossa alma, gente. É coisa linda, é a comida da aura.
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Ah! O Reisado. O Reisado é demais, porque tem o Mateo, tem o boi. A hora mais importante do Reisado é justamente a hora das saídas, porque depois a gente assiste uma coisa teatral, todo mundo assim. Eu me lembro que ajudei muito, porque eu sempre fui muito curioso, eu ia ajudar a fazer as fantasias. Então elas faziam com as estrelinhas, aquela coisa toda, aqueles ornamentos, muito bem cuidados, com muito carinho. Sabe como é? Só que depois eu tinha medo, eu via o boi que eu estava ajudando a fazer eu mesmo, como criança, tinha medo dele. Ele botava os cabras pra correr, muito bravo o boi. Mas era uma coisa linda a hora do boi e a hora que o Mateo dizia assim... O Mateo passava na rua assim chamando, que estava perto já da hora, e aí o Mateo dizia assim um negócio sobre um passarinho (cantando): "Passarinho verde do lagamar, o zoinho dele nos faz chorar". Quer dizer, naquela hora ele não era violento, não né? Aí eu fazia:
Passarinho verde do lagamar
O zoinho dele
(Por causa da harmonia foi que eu esqueci)
Me faz chorar
Passarinho verde do lagamar
O zoinho dele me faz chorar
Passarinho verde do lagamar
O zoinho dele me faz chorar.
Passarinho Verde
, Hermeto Pascoal/Divina. DIRETO.
Quer dizer, de uma frase dessa a gente desenvolve uma coisa, infinidade de coisas, de idéias harmônicas, de idéias melódicas também. É mais ou menos como o Gaio da Roseira, que é isso, só é essa frase mas que a gente multiplica e daí vai para a frente.
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O Lampião é o seguinte: é aquela coisa. O cara não pode matar ninguém, não deve fazer nada ruim, porque depois qualquer coisa que acontece o cara é culpado. O Lampião era um cara, sabe?, isso meu pai me falou muito. Eu, como criança, ainda alcancei mesmo assim. Eu nunca vi o Lampião na minha frente porque tinha medo, mas teria oportunidade se eu não tivesse medo, né? Mas o Lampião era um cara justiceiro. Não era aquele de fazer justiça, a justiça com as próprias mãos, era de fazer justiça com a própria justiça. E daí ele ia também em lojas, que a gente chamava de bodega, que vendia negócio de fazenda. Fazenda, minha gente, é tecido. Iam vender fazenda, tecido. O que ele fazia? Abria as lojas todinhas da cidade, tirava tudo e dava pro povo. Pô, então tá certo. Se ninguém queria nem vender, nem dar, nem fazer nada, porque o povo realmente também não tinha dinheiro, o Lampião estava mais certo. E agora estão começando a imitar o Lampião, então todo mundo está imitando o Lampião. Eu acho que está certo mesmo, quem tem mais tem que dar mais. O mundo é esse. A inspiração veio de criança. Eu vou contar depressa uma coisa. A minha mãe, né?, porque todo mundo escutava o Lampião como um lobisomem. Lobisomem todo mundo sabe o que é: é um cara que papa-figo, tudo negócio pra fazer medo às crianças. A minha mãe tinha o Lampião com o maior medo. Aí disseram: "O Lampião vai passar em Lagoa da Canoa, o Lampião vai passar". Sabe o que ela fez? Pegou eu e meu irmão, o José Neto, que também é pianista e albino como eu, branquinho. A gente era bonitinho, eu usava esses cabelos compridos que estou usando, esses compridos quando eu era criança minha mãe me deixava, ela me vestia de chambre. Chambre é uma roupa comprida, uma camisola, gente. Eu usava chambre, com o cabelozinho comprido, bonitinho que só uma boneca. Agora sou mais ainda, naquele tempo eu era lindo e agora sou um santo.