Pertencente a uma dinastia fundadora do samba, Nilton Delfino Marçal (1930-1994) é filho de Armando Vieira Marçal (1902-1947) da célebre dupla com Bide (Alcebíades Maia Barcelos, 1902-1975), autora do grande clássico Agora É Cinza e mais Barão das Cabrochas, A Primeira Vez, Que Bate Fundo É Esse, Violão Amigo, Não Diga a Ela Minha Residência, Quem Vem Lá É o Velho Estácio, Meu Primeiro Amor e Sorri, entre outras. Aos sete anos de idade, já tocava tamborim na Escola de Samba Recreio de Ramos, matriz da atual Imperatriz Leopoldinense. No mesmo ano ganhou uma cuíca feita por seu pai, fundador da escola, lustrador profissional e ritmista exímio. O filho seguiu-lhe os passos (dominava pandeiro, ganzá, tamborim, caixa, cuíca, chocalho, surdo, agogô) e também o neto, Marçalzinho, que integrou a banda de estrelas como Gal Costa, Caetano Veloso e gravou com os americanos Paul Simon e Pat Metheny.
Marçal comandou a bateria da Escola de Samba Portela de 1967 a 1986 depois de ter sido levado por Mano Décio da Viola para o Império Serrano, onde introduziu o tímpano nas baterias na década de 60. Saiu da azul-e-branco expulso pelo bicheiro e cartola Carlinhos Maracanã e alistou-se na Unidos da Tijuca. Sua maestria no ritmo seria consagrada nos estúdios em que gravou com os maiores ases da MPB e acabou músico fixo da banda de Chico Buarque a partir de 1988. Outra carreira que desenvolveu foi a de cantor de voz bonita e bem colocada, iniciada quase anonimamente na década de 40, em casas dos subúrbios cariocas como a Palestrina (em Parada de Lucas), Líder (Olaria), Centrinho (Cordovil), Fogão (Engenho de Dentro), Danúbio (Irajá), Cachopa (Estrada da Portela), além do Clube da Imprensa Nacional, na praça Mauá. Em 1974, registrou um compacto duplo que incluía Nem Eu, da dupla formada pelo pai e por Bide, e com o grupo Baluartes gravou Nira Congo, discos que não tiveram repercussão.
Mas em 1979 viria a redenção e o verdadeiro começo da carreira de intérprete. Numa homenagem ao pai e seu parceiro, gravou o LP Marçal Interpreta Bide Marçal, promovendo um inventário do legado dos autores de Agora É Cinza, um dos sambas mais regravados da história. No coro do disco reuniram-se em estúdio alguns dos inúmeros cantores que Marçal acompanhou como ritmista: Milton Nascimento, Chico Buarque, Clara Nunes, Martinho da Vila, Elton Medeiros, Gonzaguinha, Dona Ivone Lara, Roberto Ribeiro, Paulinho da Viola, João Nogueira, Cristina Buarque e Miúcha. A este disco seguiriam Recompensa (1985), Senti Firmeza (1986), A Incrível Bateria de Mestre Marçal, Sem Tamborim Não Vou (ambos de 1987), Entre Amigos (1990) e Sambas Enredo de Todos os Tempos (1993). Ex-integrante da orquestra da Rádio Nacional (por 25 anos) e da gravadora Odeon (oito), Marçal honrou o espontâneo título de mestre que recebeu em todas as áreas de atuação. A dupla autoral formada pelo baterista Wilson das Neves e o poeta Paulo César Pinheiro o homenageou num samba com seu nome, gravado no CD O Som Sagrado de Wilson das Neves, reunindo algumas de suas famosas tiradas: "Moro em cima do sapato / vou levando o corpo / do jeito que eu posso / [...] quero mais é que o mundo / se acabe em barranco, que é para eu morrer escorado".
Tárik de Souza
ENSAIO
9/3/1991

Você partiu
Saudade me deixou
Eu chorei
O nosso amor foi uma chama
Que o sopro do passado desfaz
Agora é cinza
Tudo acabado e nada mais
Você partiu
Saudade me deixou
Eu chorei
O nosso amor foi uma chama
Que o sopro do passado desfaz
Agora é cinza
Tudo acabado e nada mais
Você partiu de madrugada
Não me disse nada
Isso não se faz
Me deixou cheio de saudade e paixão
Não me conformo com a sua ingratidão
Você partiu
Saudade me deixou
Eu chorei
O nosso amor foi uma chama
Que o sopro do passado desfaz
Agora é cinza
Tudo acabado e nada mais
Tudo acabado e nada mais.
Agora É Cinza,
Bide/Marçal. Copyright 1933 by IRMÃOS VITALE S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Todos os direitos autorais reservados para todos os países. ALL RIGHTS RESERVED. INTERNATIONAL COPYRIGHT SECURED.
Essa música é da dupla Alcebíades Barcelos e Armando Vieira Marçal. Armando Vieira Marçal era meu pai.
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Meu pai era um crioulo de dois metros de altura. É, no duro, parece mentira, mas eram dois metros de altura, no duro. Crioulo boa praça, calmo, falava muito pouco e em junho de 47 o "coroa" foi embora.
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Ele estava no escritório da RCA Victor, foi receber direito autoral, e lá estavam com ele Ciro Monteiro, Ataulfo Alves e Carlos Galhardo1. E diz que ele deu um sorriso e caiu no sofá. E o pessoal pensando que ele tava brincando, porque era muito brincalhão, e ele não mais retornando, aí foram ver e o velho já tinha partido, já tinha ido embora.
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Vamos:
Meu primeiro amor
Vem ouvir meus ais
São lamentos d'alma
Que em agonia se desfaz
Minh'alma não suporta tanta dor
Tenha pena de mim
Oh, meu primeiro amor
Meu primeiro amor
Vem ouvir meus ais
São lamentos d'alma
Que em agonia se desfaz
Minh'alma não suporta tanta dor
Tenha pena de mim
Oh, meu primeiro amor
Eu sofro por te querer
Não tens pena de mim
Amar sem ser amado
É bem triste viver assim
Meu primeiro amor
Vem ouvir meus ais
São lamentos d'alma
Que em agonia se desfaz
Minh'alma não suporta tanta dor
Tenha pena de mim
Oh, meu primeiro amor
Tenha pena de mim
Oh, meu primeiro amor.
Meu Primeiro Amor
, Bide/Marçal. Copyright 1979 by IRMÃOS VITALE S/A INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Todos os direitos autorais reservados para todos os países. ALL RIGHTS RESERVED. INTERNATIONAL COPYRIGHT SECURED.
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Olha, eu andei tomando uns cascudo do "coroa", que foram bem dados. Porque... eu não era de apanhar. Não apanhei muito não, mas eu me lembro de uma ocasião: o "coroa" me deu um dinheiro pra mim pagar a mensalidade da escola e eu saí com o dinheiro pra pagar a mensalidade. Cheguei na rua das Missões e vinha descendo um "broco", eu não tinha nada na mão, entrei na casa de instrumento, comprei um pandeiro e entrei no "broco", me "desengomei". Mas alguém me cagüetou. Cheguei em casa, ele disse: "Escuta aqui, você foi à escola?" Eu digo: "Fui". "Você pagou a escola?" Digo: "Paguei". "Cadê o recibo?" Eu digo: "Perdi" (ri). Aí o bicho pegou, alguém tinha me cagüetado enquanto eu tava no "broco". Não tinha nada na rua, tô vendo a rapaziada ciscá no tapete, eu comprei um pandeiro e fui à luta também. Depois, se apanhei mais uma ou duas vezes, foi muito. O "coroa" não era muito de... Meu pai foi um amigo.
A primeira vez que te encontrei
Alimentei a ilusão de ser feliz
Eu era triste e sorri
Peguei no pinho e cantei
Muitos versos eu fiz
Em meu peito guardei
Um dia você partiu
Meu pinho emudeceu
E a minha voz na garganta morreu
A primeira vez que eu te encontrei
Alimentei a ilusão de ser feliz
Eu era triste e sorri
Peguei no pinho e cantei
Muitos versos eu fiz
Em meu peito guardei
Um dia você partiu
Meu pinho emudeceu
E a minha voz na garganta morreu
Procuro esquecer a dor
Não sou capaz
Meu violão não toca mais
Eu vivo triste a meditar
Não canto mais
Meu consolo é chorar
A primeira vez que eu te encontrei
Alimentei a ilusão de ser feliz
Eu era triste e sorri
Peguei no pinho e cantei
Muitos versos eu fiz
Em meu peito guardei
Um dia você partiu
Meu pinho emudeceu
E a minha voz na garganta morreu
Procuro esquecer a dor
Não sou capaz
Meu violão não toca mais
Eu vivo triste a meditar
Não canto mais, não
Meu consolo é chorar
A primeira vez que eu te encontrei
Alimentei a ilusão de ser feliz
Eu era triste e sorri
Peguei no pinho e cantei
Muitos versos eu fiz
Em meu peito guardei
Um dia você partiu
Meu pinho emudeceu
E a minha voz na garganta morreu
E a minha voz na garganta morreu.
A Primeira Vez
, Bide/Marçal. Copyright by ADDAF.

Nota:
1. Cantores da época.