Filha do oceânico Dorival, a cantora Nana Caymmi conseguiu um lugar ao som à parte da frondosa sombra paterna como a mais intensa intérprete da canção romântica brasileira moderna. Nascida Dinahir Tostes Caymmi no Rio em 1941, ela iniciou a carreira gravando o clássico instantâneo Acalanto com o pai, em 1961. Morou na Venezuela, onde se casou e teve filhos, e voltou em 65 para gravar o disco de estréia que levava seu nome, no selo Elenco. No ano seguinte, defendeu debaixo de estrondosas vaias a canção Saveiros (do irmão Dori Caymmi e Nelson Motta), primeira classificada no Festival Internacional da Canção. Bisou os apupos no ano seguinte no Festival da TV Record, defendendo sua parceria com o então marido Gilberto Gil, Bom Dia.
Gravou com o pai e os irmãos Dori e Danilo o clássico LP Caymmi Visita Tom. Mas nenhum desses discos fez sucesso e ela se viu sem espaço para mostrar sua música no país.
Excursionando pela Argentina com Dori, foi convidada a gravar no selo Trova em 1973. O disco foi lançado em toda a América Latina, exceto no Brasil, onde a execução no rádio de algumas faixas finalmente resultou em novo contrato para gravar aqui, na pequena CID, pela qual lançou os títulos Nana Caymmi (troféu Villa-Lobos) e Renascer. A despeito de não atingir as paradas de sucesso, tais registros começaram a delinear o público pequeno mas influente da cantora. Ela participou dos projetos Pixinguinha e Seis e Meia com Ivan Lins e logo estaria sob contrato das multinacionais RCA (atual BMG), na qual gravou mais um disco chamado Nana, em 1977, e Odeon (atual EMI), dona da maior parte de sua discografia.
Admiradora de Elizeth Cardoso, Dóris Monteiro, Ângela Maria, Carmem Costa e também de Frank Sinatra e da cantora lírica Renata Tebaldi situando o próprio timbre entre contralto e mezzo soprano, Nana inclui entre suas influências o chileno Lucho Gatica, confessando-se uma adepta do bolero, ritmo originário de Cuba. "Tudo o que eu faço tem ritmo de bolero, incluindo samba-canção e bossa nova", generalizou em uma entrevista. A cantora finalmente atingiria o marco do disco de ouro pelas cem mil cópias do disco que levava o nome do ritmo no título (com standards do gênero), em 1993.
E teria nova explosão na bela (e também embolerada) Resposta ao Tempo, da dupla Cristóvão Bastos e Aldir Blanc, tema da minissérie Hilda Furacão. Mas seria redutor confinar a um único gênero a intérprete exemplar das obras-primas do pai (Só Louco, Dora, Rosa Morena) e do irmão Dori (Velho Pescador, Desenredo, Velho Piano), que duetou de forma lancinante com Milton Nascimento em Sentinela e celebrou a obra da compositora Dolores Duran em A Noite do Meu Bem (1994). Perfeccionista que cuida da emissão vocal e do repertório sempre de alta qualidade, ela também escolhe com rigor os músicos acompanhantes e já dividiu dois discos com pianistas: Voz e Suor com César Camargo Mariano, em 1983, e Só Louco com Wagner Tiso, gravado ao vivo no festival de Montreux em 1989. Nada mais natural para quem usa a voz como um instrumento com perícia e paixão.
Tárik de Souza
ENSAIO
2/1/1993

Se queres saber
Se eu te amo ainda
Procura entender
A minha mágoa infinda
Olha bem nos meus olhos
Quando eu falo contigo
E vê quanta coisa
Eles dizem que eu não digo
O olhar de quem ama diz
O que o coração não quer
Nunca mais eu serei feliz
Enquanto vida eu tiver
Se queres saber
Se eu te amo ainda
Procura entender
A minha mágoa infinda
Olha bem nos meus olhos
Quando eu falo contigo
E vê quanta coisa
Eles dizem que eu não digo
O olhar de quem ama diz
O que o coração não quer
Nunca mais eu serei feliz
Enquanto vida eu tiver
Se queres saber
Se eu te amo ainda
Se Queres Saber
, José Fernandes de Paula. Copyright by EDITORA MUSICAL BRASILEIRA (ADDAF).
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Eu nasci no Rio de Janeiro.
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Eu nasci no Grajaú, no subúrbio no Rio de Janeiro.
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Em casa. Meu pai tinha acabado de casar em 41 com mamãe e no ano seguinte eu nasci, dez meses depois eu nasci, numa casa. Os outros dois filhos mamãe teve em hospital, em clínica, mas eu fui em casa (ri). Papai dizia que era muito bom ter filho em casa; ela quase matou ele depois.
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Eu tenho lembranças boas de infância, sim, quer dizer, dessa casa pouco porque aí, logo depois que o Dori nasceu, nós saímos da casa. Até o Dori nascer nós ficamos lá, uns três anos no Grajaú. Depois papai foi morar no Leblon, que já Danilo tinha nascido no Leblon mesmo, Danilo nasceu em frente ao mar. Super privilegiado. E aí nós ficamos, muitos anos, morando no Leblon, quer dizer, uma infância muito tranqüila, colégio, a gente ia pra Minas, pra cidade onde meus pais hoje têm a casa, uma das casas, porque eles vivem em três lugares ao mesmo tempo. Nessa casa em Minas eu passei uma infância muito bonita lá, com meus avós e meus pais, papai muito pouco mas mamãe muito.
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Aos quatro anos tive uma professora de piano, por nome Aída Gnattali, irmã do Radamés1.
Depois passei para Lúcia Branco e depois Anísio Albino, tive uma formação de piano bastante bonita. Dado ao adiantado de com quatro anos já mamãe me colocar no piano, me deu um ataque depois aí e com uma certa idade não fiz mais nada, parei geral, não quis mais estudar. Isso foi a pior coisa que podia ter me acontecido, foi eu começar muito bem com o estudo de piano e depois parar geral.
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Olha, não tenho preferência, é um negócio tão sério dizer preferências. Eu ouvia tudo em casa. No caso, meu pai... como trabalhava e compunha, papai ouvia sempre compositores clássicos da canção. Eu conheci com ele Cesar Frank, Maurice Ravel, Claude Debussy, Satie. Tive uma formação clássica bastante violenta para uma criança. Quando eu falava isso anos depois na infância, ou colégio em que as freiras me viam cantando essas coisas assim, levavam até choque, olhavam assim como se fosse uma raridade. Eu sempre era a solista das festas, de canto gregoriano também eu tive bastante estudo sobre isso e música de igreja, porque eu estudava em colégio de freira e tinha bastante facilidade em aprender
as coisas que eram só dadas aos padres, aos dominicanos.
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A tradicional de Gounot? (Cantarola trecho da Ave Maria em latim)
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Também gosto. Essa não foi bem uma formação, era uma coisa natural, nunca tive isso como formação porque era diferente das outras crianças. Eu tive uma infância com muita música, muita gente de música, muita gente de arte. Agora, no sentido melhor dela, clássicos e populares, o melhor que tinha na música.
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Isso veio muito tempo depois. Não se pode dizer assim que fosse uma coisa. Era uma renovação, era uma mudança bem forte da música quando o Tito Madi chegou, perto daquela canção que vinha. Hoje eu compreendo bem, eu compreendo Quase, eu compreendo Canção da Volta, eu compreendo Se Queres Saber e Saia do Meu Caminho. Mas a música para a minha idade na ocasião e para o que eu me propunha, no que eu olhava pro mundo com oito, dez anos, doze anos até os quinze anos, eu me assustava com a letra massacrada que minha mãe cantava, a letra de amor intenso, de coisas muito doídas. Hoje eu interpreto isso muito bem, porque é a escola da minha casa, eu tinha mamãe que adorava isso e me passava essas coisas todas. Mas quando surgiu Tito Madi, mais levezinho, que é o tal de Alguém Como Tu, Perdido de Amor, Baralho da Vida, João Donato, alguns compositores que meu pai levou na ocasião e, depois claro, muito tempo depois surge Tom Jobim assim pra todo mundo, mas eu já tinha Tom em casa de uma certa forma.
Alguém como tu
Assim como tu
Eu preciso encontrar
Alguém sempre meu
De olhar como o teu
Que me faça sonhar
Amores eu sei
Na vida eu achei e perdi
Mas nunca ninguém desejei
Como desejo a ti.

Isso era Dick Farney, Lúcio Alves, os cantores que eu vinha já acompanhando na música. Achava o máximo, diferente do dramalhão a que eu estava acostumada, que eram as irmãs Batista, que era Isaura, as cantoras da minha mãe.
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Mamãe foi a grande mentora dessa história toda de música lá em casa.
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Adelaide, vulgo Stella Maris, que é o nome de cantora que o César Ladeira colocou nela e aí ficou Stella Maris. Ela é que foi a pessoa que preparou a nossa cabeça, quer dizer a minha e a do Dori, em relação à canção popular brasileira, porque papai tinha um negócio muito fechado. Além da música dele, ele precisava do tempo de compor, precisava desse espaço e ele ouvia mais o clássico do que provavelmente os colegas de profissão.

Nota:
1. Radamés Gnattali, famoso maestro e arranjador da Rádio Nacional nos anos 40/50.