Encontro de violeiros. Designação usada no Nordeste para indicar o ato de cantar desafios. Aqui, quando tocar o CD que acompanha este livro, você terá um momento especial da cantoria nordestina, pois, a cada vez que repetir esse ato, dois dos maiores vates sertanejos estarão desfilando sua verve de cantadores improvisadores sobre os temas mais diversos e solicitados pelos presentes na cantoria. São eles: Otacílio Batista e Diniz Vitorino.
No Nordeste, a função acontece nas amplas salas de estar das fazendas ou mesmo numa sala de reboco de uma simples tapera, mas, em ambos os casos, reunindo uma platéia sele-ta ávida por ouvir poesia - das boas.
O cenário é montado com lugar de destaque para os cantadores em peleja e também para os donos da casa, completado por uma mesinha, na qual, dependendo do lugar, se instala os quitutes e bebidas que vão de um finíssimo licor de jenipapo ou pitanga até uma boa cachaça de cabeça que o " cumpade" Chico de Rita deu, sem faltar os patezinhos de dona Mariá, além, naturalmente, de uma bandeja de prata ou de um "aguedá" de barro para os donativos dos presentes que vão complementar o "cachê artístico" da dupla de cantadores.
Chegados os contendores, pelos cantos já se ouvem o burburinho e as torcidas, que se adiantam em comentários tendenciosos.
- "Otacílio vai comer Diniz vivo, vai dar-lhe uma pisa que ele vai pra água de sal" - diz um.
- "Oxente! Diniz é mais moço, mais bonito, tem um vozeirão que dá gosto, é muito melhor"
- rebate uma moça. Um som de preparo das violas, um acerto na afinação e o repique do baião já enche a sala iluminada por uma chama de candeeiro, um lampião de gás ou uma boa lâmpada, que o progresso da luz elétrica já chegou.
Agora, feche os olhos, sinta-se no ambiente proposto, clique o play e, ainda de olhos fechados, viva um dos momentos mais importantes da literatura nordestina, a poesia dos cantadores, dos violeiros, em que os homens vibram de emoção e as mulheres de paixão pela voz quente, pelos versos vibrantes, embalados pela batida da viola numa cantoria nordestina.
Toinho Alves
MPB ESPECIAL
27/9/1973

Cantoria 1 - Martelo dodecassílabo
OTACÍLIO BATISTA
Eu nasci lá no velho Pajeú, São José do Egito é minha cidade
Comecei com dezessete de idade, imitando a voz do uirapuru
Nesta hora canto eu e cantas tu, que a minha cantiga nada afeta
É preciso ter uma idéia concreta que o povo entenda o que é cantoria
E se poeta vencer-me em poesia, não direi a ninguém que fui poeta

DINIZ VITORINO
Paraíba do Norte é um estado rico de amor, de elegância
Testemunha ocular da minha infância, dos meus dias românticos do passado
Onde eu corri muito atrás do gado, barbatões, vacas brabas e garrotes
O cavalo suado, a dar pinotes, mas, eu que na sela tinha apoio
Abri a garganta e dava aboio
1 que abalava os angicos do serrote
O. B. - Cantador desta sua qualidade tenho visto dez, doze numa feira
Maltratando os colegas de primeira e enganando, iludindo a humanidade
Namorando mocinhas com maldade, depois fala mal da moça alheia
Esses cabras merecem muita peia pra deixarem de ser tão imorais
E eu não a polícia o que é que faz que não bota esse cabra na cadeia?
D. V. - No momento que eu me aperreio dou o peso esquisito do meu braço
Não existe prisão feita de aço que, com um murro, eu não parta pelo meio
No momento eu acabo com o esteio, que alguém pra fazer gasta um ano
Tiro telha, quebro ripa, envergo cano de metal, de aço bem maciço
E você morre e não faz esse serviço, só faz eu porque sou paraibano
O. B. - Eu não temo o disparo do canhão e nem da guerra a cruel calamidade
Não me causa o temor a tempestade, nem corisco, nem raio, nem trovão
Não me assombra, também, qualquer leão e da cobra o veneno fulminante
Não faz medo a tromba do elefante, nem do mundo, afinal o seu segredo
Neste mundo o que me tem feito medo é cantar com um sujeito ignorante
D. V. - Eu já fui no inferno urgentemente,
Entrei pela porta de atrás e peguei o irmão de satanás
O primo, o sobrinho e um parente, pra mostrar-lhe que sou cabra valente
Dei-lhe um tapa no diabo carrancudo, peguei outro diabo cabeludo
Dei-lhe tanto que ele ficou calvo, e se você morrer hoje já esta salvo
Porque o que tinha de diabo eu matei tudo
O. B. - Este homem, no dia em que nasceu, um cachorro ladrou dando sinal
Cem mulheres morreram no hospital e o sol nas alturas se escondeu
Um praga de mosca apareceu e o oceano parou o movimento
A lua deixou o firmamento e foi queixar-se, no final, ao Padre Eterno
E o diabo gritou lá do inferno: foi Diniz que nasceu neste momento
D. V. - Este homem saiu pra viajar e por vilas, cidades e aldeias
Viajou um ano com um par de meia, sem tirar a miséria pra lavar
No momento que ele foi tirar, o mau cheiro pegou fazendo efeito
Uma vaca passou perdeu um peito, uma cobra com nojo vomitou
Um urubu engoliu e congestou, com três horas morreu, não teve jeito
O. B. - Nós cantamos um martelo conhecido no agalopado2
D. V. - Um desafio ferrenho, mas pendo para o outro lado
O. B. - Que para tanto, sextilha, você está desgraçado
D. V. - Cada qual foi animado mostrando grande destreza
Eu lutei com muita raiva e você com muita aspereza
Pois foi mesmo que o Santos enfrentando a Portuguesa
O. B. - Vamos cantar um mourão3 que a hora me convida
D. V. - Eu também quero cantar os dramas da minha vida
O. B. - Esta terra me pertence e o cantador não me vence,
só na passada da vida
D. V. - Na minha idéia, querida, sou filho do clima quente
O. B. - Canto com prazer na vida, nesta viola dolente
D. V. - Na poesia eu tomo banho e cantador do seu tamanho
Não anda na minha frente
O. B. - Ai! Não se meta a valente
Que eu hoje posso lhe vencer

Notas:
1. Aboio: canto de trabalho do vaqueiro no sertão nordestino.
2. Dodecassílabo conhecido também como martelo agalopado.
3. Mourão: estilo de cantoria de viola.