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ALGUMAS
TRÊS PEQUENAS COISAS, SOBRE TRÊS IMENSOS CRIADORES
O samba na Bahia e no Brasil possui nomes importantes. Criadores imortais,
mestres populares que nos deram a demonstração de nossa
capacidade de inventar e reinventar a matéria crua do cotidiano,
produzindo os elementos básicos de uma linguagem poética
e musical, na qual nos reconhecemos como uma cultura bem própria.
Entre esses iluminados, três nomes baianos estão inscritos
para sempre, pela contribuição imensamente inovadora dos
padrões com que conhecemos as manifestações do samba.
O primeiro, pai de nós todos, é o saudoso Oscar da Penha,
o Batatinha, negro e esguio como um coqueiro de Itapoã, que ao
cimo deixava florescer uma copa de cabelos brancos, flores que um anjo
da noite plantou e o sereno das madrugadas soteropolitanas cultivou.
O registro de sua vida e obra, de sua fala mansa é um documento
de saudade, uma toalha bordada pela sua voz editada com o cuidado de um
tipógrafo, selecionando letras e tipos para melhor fazer valer
a qualidade das palavras. Este era seu ofício, dar qualidade à
palavra editando-a com a melodia e o ritmo dos sambas que criava. Desejo
confessar que elejo Batatinha, ao lado de Cartola e Nelson Cavaquinho,
um dos componentes do trio básico que renovou a linguagem contemporânea
do samba. Filósofo da dor, diplomado na matéria da qual
somos todos aprendizes, nos deixou a interpretação superadora
do sofrer.
Andou com ele, pelas ruas da cidade mais negra do Brasil, o amigo Riachão,
nascente perene do bom humor e autêntico artista da época
de ouro do rádio, que mistura de maneira especial a buliçosa
linguagem do coco e da embolada, nos lembrando a presença de Jackson
do Pandeiro e Gordurinha, na linguagem múltipla do samba, em que
ele também impressiona pela formidável inventiva rítmica.
Desprendido, imenso, esse queridíssimo intérprete popular
é um riacho de águas inesgotáveis, que apesar de
buliçoso sabe pular sem quebrar os galhos dessa frondosa árvore
que é o samba. Em Cada Macaco no Seu Galho, diz Riachão
que seu galho é na Bahia, mas vai pagar um grande mico quem não
o reconhecer como um dos grandes nacionais, que faz do samba uma linguagem
universal.
Por fim, completa esse excepcional esforço de registro, um filho
dileto de todos os visíveis e invisíveis mestres que permitiram
ao samba ter uma personalidade, uma alma, um jeito de ser para sempre
popular e brasileiro. Ederaldo Gentil, uma das mais brilhantes revelações
das gerações que renovaram o samba, como Paulinho da Viola
e Elton Medeiros no Rio, ou Edil Pacheco na Bahia, trazendo uma empolgante
levada, para temas clássicos do samba, como a dor e a capacidade
de superá-la, as desilusões amorosas e a sabedoria de buscar
a saída em amar muito mais ainda, ou ainda na referência
orgulhosa às origens, seja ela a grande mãe África
ou as noites em que os tambores tocam na mesma cadência dos corações
dos meninos negros, pobres e sonhadores, sustentando a paixão de
afirmar o sentido de ser livre pelo exercício da condição
de artista e criador. O parceiro Gentil está aí, consagrado
pela vocação de sambista, admirando o tempo, pronto a nos
surpreender a qualquer momento com sua sensibilidade de menino que não
se deixou ferir pelas furiosas lanças do viver. Aguarda o momento
valioso do retorno, pois já está predito nos seus versos
e prometido nos seus ritmos que um sambista nunca se entrega aos intervalos
da dor.
José Carlos Capinan
MPB ESPECIAL
7/5/1974
Meu desespero
ninguém vê
Sou diplomado em matéria de sofrer
Meu desespero ninguém vê
Sou diplomado em matéria de sofrer
Falsa alegria
Sorriso de fingimento
Alguém tem culpa
Deste meu padecimento
Sofrimento e padecer
Todos lamentam
Mas só eu sei responder
Sofrimento e padecer
Todos lamentam
Mas só eu sei responder
Luto por um pouco de conforto
Tenho o corpo quase morto
Não acerto nem pensar
Mesmo com tanta agonia
Ainda posso cantar
Ainda posso cantar
Ainda posso cantar
Ainda posso cantar.
Diplomacia, Batatinha/J. Luna.
Copyright by WARNER CHAPPELL EDIÇÕES MUSICAIS LTDA.
***
BATATINHA - Nasci a 5 de agosto de 1924, em Salvador, Bahia. Eu nasci
na Maternidade
Climério de Oliveira, bairro de Nazaré.
***
A Bahia do meu tempo? Digamos assim, quando eu comecei a entender as coisas
como criança, a Bahia era o seguinte: ruas estreitas, ladeiras
de calçadas, neca de asfalto, né? (ri). Tínhamos
então carroça, tínhamos marinete1,
bonde, o Elevador Lacerda, que era o velho e o novo, e tínhamos
o Plano Inclinado, que naquela época chamava-se o "charriô",
o Plano Gonçalo, na praça da Sé. Outra coisa mais
importante naquela época: as festas "de Largo" da Bahia,
né? Era marcante a festa da Conceição, a festa do
largo Santana, festa no largo da Saúde, festa no largo da Palma.
Tudo isso deixou de existir, a festa de Santana, Palma e Saúde
não existem. Tem a Conceição tradicional, lavagem
do Bonfim, Boa Viagem, festa do Rio Vermelho. Tinha o bando anunciador
do Rio Vermelho, que era 15 dias antes do carnaval, onde se dava o primeiro
Grito de Carnaval naquela época, nas ruas do Rio Vermelho. E o
que mais? Digamos as serestas, a boemia. Eu não participava, mas
ouvia falar, ficava na minha, né? (ri).
***
Bom, naquele tempo, digamos assim, eu estava com meus seis anos, se cantava
Rancho Fundo, a composição de Lamartine com o Ari Barroso.
Do Mário Reis cantava-se também A E I O U, de Lamartine
também. Mário Reis cantava um negócio, um samba,
uma bossa, que me foge agora à memória o título.
Depois eu fui crescendo mais um pouco, né? Aí, quando cheguei
aos dez anos, em 34, já gostava de ouvir as músicas popular
do Brasil, então eu me simpatizei muito com a música Se
Acaso Você Chegasse, gravada pelo velho Ciro2,
que era mais ou menos assim:
Se acaso você chegasse
No meu barraco encontrasse
Aquela mulher que você deixou
Será que tinha coragem
De trocar a nossa amizade
Por ela que já, que já lhe abandonou.
Se Acaso Você Chegasse, Lupicínio
Rodrigues/Felisberto Martins. Copyright 1956 by IRMÃOS VITALE S/A
INDÚSTRIA E COMÉRCIO. Todos os direitos autorais reservados
para todos os países. ALL RIGHTS RESERVED. INTERNATIONAL COPYRIGHT
SECURED.
Essa música é do Lupicínio Rodrigues. Até
soube uma história dessa música: diz que ele pra entrar
nessa música foi seis anos depois, gravaram em 34 e não
tinha o nome do Lupicínio no disco. Isso eu soube depois. Também
eu gostava muito do Duzentos e Doze, que o Ciro Monteiro gravou.
Essa é mais pra cima um pouco.
Lá na rua onde eu moro
Nº 212
Mora a mulher que eu adoro
E quando eu passo faz pose
Será que ela não sabe
Que eu sou um bom rapaz
Ou ela quer que eu acabe
Com a pose que ela faz?
Também outro cantor na época que me fascinava foi o
Luís Barbosa. Eu creio que gravou uma música só,
do meu conhecimento, né?3
Foi a Risoleta.
Vou mandar prender
Esta nega Risoleta
Que me fez uma falseta
Me desacatou
Porque não lhe dei o meu amor
(Isso é conversa pra doutor)
Ela foi criada
Na roda da malandragem
E hoje vive com visagem.
Risoleta, Raul Marques/Moacir
Bernardino. Copyright 1937 by IRMÃOS VITALE S/A INDÚSTRIA
E COMÉRCIO. Todos os direitos autorais reservados para todos os
países. ALL RIGHTS RESERVED. INTERNATIONAL COPYRIGHT SECURED.
Também tinha o cantor, também... Esse então houve
muita coincidência, porque na década de 40 já, eu
já estava maiorzinho, foi quando o Antônio Maria, o saudoso
Antônio Maria, foi dirigir a Rádio Sociedade da Bahia. Então
ele lá criou um programa que se intitulava Campeonato do Samba.
Então eu fui convidado ali, porque eu trabalhava no Diário
Associado, onde trabalho até hoje, e pra participar do programa.
Ele me via lá, eu sempre naquele movimento musical, tal e coisa,
aquela transa (como diz o Riachão), entrei pra fazer parte do programa.
Então eu gostava muito do repertório do Vassourinha, do
Ciro, os bons sambistas da época eu gostava de curtir. E no meio
deles então botava meus sambinhas também, que eu comecei
a armar. Mas com um particular: não tinha coragem de dizer que
eram meus sambas, não falava que era da minha autoria esse samba.
Então como eu cantava muito os sambas do Vassourinha... Por exemplo,
aquele samba Emília.
Quero uma mulher que saiba lavar e cozinhar
Que de manhã cedo me acorde na hora de trabalhar
Só existe uma e sem ela não vivo em paz
Emília, Emília, Emília, não posso mais
Emília, Wilson Baptista/Haroldo
Lobo. Copyright by MANGIONE, FILHOS & CIA. LTDA. Todos os direitos
autorais reservados para todos os países do mundo.
Esse samba é do Antônio Almeida, né?4
Realmente. Então entre esse samba de Vassourinha e mais outros
que eu também jogava, deu pra atacar no programa do Antônio
Maria. O pessoal começou a me chamar de Vassourinha, porque eu
na época estava na idade do mesmo, do senhor Vassourinha (ri),
o saudoso Vassourinha, então começaram no auditório
a me chamar de Vassourinha. Daí a um pouco o Antônio Maria
um dia me anunciou: "Com vocês Oscar da Penha, o sambista Batatinha".
Eu tomei por surpresa, por que Batatinha?, perguntando a ele mais tarde
lá no bastidor do teatro. Disse: "Ah! Porque quando você
vai atacar aí o pessoal só chama de Vassourinha. Você
compreende? Vassourinha tá lá em São Paulo".
Daí lá vai Batatinha.
***
Naquela época eu fiz uma composição que se intitula
Inventor do Trabalho. Foi meu primeiro samba, que eu vim gravar
no ano passado pela Phillips. Então o samba é mais ou menos
isso:
O tal que inventou o trabalho
Só pode ter uma cabeça oca
Pra conceber tal idéia, que coisa louca
O trabalho dá trabalho demais
E sem ele não se pode viver
Mas há tanta gente no mundo
Que trabalha sem nada obter
Somente pra comer
Mas o tal que inventou o trabalho
Só pode ter uma cabeça oca
Pra conceber tal idéia, que coisa louca
O trabalho dá trabalho demais
E sem ele não se pode viver
Mas há tanta gente no mundo
Que trabalha sem nada obter
Contradigo meu protesto
Com referência ao inventor
A ele cabe menos culpa
Do seu invento causar pavor
Dona Necessidade que é senhora absoluta
Da minha situação de trabalhar
E batalhar por uma nota curta.
Inventor do Trabalho, Batatinha.
Copyright by WARNER CHAPPELL EDIÇÕES MUSICAIS LTDA.
Notas:
1. Nome dado a uma espécie de
pequeno ônibus na Bahia, na metade do século XX.
2. O cantor Ciro Monteiro.
3. Batatinha enganou-se: Luís dos Santos Barbosa,
o Rei do Chapéu de Palha, a palheta, gravou inúmeros sambas,
inclusive o famoso No Tabuleiro da Baiana (de Ari Barroso) em dupla com
Carmen Miranda, em 1937, no selo Odeon.
4. Emília é de Wilson Batista e Haroldo
Lobo.

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