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Como a literatura,
a gastronomia, a religião e tantos outros aspectos da cultura brasileira,
a música popular também resulta de um amálgama de
estilos, de sons, de raças, de sotaques, de influências que
ao longo do tempo vem se somando, se misturando, se transformando, uma
coisa viva e mutante que a cada dia, a cada momento, recebe contribuições
e vai-se formando nesse som tão peculiar ao qual se dá o
nome de música popular brasileira.
Brasileira, feita de belezas assinadas por nomes que podem soar estranhos
aos nossos ouvidos. Ferjalla, Faraj, Lufti, Feres, Cury, Mussi, Nasser,
ou seja, Deo (o Ditador de Sucessos, grande cantor da Rádio Nacional);
Jorge Faraj (autor entre outras belezas de A Deusa da Minha Rua);
Sérgio Ricardo (de Zelão); Romeu, o vozeirão
do Sumaré; os cantores Layla e Ivon; o mineiro João Bosco;
o compositor David, entre tantos outros, como Wanderléia Salim,
Agnaldo Rayol, por aí. E por um melodista/poeta especial, Chauki
Maddi, que nós reverenciamos como Tito Madi.
A música do Oriente estava em seus ouvidos, ao nascer, na pequena
Pirajuí em 18 de julho de 1929, no interior de São Paulo.
O pai dedilhava o ancestral alaúde e os irmãos enveredaram
pelo violão e bandolim. Em pouco tempo os três meninos Maddi
montaram um serviço de auto-falantes que animava a pracinha da
cidade e provocou o aparecimento da Rádio Pirajuí, que transformou
o caçula em locutor, redator, diretor e naturalmente... cantor.
No início dos anos 50, já com algumas tímidas composições
na bagagem, tomou o trem e desembarcou na Rádio Tupi, em São
Paulo, onde ficou até 1954, ouvindo e aprendendo muito com os maestros
George Henry e, principalmente, Luís de Arruda Paes. Botou mais
o título de Cantor Revelação do Ano na bagagem e
no mesmo 54 estava na Guanabara, disposto a conquistar o Rio e o resto
do Brasil.
Foi quando aconteceu o casamento com a noite carioca (da qual se tornou
o cantor-símbolo) e com o piano de Ribamar. Um trio perfeito, uma
junção que rendeu belezas para a música popular brasileira.
Romântico até a medula, Tito tornou-se a estrela noturna
mais brilhante da chamada época de ouro das noites cariocas. Seu
estilo próprio e personalíssimo, suas composições
de rara beleza garantiram a ele lugar certo na história da MPB.
Composições como Chove Lá Fora, Não Diga
Não, Cansei de Ilusões, Fracassos de Amor somam-se -
entre outras - em seu currículo a Balanço Zona Sul, tida
e havida como primeira lição dada aos meninos da bossa nova
de como compor - com talento - no gênero, e a Gauchinha Bem Querer,
a mais gaúcha das canções, feita por um paulista,
no Rio de Janeiro. Paulista? Carioca? Gaúcho? Não importa,
o certo é que, no fundo, suas belas harmonias são originárias
do mesmo ancestral alaúde paterno. Com autêntico sabor e
talento de música popular brasileira.
Arley Pereira
ENSAIO
25/2/1992
Não
faz sentido essa briga
Nem tem razão esta dor
A nossa história é tão antiga
São mais de mil anos de amor
Não diga não
Não me deixe sozinho
Sofro demais
Longe do seu carinho
Não diga não
Me faz sofrer
Chegue-se a mim assim assim
Se disser não
Isto será meu fim
Coisas do amor
Que me fazem sofrer
Sofro demais
Só pensando em você
Olhe pra mim
Diga que sim
E eu lhe darei
Todo o carinho
Não diga não
Não me deixe sozinho.
Não Diga Não, Tito
Madi/Georges Henry. Copyright by EDITORA BRASIL MUSICAL LTDA. (ARLEQUIM).
Bem, vocês viram que eu sou Tito Madi. Eu nasci em Pirajuí,
noroeste do Estado de São Paulo, a cidade mais linda do mundo.
Embora eu esteja, assim, tão longe dela, continuo com ela no meu
coração, amando-a cada vez mais e me lembrando de todos
os momentos que eu vivi nela.
***
Pirajuí é uma cidade nem muito grande nem muito pequena,
com seus paralelepípedos, com seus jardins, três lindas praças,
as suas ruas, as principais: a rua Treze de Maio e a rua Sete de Setembro,
onde eu nasci, e uma cidade de um povo muito bom, de um povo muito generoso,
onde eu tenho grandes amigos ainda. Muita gente nova, eu sei, mas continuam
lá meus grandes amigos, alguns já se foram, né?
***
Bem, a coisa que mais eu guardo assim na minha lembrança, da minha
infância e já quando moço, é as figuras dos
meus pais: o meu querido pai Nemer Maddi e a minha mãe querida
Carmem Felipe Maddi, que já se foram deste nosso mundo e que deixam
muita saudade à gente. E de uma família muito unida, uma
família a quem eu devo quase tudo na minha vida e, muito importante,
inclusive o grande apoio que todos me deram na minha carreira, muito especialmente
meu irmão Ramis Maddi, que foi, antes de eu iniciar nessa carreira,
foi um dos grandes locutores aqui no Estado de São Paulo, na cidade
de São Paulo. Trabalhou com Blota Júnior, com Paniguel e
pessoas de nome.
***
Veja bem, meu pai era um poeta. É claro, ele era libanês,
árabe, e fazia suas poesias e fazia suas músicas. Ele cantava
pra minha mãe aquelas coisas bonitas, não dele, mas aquelas
coisas que ele trouxe lá do Oriente. Por exemplo, uma música
que eu o acompanhava bastante, eu fiz uma letra, é até um
pedacinho, não vou lembrar de tudo, mas, por exemplo, uma música
muito bonita: (Canta a capela)
Levaste o meu amor
Sozinho eu fiquei
Levaste o meu amor
Sozinho eu fiquei
Levaste meu coração
Que um dia eu te dei
Agora a chorar
Peço tudo tudo que era meu
Já não posso recordar
O vazio uh uh meu...
Esqueci a letra. Essa é uma música muito bonita, música
libanesa, e meu pai tocava naquele instrumento antigo, o alaúde,
e eu o acompanhava com harmonias brasileiras.

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