Chamá-lo de homem dos
mil instrumentos nem chega a ser exagero. O cearense de Jardim, nascido
em 1921, toca praticamente todos os de corda. Já atuou em dupla com o
virtuose do violão Garoto durante o período áureo da Rádio Nacional,
integrou o Quinteto do rigoroso Radamés Gnattali e reforçou os
primeiros discos de Roberto Carlos tocando guitarra. Fez até a música
de abertura do programa Os Trapalhões. Onipresente nos
bastidores de várias gerações (e estilos) da MPB, Zé começou muito
cedo em um cavaquinho de uma corda só. Aos oito anos exibiu-se para o
lendário Padre Cícero tocando sua composição Meus Oito Anos.
Aprendeu requinta (um clarinete uma quinta acima), escalou o violão, o
bandolim, o violão-tenor (quatro cordas) e não parou mais. Ao lado de
Radamés ao piano (e Vidal, baixo, Luciano Perrone, bateria, Chiquinho,
acordeom), atuou com alguns dos principais intérpretes nacionais, mas
nunca renunciou a sua assinatura pessoal. Compôs o samba-canção
modernista Nova Ilusão (com Luiz Bittencourt), que se tornaria
prefixo da primeira fase do grupo vocal Os Cariocas, em 1948, e também Comigo
é Assim, outro sucesso do grupo (da mesma dupla) que Miúcha e Tom
Jobim regravariam em 1977. Outras composições suas conseguiram
projetar-se como Mais uma Ilusão, na voz de Nuno Roland, Castigo
por Gilberto Milfont e Pau-de-Arara por Carmélia Alves. Seu
estoque de choros instrumentais também é expressivo: Sereno, Vitorioso,
Encabulado, Caititu, entre outros.
Aos 11 anos, músico de
banda em Juazeiro, foi descoberto por César Ladeira quando tocava na
Ceará Rádio Clube, em 1943. Contratado pela Rádio Mayrink Veiga
carioca, ele passaria mais tarde para a Nacional onde se apresentou em
dupla com Garoto. Trabalhou ainda com o tecladista Djalma Ferreira no
conjunto Milionários do Ritmo, excursionou pela Europa a bordo do
Sexteto de Radamés Gnattali (que começou como quarteto e chegou a
Orquestra Brasileira de Shows com Zé, Garoto e Bola Sete nas cordas).
Gravou treze discos com o bem-humorado grupo de estúdio Velhinhos
Transviados, que "envelhecia" (e envenenava com Menezes na
guitarra) por meio de uma formação de bandinha do interior os sucessos
das paradas, incluindo rock e derivados. Sua enorme carreira
discográfica, no entanto, tem poucos solos como os dois LPs de dez
polegadas registrados na Sinter no início dos 50 (Dançando com Zé
Menezes, A Voz do Violão) e os mais recentes CDs Chorinho
in Concert, na CID, de 1995, e Relendo Garoto, produzido por
Pelão em 1998, no qual ele realiza o velho sonho do parceiro que
desejava ver suas músicas reintepretadas por orquestra. E de quebra por
um homem-orquestra, o gênio modesto Zé Menezes.
Tárik de
Souza
ENSAIO
22/9/1998
Qué cantá comigo?
Relembrar todas as juras
que fiz
Tão satisfeito fiquei
Ao sentir nosso amor reviver
Eu não sei se sorri, se chorei
Cheguei até mesmo a crer
Recomeçamos assim
A nossa felicidade
Jamais alguém pensaria
Que aquela amizade
Viesse de novo a ter fim
Mas durou pouco afinal
Esta nova ilusão terminou
Eu não sei se por bem ou por mal
Você foi e não voltou
Você foi e não voltou
Nova Ilusão, José
Menezes/Luiz Bittencourt. Copyright by TODAMÉRICA MÚSICA LTDA. (ADDAF).
Viu? Mal cantado, mas bem
acompanhado.
***
É o seguinte: o
violão-tenor é um instrumento que foi praticamente descoberto pelo Del
Vecchio1
e o Garoto,
né?2
O Garoto com a
musicalidade que Deus deu e o Del Vecchio com a inteligência. Então
nada mais é do que um banjo-tenor, que a afinação é de banjo-tenor,
dó-sol-ré-lá, e a invenção de passar pro instrumento dinâmico.
Ficou com esse som maravilhoso, que na realidade o violão-tenor tem um
som diferente, é um tom sóbrio, é um tom muito bonito. Tanto que eu,
quando estava no Ceará, ouvia o Garoto fazer o programa na Mayrink
Veiga, com a [pianista] Carolina Cardoso de Menezes, e eu já admirava o
som do instrumento. Por isso encomendei ao Del Vecchio que fizesse um
instrumento pra mim também, mais ou menos parecido com o do Garoto.
Isso foi em 1932. Ele mandou esse violão-tenor, que eu fiz questão de
conservar assim, porque eu tenho medo até que o próprio fabricante
mexa nele, até envernizar, que eu tenho medo que perca o som, porque é
realmente um som maravilhoso. O Garoto preparou a valsa Desvairada,
pra tocar... ela foi feita pra violão-tenor. Mas como ele tinha uma
facilidade grande de instrumento, que a gente até trocava de
instrumento e coisa e tal, então ele chegou na gravadora e disseram:
"Garoto, hoje tu vai gravar aquela valsa, aquela Desvairada".
Porque naquele tempo todos os bandolinistas tinham sua valsa-concerto.
Eu até fiz uma valsa-concerto também de bandolim. Mas a do Garoto era
uma coisa medonha... Mas ele não podia, ele deixou o instrumento em
casa, o violão-tenor, que era a paixão dele. "Mas tem que ser
hoje". Naquele tempo, às vezes, a gravação tinha duas cera,
três cera, o cara tinha que chegar e tocar mesmo, porque, se não
tocasse... Errou, danou-se porque não tinha mais cera. Errou duas
vezes, três vezes, acabou a cera, a gravação tinha que adiar. E aí o
Garoto disse: "Não, então faz o seguinte..." Aí tomaram um
bandolim emprestado do Bandolim de Ouro (sem propaganda) e o Garoto na
realidade chegou lá, mandou Desvairada e gravou de bandolim. É
por isso que nos meus shows eu apresento sempre Desvairada em
bandolim, porque foi gravada originalmente no bandolim pelo Garoto. De
repente, eu estava com o violão-tenor na mão e passei pro bandolim
também. Vamo ver o que é que sai.
[Música instrumental: Desvairada]
Desvairada, Garoto. Copyright by BANDEIRANTE EDITORA MUSICAL
LTDA. (ADDAF).
***
Cavaquinho é uma
guitarrinha bem pequenininha que tem aí.
***
A valsa Primeiro Amor,
ela foi composta por Patápio Silva. Foi um grande flautista, grande
compositor, então ele fez a valsa Primeiro Amor, exatamente uma
coisa de execução difícil, na flauta. Você sabe que a flauta tem
três oitavas, é um instrumento de um recurso muito grande. No entanto,
naquele tempo, na Orquestra Brasileira de Show, o Radamés3
já tinha
idéias de juntar regional, que ele gostava muito, com orquestra grande.
Então, o Radamés fazia aqueles arranjos grande pra a gente tocar e foi
daí que na Orquestra Brasileira de Show, que era exatamente sob a
direção de Paulo Tapajós, então o Garoto era uma das peças do show
com orquestra grande e o Garoto então passou a tocar essa valsa de
cavaquinho, que, na realidade, o cavaquinho eu considero três cordas,
porque a quarta corda é a oitava da primeira, é sol-si-ré, quer
dizer, é pouco recurso. O cara pode dizer que são quatro cordas, mas
como recurso são três, porque é uma oitava, não tem nada que ver.
Mas aí eu admirava o Garoto tocar essa valsa, dado a dificuldade que
era pra flauta e ele tocando cavaquinho. Era sempre muito aplaudido.
Quando fomos pra Europa, o Radamés então fez essa valsa pra mim, que
era um dos carro-chefe, onde nós tocamos, tocamos na BBC de Londres,
gravamos em Roma, fomos homenageados em Paris por ocasião da
inauguração de Brasília, fomos homenageados com a grande orquestra de
Michel Legrand, naquele tempo, jovem, naquele tempo, aquela orquestra...
ficamos encantados logo com aquela orquestra e nosso sexteto4
fez um bonito
lá naquele grande teatro em Paris, que eu não sei o nome. E depois eu
sempre tocava o Primeiro Amor e de repente nós fomos tocar em
Oxford (desculpe a pronúncia) e aí fomos "trisados", né?,
segunda vez. Aí, o Joracy Camargo era quem apresentava que nós
faríamos uma conferência musical. Isso o Joracy Camargo, ele falava na
França, em francês, em cada país ele falava o idioma do país. Quando
fomos bisados lá em Oxford, tinha uma senhora, uma senhora assim de
cabelo branquinho, toda vestida de branquinho também, na frente,
acompanhada por uns estudantes, aqueles caras barbudos daquele tempo.
Então a senhora levantou quando eu toquei a primeira vez, a segunda
vez, daí bateu palma, bateu, era a mais entusiasmada batendo palma na
frente. O Joracy Camargo disse: "Olha, meu filho, entra, entra e
toca, toca e toca, porque você não sabe quem é essa senhora. Essa
senhora é reitora daqui da universidade". Daí eu toquei a valsa a
terceira vez. Aí ela subiu ao palco, ajudada por dois estudantes, subiu
ao palco, daí chegou perto de mim e disse: "Meu filho, posso
beijar sua mão?" Poxa, eu fiquei até acanhado, porque já sabia
de quem se tratava, né? Bom, foi daí que na revista do Luciano Perrone
da DFT, a revista de lá, botaram na revista assim: que o guitarrista
inglês perdeu uma oportunidade de conhecer o maior guitarrista do
mundo, principalmente quando ele pegava uma guitarra pequenininha (eles
não sabiam o que era cavaquinho), uma guitarra pequenininha. E foi
exatamente o Primeiro Amor. Essa valsa que segue agora.
[Música instrumental: Primeiro
Amor]
Primeiro Amor, Patápio Silva. Copyright by EDITORA BRASIL
MUSICAL LTDA. (ARLEQUIM).
***
Eu nasci em Jardim,
cidadezinha pequena lá do sul do Ceará, lá no interior, Cariri, à
beira da serra do Araripe. Vim pra Juazeiro, tive a minha infância em
Juazeiro, depois vim pra Fortaleza e em 43 vim pro Rio de Janeiro,
contratado pelo César Ladeira, que me ouviu acompanhando... Ele tinha
ido com Orlando Silva naquele tempo que o pessoal rasgava o Orlando
Silva, que, até pra ensaiar com ele, tinha que ir no hotel, porque ele
não podia sair na rua. O César Ladeira foi apresentar o Orlando,
então foi lá que ele me conheceu e me contratou pra vir pra Mayrink
Veiga, exatamente no lugar do Garoto, que tinha ido pra Rádio Nacional.
***
1.
Fabricante de violões.
2. Garoto: Aníbal Augusto Sardinha, lendário
instrumentista e compositor.
3. Maestro e arranjador Radamés Gnattali, da Rádio
Nacional do Rio de Janeiro.
4. Sexteto Radamés Gnattali (Nelsinho, trombone;
Chiquinho, acordeom; Gilberto, pandeiro; Pereirinha, contrabaixo;
Radamés, piano), que se apresentou na França, Inglaterra, Itália e
Portugal.
