A cada dois anos, em Piracicaba, renasce e se
apresenta mais forte uma nova concentração da expressividade criativa dos artistas
populares brasileiros, os ditos naïfs, ingênuos ou primitivos, que o SESC arrojadamente
coloca em plano destacado para apreciação do público amante das artes. Descortina-se, mais uma vez, com a quarta edição da Bienal
Naïfs do Brasil, a grande riqueza cultural do povo brasileiro, nela representada pelas
formas e cores da nossa exuberância tropical e pelos hábitos e costumes originários da
simbiose das raças responsáveis pelas nossas raízes. É uma visão panorâmica da arte
praticada pelos seguidores de Rousseau, Cardosinho, Heitor dos Prazeres, Chico da Silva,
José Antonio da Silva e tantos outros que com os gestos simples de suas mãos deram
formas e colorido às manifestações do instinto criativo.
Mas o que vem a ser a arte dos ingênuos, dos
primitivos, dos naïfs? O crítico Flávio de Aquino a descreve como sendo "um
gênero de manifestações estéticas não eruditas, de inspiração espontânea,
aprendizado autodidático e temáticas populares. É ainda uma arte de caráter complexo,
variado e individualizada conforme cada pintor que a pratica".
E onde se encontram os naïfs do Brasil? Muitas
vezes alheios ao valor do que fazem, mas fazendo o que lhes dita o coração e o
sentimento para exteriorizar o impulso criativo, espalham-se pelos mais diversos recantos
do nosso país em um número elevado e cada vez mais crescente os chamados artistas
ingênuos. Para a grande maioria deles, a necessidade de se expressar através da arte se
mostrou mais forte, mais imperiosa do que a sua situação econômica ou o fato de
pertencerem a camadas mais humildes da população.
Lélia Coelho Frota, antropóloga e especialista
em cultura popular, nos diz que "o primitivo, proveniente em geral de estratos
populares, olha com uma visão altamente pessoal através da cultura que recebeu, mas,
deslocando-se desta, difere também do artista erudito por não ter um conceito
intelectual da arte e da natureza formado por valores elitistas da civilização
ocidental".
Observação que nos leva a acrescentar que,
mesmo dominando muito bem a técnica, o fazer artístico, as pretensões intelectuais
desse grupo de artistas são imperceptíveis ou mesmo inexistem. O que os naïfs
pretendem, a grosso modo, é narrar uma história, reviver um momento ou eternizar
situações e fatos do cotidiano que lhes tocam o sentimento, que lhes preenchem a
existência.
Ou ainda, como nos revela de maneira mais
enfática a pesquisadora já citada: "Eles não se inserem num mundo à parte,
rústico ou pitoresco, ou trágico e socialmente reivindicador, sobre o qual nos
inclinemos como espectadores interessados. Apenas exprimem, com valores próprios, e uma
linguagem de igual importância à nossa, uma realidade interna comum à todos,
aproximando-a pela utilização de outros elementos. A arte, para eles, faz parte do fluxo
da vida. É mais um respirar natural do que uma atitude de exceção. Praticam o que
chamamos de arte sem atribuir-lhe uma quintessência sacralizada".
A descoberta do mundo das tintas e dos pincéis
acabou se transformando, para uma parcela significativa deles, em uma ótima oportunidade
de ser aceitos no seu grupo, de se integrar à sociedade. E como conseqüência, a
possibilidade de ser reconhecidos e valorizados, independentemente das usas origens, dos
seus padrões culturais e dos seus bens materiais.
O surgimento de dezenas de artistas naïfs de
valor e o interesse despertado pela sua arte fez com que muitos outros com melhor
situação econômica, intelectualizados e até com formação superior se sentissem
atraídos e se identificassem com o estilo ingênuo, procurando soluções que incluíam
tratamento e acabamento mais refinado, mais requintado. Essa ocorrência fundamenta a
nossa afirmação do quanto é abrangente e complexo o universo representado atualmente
por este gênero artístico.
Conseguimos identificar, convivendo lado a lado,
composições estéticas mais rústicas, criativas e de marcante expressividade, com
outras singelas, alegres, líricas e de criatividade diferenciada. O que leva à
necessidade de se aprofundar no assunto , de aprimorar o feeling, para descobrir as jóias
no meio das bijuterias.
A ausência de originalidade, a imitação, a
repetição, o interesse comercial imediato, por parte de muitos artistas que não são
instintivos, que não são espontâneos, podem provocar a descaracterização desse
gênero e transformá-lo rapidamente em arte convencional. É com o objetivo de peneirar e
de privilegiar a originalidade e a criatividade que as obras inscritas em cada edição da
Bienal Naïfs do Brasil passam por processo de seleção, visando refinar a qualidade
dessa grande mostra de artes plásticas e visuais.
Para os artistas naïfs, razão da existência
da Bienal, participar desta mostra de arte brasileira tem um significado especial e
valioso. É um evento que os privilegia em termos de reconhecimento, apoio e espaço para
que possam mostrar e difundir a sua criatividade.
Não há nada similar no Brasil à esta
iniciativa do SESC, que abre as portas aos artistas das mais remotas localidades, sejam
eles conhecidos ou não. Clóvis Júnior, de João Pessoa (Paraíba), disse em entrevista
ao jornal O Norte (8/7/98): "A Bienal é uma oportunidade única para os artistas
primitivos mostrarem para o Brasil um pouco do seu trabalho, em termos de pintura naïf. O
prêmio é sempre gratificante para o artista e para o trabalho. Ele enriquece a obra,
além de valorizar e aumentar a credibilidade perante o público, no entanto, só o fato
de participar já nos engrandece".
Ao mesmo tempo em que o SESC consegue mostrar
para a cidade esta importante corrente artística, traz também alguns artistas para um
contato direto com o público, em forma de ateliê aberto de pintura, oficinas e
depoimentos. São acontecimentos integrados que propiciam o aprendizado daqueles que
estão interessados. Estarão atuando nas atividades Carolina Silva, Dirceu Carvalho,
Edilson Araujo, Josinaldo Barbosa e Nilson Pimenta.
Paralelamente à mostra de artes plásticas, a
Bienal terá uma rica e diversificada programação voltada à cultura popular, com
espetáculos de dança, shows musicais, teatro adulto e infantil, oficinas para adultos e
crianças, ateliê aberto de pintura, lançamento de revista, depoimentos e exibição de
documentários.
Esta quarta edição da Bienal Naïfs do Brasil
propicia ainda a excelente oportunidade de um contato mais profundo com a obra da
consagrada artista Iracema Arditi, fundadora do Museu do Sol e uma das mais legítimas
cultuadoras do gênero naïf, homenageada com Sala Especial. Também é a grande chance de
conhecer ou rever as obras dos mais destacados representantes regionais de um estilo de
fazer arte que, assentado em uma despretensiosa simplicidade, consegue encontrar
soluções plásticas de criação instintiva que se impõem pela sua composição, força
e beleza. Os mais cândidos sonhos e sentimentos dos artistas brasileiros revividos
plasticamente nas suas obras de arte.
Antonio do Nascimento
Técnico do SESC e Curador da Bienal
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