
NAÏFS DO BRASIL
Pero Vaz de Caminha, em sua Carta, em certa
passagem registra que "nesse dia enquanto (os índios) ali andavam, dançaram e
bailaram sempre com os nossos, ao som de um tamborim nosso, como se fossem mais amigos
nossos do que nós seus. Se lhes a gente acenava, se queriam vir às naus, aprontam-se
logo para isso, de modo tal que, que se convidássemos a todos, todos vieram". Nasce
a Literatura Brasileira naquele Porto Seguro da Ilha de Vera Cruz, numa sexta-feira,
primeiro dia de maio de 1500. E é nessa primeira literatura que se conta, entre outros
atos de comunhão e ritos de iniciação, como nascem os nossos bailados e a nossa
música. A carta não fala de pinturas, embora reporte a exuberância de cores quentes das
flores e matas tingindo a terra, e o cromatismo vivo da plumagem dos pássaros riscando os
céus.
Nasce a arte brasileira num rito de comunhão.
Portugueses desterrados e tristonhos encontram-se com índios que já no primeiro dia,
viram pajens, a seguir escravos. E logo se encontram com negros africanos escravizados.
Três culturas estáveis se juntam pela marca do desterro, pela necessidade da
sobrevivência. Tudo se entrecruza numa espécie de "amaciamento" - como diria Gilberto Freyre - e se
interpenetra culturalmente, pela coexistência harmônica, para fundar o fenômeno de uma
arte nacional mestiça. A Arte Brasileira, filha de ninguéns -
como descrevera Darcy Ribeiro - , parente de mestiços
pretizados, esbranquiçados e aindiados (pardos, enfim), nasce forte, resoluta, engendrada
no profundo instinto de sobrevivência, permanência do ser e necessidade da expressão.
É alicerçada no filho bastardo de algum europeu, e no encontro de mestiços, afermentar
a mistura de informações sangüíneas e etnias culturais. Possui a robustez de morenos e
mamelucos destemidos e arrojados, e o enlevo de morenas e caboclas sensuais e meigas, de
moradas distantes, reais ou sonhadas, renovadas pela consangüinidade de uma nova raça.
Essas cores primárias, esses traços rudimentares, esse viço fundamental, essa
singeleza, sutileza e refinamento elementar de expressões, esse congraçamento de sonhos
ancestrais que se ajuntam numa mesma terra, essa afetividade e passionalidade, a
precariedade de quem inveja seus próprios meios para substituir como gente e como
artista, tudo isto se pode apreciar na fortuna estética, estética que congrega a BIENAL
DE ARTE INGÊNUA E PRIMITIVA - NAÏFS DO BRASIL, promovida pelo
SESC de Piracicaba. Nela estão representados dezoito estados brasileiros, dezoito brasis
dentro do Brasil, dezoito tempos diferentes dentro de uma mesma nação, pelos pincéis
autodidatas de noventa e seis artistas. Nessa exposição, alimentada por uma espécie de
"estética da fome", como diria Glauber Rocha, parece que voltamos à zona
rural, aos campos e roçados de onde todos os brasileiros um dia viemos; parece que nos
encontramos outra vez com os símbolos ancestrais que sedimentaram nosso país, forjaram
nossa identidade, fazendo o Brasil, Brasil.
Esta BIENAL DE ARTE INGÊNUA E PRIMITIVA é estupenda oportunidade de
olharmos o espelho de nossas raízes, de repensarmos o que somos, ou em que nos
transformamos, nesse mundo orientado pela marca modernosa da globalização. Retratando
lendas sedimentadas pelo tempo e projetando mitos de uma mundividência longínqua - o designado "inconsciente coletivo" -
é nessa faixa quase invisível que se incrementam as fontes pictóricas dos artistas
populares, os naïfs do Brasil. Aqui quem fala é a voz do povo, que deve mesmo ser a voz
de Deus: só ele escreve certo com linhas tortas.
Esta Bienal promovida pelo SESC é um sinal de redenção, é esperança
no futuro. Nela sobrevivem a nossa terra, as nossas cores, os nossos devaneios, os nossos
mitos e instintos, a nossa cordialidade e paixão
A nossa etnia de mestiços.
Noventa e seis pintores selecionados que promovem uma espécie de Etnopintura Brasileira.
Nesta exposição temos a Pintura Nacional em seu estágio cru, e não cozido, como a
diferenciara o antropólogo Levy-Strauss. A gente que vive num mundo automatizado, tão
fragmentado e distante das essências, tão fertilizado pelos cânones artísticos do
Primeiro Mundo, tão estratificado em classes e rituais da pressa metropolitana, tão
submisso às convivências do capitalismo, tão decorrente das regras da pós-modernidade,
em que o que parece vale mais do que é, enfim, esta Bienal nos colocará de frente com os
signos e símbolos de nosso idêntico. Esses artistas populares, ingênuos e primitivos
são alicerces da cultura. É através desses naïfs que muitas vezes a chamada Arte
Oficial vai-se alimentar; é dessa fonte que germina a seiva mais cristalina, e dela se
bebe quando nos cansamos de viver um mundo de ilusões e aparências. É nessas pinturas
que fala a voz do excluído. Assim como fazem nos países realmente cultos, devemos dar
vivas aos naïfs do Brasil.
Romildo SantAnna
Livre-docente e crítico de arte, é professor de
pós-graduação em Históiria da Arte da Unimar e Unesp.
É autor do livro Silva, Quadros e Livros. Um Artista Caipira
(Prêmio Casa de Las Américas - Havana, Cuba) |