A arte naïf é um registro estético que
permite ao espectador vislumbrar conteúdos imanentes de vida, alegria e prazer de ver e
viver a arte.
A atividade imaginava se origina de princípios objetivos inerentes aos
fundamentos básicos da psique humana. Ao não capturar a realidade a arte naïf revela
segredos e conceitos srtísticos indivizíveis, já sabiamente pressentidos pelos pintores
impressionistas franceses, na segunda metade do século XIX, que de imediato aceitaram o
pintor naïf Russeau, como um dos transgressores da ordem estética estabelecida, na
época, pela Academia.
A pintura naïf se impõe por sua autenticidade, ou seja pela veracidade
do seu discurso, síntese entre cultura popular e a visualidade urbana brasileira.
A apropriação de símbolos e mitos da cultura popular rural e da
periferia urbana é recuperada pelos artistas naïfs. Fragmentos urbanos e suburbanos são
ritualizados cromaticamente: Articulações Visuais que reciclam e resgatam sem recorrer
à mera estilização formal, valores de expressões plásticas populares.
Apesar da sua aparente ingenuidade, não esconde, tanto na percepção
espacial quanto na desenvoltura da cor, um entendimento sutil do mundo e uma compreensão
perspicaz do universo picturial.
Pinturas vigorosas, matéricas, ricas de colorido traduzem, sensivelmente,
o imaninário do povo. Não somente os aspectos prosaicos, descritivos, simbólicos, mas
também o caráter mitológico do inconsciente.
Para Roger Bastide "a arte não é um sistema fechado, pois recebe a
influência do meio exterior, transforma-se à medida que este meio muda". Assim o
ideário regional é revitalizado com freqüência pelos pintores naïfs, que também
expressam, segundo o pensamento de Arnold Hauser, "as atividades, os valores ou
visões do mundo de diferentes períodos, de diferentes classes sociais".
Sem a aspiração de analisar a complexidade tipológica de arte naïf ou
de explicar, historicamente, asua evolução, atento somente às características
expressivas, é possível assegurar a sua contribuição estética no contexto da
história da arte: Não se pode omitir a transcedência da alma subterrânea dos povos,
nem deixar de visualizar a criatividade de artistas que encontram nos registros e
informações populares uma síntese visual do universo plástico criador.
Para o pesquisador norte-americano Marc J. Curran a arte naïf resiste ao
crescimento urbano desordenado, ao êxodo rural, ao alheamento da juventude e
principalmente à falta de interesse do governo. "Pela arte popular pode-se aprender
de tudo sobre o país, política, história, religião, sociologia, movimentos
demográficos, um cotejamento entre as versões oficial e popular do Brasil".
O ato de criar é múltiplo e advém de inúmeras fontes. O embasamento
popular, que já sustentou a trajetória erudita de Tarsila do Amaral, Vicento do Rego
Monteiro, Djanira, Aldemir Martins e entre tantos outros artistas plásticos Gilvan
Samico, colabora, também, com a tarefa de desalienar comportamentos.
Partindo de elementos populares a pintura naïf, algumas vezes se desdobra
em construções elaboradas, próximas às composições contemporâneas. O raciocínio
espacial, a instensidade colorística e o próprio ato lúdico de pintar conduzem o
artista naïf a composições esquemáticas, construtivas, comuns a todos os povos desde o
período Neolítico. Para a arte primitiva o importante não é contar uma história, mas
ser história. Segundo Clarival do Prado Valladares "a arte surge a qualquer momento,
sob qualquer vivência diferenciada do seu produtor".
A economia de meios, própria da arte naïf, leva a soluções que mujito
artista erudito almeja, dando resultados tão surpreendentes quanto magníficos.
É viva como a vida, nela todos se refletem, todos se compreendem. Ela
não se limita à transposição de mitos e arquétipos populares urbanos ou rurais. Ao
documentar plasticamente a vida, a dor, e o prazer de viver da humanidade, aproxima-se,
muitas vezes, da arte universal.
A criação de uma iconografia figurativa (narrativa) e a não
utilização da perspectiva euclidiana convencional determinam, indiretamente, formas
próprias de ocupação compositiva (espacial) do quadro.
As prodigiosas metáforas visuais inventadas pelos pintores naïfs não
procuram explicar nem desvendar fatos ou ações, mas construir um referencial de acesso
ao imaginário. Um universo de soluções formais resultantes do fluxo/refluxo entre o
antigo e o novo, a tradição e a contemporaneidade tecnológica.
Para Eduardo Etzel a criação artística é algo que surge de dentro para
fora, faz parte da constituição do ser humano, desenvolve-se segundo as adversidades e
alegrias da vida. Assim, o artista naïf "cria por si mesmo obtendo logo de início o
que pretende, porque, sem o saber, o que cria já estava dentro de si mesmo". A arte
naïf documenta novas formas e novas maneiras de apreender e expressar os mistérios
insondáveis da vida com extraordinária vitalidade, e espontaneidade e beleza.
João Spinelli
Comitê de História, Teoria e Crítica de Arte do
ANPAP - Associação Nacional de
Pesquisadores em Artes Plásticas