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MPB
2002: raízes e antenas conectadas
Carlos
Calado
A imagem profética de uma nova atitude
musical na cena brasileira atual chegou a público
no início dos anos 90. Usando uma antena
parabólica enfiada na lama como símbolo
do movimento Mangue Beat, os músicos das
bandas pernambucanas Chico Science & Nação
Zumbi e Mundo Livre S/A apontaram o caminho para
a superação de uma polêmica
que marcou a cultura nacional durante o último
século: para dialogar com a música
de outros países, o brasileiro deve abrir
mão de suas raízes? Misturando ritmos
regionais, como o maracatu, a ciranda e a embolada,
com hip-hop, funk e hardcore, além de eletrificar
as cordas do tradicional cavaquinho, a resposta
dos "mangue boys" não deixava
qualquer dúvida.
Se
a consciência de que raízes e antenas
devem estar conectadas é flagrante nos
trabalhos musicais de muitos artistas brasileiros
da atualidade, vale lembrar que nem sempre foi
assim. No final dos anos 50, a Bossa Nova de João
Gilberto e Tom Jobim , principal cartão
de visitas da música brasileira no mundo,
foi acusada de desfigurar o samba tradicional
por meio da influência do jazz norte-americano.
Uma década depois, a Tropicália
de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Tom Zé
tentou superar essa polarização,
operando uma intervenção crítica
na cultura do país. Musicalmente, sintonizou-se
com o pop internacional da época, utilizando
instrumentos eletrificados e procedimentos da
música contemporânea, mas sem abrir
mão de ritmos e outros elementos regionais.
Ou seja, ligou as antenas, sem abandonar as raízes
mais características de nossa cultura.
A
ação inovadora dos tropicalistas
não impediu que o debochado Raul Seixas,
um ícone do rock brasileiro, declarasse
com ironia, em 1976: "Essa história
de procurar raízes é uma bobagem.
As únicas raízes que eu conheço
são de amendoim e mandioca". Não
foi muito diferente a concepção
da maioria das bandas e artistas ligados ao pop-rock
brasileiro, que dominou o cenário musical
do país, nos anos 80. Com raras exceções,
essa produção musical ficou relegada
apenas ao público brasileiro. Afinal, por
que cópias mal disfarçadas do rock
britânico da época, com letras em
português, interessariam a platéias
de outros países?
Uma
nova visão estética se estabeleceu
ao longo dos anos 90, reconhecível em vários
gêneros de música produzida no país.
Na chamada MPB (a corrente central da música
popular brasileira), por exemplo, uma geração
de compositores e intérpretes (não
necessariamente estreantes), como o pernambucano
Lenine, o paraibano Chico César, o maranhense
Zeca Baleiro ou a banda carioca Pedro Luis e a
Parede, concretizou em seus trabalhos (mesmo sem
essa intenção), duas décadas
depois, a essência do projeto tropicalista.
Esses artistas perceberam que a melhor maneira
de soar global é valorizar o que se possui
de local, de regional. Seguindo esse princípio,
tudo é valido: misturar ritmos do Nordeste
com drum'n'bass e outros estilos da nova música
eletrônica, injetar hip hop e rap na tradição
da batucada brasileira.
Se,
em décadas anteriores, a idéia de
preservar as raízes da música brasileira
chegou a ser tratada com descaso ou mesmo preconceito,
em nome de uma aparente modernidade, os anos 90
contribuíram para que esse ponto de vista
fosse questionado. Exemplo revelador de um trabalho
que prioriza as raízes brasileiras, sem
cair no folclorismo acadêmico, é
do grupo paulista A Barca, que desde 1998 viaja
pelo país para resgatar ritmos e recriar
danças praticadas em festas populares,
como o jongo, o carimbó, o coco e o samba
de roda, entre outros. Ainda nessa linha, também
se pode citar o grupo brasiliense Casa de Farinha
e a cantora e compositora mineira Consuelo de
Castro.
Nos
últimos anos, essa vontade de identificar
manifestações que não freqüentam
as rádios, TVs ou outros meios da indústria
musical tem estimulado projetos de mapeamento,
permitindo que as platéias dos grandes
centros urbanos possam conhecê-las e desfrutá-las.
O mais ambicioso deles é "Música
do Brasil" (2000), idealizado e conduzido
pelo antropólogo Hermano Vianna, que cruzou
o país durante um ano, transformando em
série de especiais de TV e uma caixa de
quatro CDs (Abril Music) os sons e imagens de
mais de cem grupos e bandas de diversos estilos
musicais, em cerca de 80 cidades do país.
Assim registrou-se o coco de Alagoas, o cururu
de Mato Grosso, a sambada de Pernambuco e o batuque
do Amapá, entre inúmeras manifestações
inéditas para o resto do país.
Se,
no "Música do Brasil", as gravações
foram agrupadas por afinidades temáticas,
o critério da "Cartografia Musical
Brasileira" (2000/2001) - projeto coordenado
pelo músico Benjamim Taubkin e produzido
pelo Itaú Cultural - foi geográfico.
A partir de cerca de 1700 inscritos foram selecionados
78 trabalhos de dez regiões brasileiras.
Na caixa de 10 CDs, editada com duas ou três
faixas de cada selecionado, puderam tornar-se
mais conhecidos pelo país alguns dos artistas
e grupos mais inovadores da música brasileira
atual, como o grupo paulista de percussão
corporal Barbatuques, a banda mineira de black
music Berimbrown, o guitarrista paraense Pio Lobato,
o grupo sergipano Lacertae, ou a compositora carioca
Suely Mesquita, entre outros.
Vale
mencionar também o projeto de mapeamento
"Bahia Singular e Plural", coordenado
pelo etnomusicólogo Fred Dantas, que já
resultou na gravação em campo de
92 manifestações do folclore baiano,
reunidos em uma coleção de seis
CDs (com outros programados em seguida). Assim
pôde ser mais socializado o acesso a cantos
de trabalho, sambas-de-roda, reisados, folias,
cantos de lavagem e outros preciosos gêneros
e aspectos musicais de origem essencialmente popular
da Bahia. Iniciativas como essa certamente vão
funcionar como preciosos arquivos, tanto de informações
musicais, como de material sonoro para ser utilizado
em novas criações de músicos
e "samples" para DJs.
Embora
menos abrangente, o projeto "Orgânico
Sintético" (Muquifo Records) também
não deixa de ser um mapeamento sonoro.
Compilação realizada pelo produtor
paulista Dudu Marote, reúne num CD duplo
24 dos artistas, DJs e produtores mais criativos
da cena da música eletrônica brasileira,
passando até pelo hip hop e pela MPB mais
contemporânea, como a rapper Nega Gizza,
o compositor Jupiter Apple e os DJs Dolores (de
Recife), Anvil X (de Belo Horizonte) e Flu (de
Porto Alegre), além de veteranos nessa
área. Gênero que se expandiu com
força e variedade impressionantes, a música
eletrônica já ultrapassou há
anos a fase inicial de modismo circunscrito a
clubes noturnos do eixo São Paulo-Rio,
tomando conta do país. Provas disso são
as associações e cooperativas de
DJs e produtores, que têm surgido em várias
regiões, como o Pragatecno (criado em 1998),
que se define como um "núcleo de e-music
no Norte-Nordeste" e reúne DJs de
várias capitais, ou a Zootek, pioneira
cooperativa de bandas eletrônicas brasileiras,
com sede em Curitiba.
Não
propriamente um mapeamento, a série "A
Música Brasileira Deste Século Por
Seus Autores e Intérpretes" oferece
um rico panorama de nossa música popular
no último século. Produzida por
Pelão e editada pelo SESC São Paulo,
reúne gravações e transcrições
de depoimentos, realizados originalmente por Fernando
Faro para seus programas de TV. Até agora
a série destaca 75 CDs e seis livros com
compositores, cantores e instrumentistas de vários
gêneros urbanos, do samba de raiz à
chamada MPB, incluindo também algumas manifestações
regionais.
Muitos
outros exemplos poderiam ser extraídos
de vários segmentos da atual produção
musical do país, seja a black music, o
pop ou a música instrumental, que confirmam
uma mesma atitude: o músico brasileiro
afinado com a cena global sabe que raízes
e antenas são fontes de igual valor.
Carlos
Calado é jornalista, crítico musical
e autor dos livros "Tropicália - A
História de Uma Revolução
Musical" e "A Divina Comédia
dos Mutantes", entre outros.

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