| 20/11/2002
- Tamsin Austin
Quanto
pode ser recolhido sobre a cultura e a música
de um país cem vezes maior que a Escócia
em apenas dez dias
? Minha viagem de pesquisa
ao Brasil foi como uma excursão corrida
de São Paulo a Recife a Baracena no Pará
e finalmente ao Rio. No caminho, tocamos, dançamos
e conversamos com muitos músicos, e absorvemos
uma torrente de sons de tirar o fôlego.
Do rangido cru da rabeca e do canto sentido de
Mestre Salustiano na poeira de um Forró
em Olinda até o balanço doce dos
vocais de uma jovem cantora de samba num bar esfumaçado
do Rio. Metralhadoras de rap e beat-box do Z'África
Brasil e as deliciosas e melancólicas levadas
da Orquestra Popular de Câmara em São
Paulo, a tradicional lambada do Pará passando
aos metais ardidos e os desafios cantados de Maracatu
em Recife... sem mencionar a contínua trilha
sonora de MPB nas rádios das cidades
Estava tudo ali, esboçando o mapa musical
de um país rico não apenas por sua
própria música indígena,
mas também pela música dos muitos
povos que o colonizaram. Música que, mantendo
o sentido de sua origem, em muitas regiões
desenvolveu sons extremamente contemporâneos.
Nunca
fica tão evidente o fato de a música
ser uma linguagem comum por todo o mundo como
quando se viaja por um país cuja língua
você não fala. Onde a música
é tocada pelas mesmas razões que
ela é tocada em qualquer lugar do mundo,
para dançar, festejar, por entretenimento,
as raízes são as mesmas. O Forró
em Olinda, por exemplo, um baile da comunidade
com música tocada por membros da própria
comunidade, é um evento social com as mesmas
características do "ceilidh"
escocês, da dança Cajun ou de uma
Milonga argentina.
Na
Escócia geralmente se sabe pouco sobre
a música brasileira fora Astrud Gilberto
e DJ Marky e onde ávidos fãs precisam
esperar a noite inteira para ouvir Azymuth ou
Gilberto Gil no programa de Gilles Peterson, na
Radio 1, ou sintonizar nos programas ocasionais
de "world music" na Radio 3. Chegando
ao Brasil, foi uma revelação encontrar
tantas outras músicas ali. É fascinante
pensar que o projeto MPBBPM pode abrir nossos
olhos e ouvidos e aprofundar nossa compreensão
da música brasileira na Escócia,
e, finalmente, influenciar novas músicas
a serem criadas pelos músicos dos dois
países.

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