Aos que me leem com coração,

31/03/2025

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POR MARIANA FERRARI 
ILUSTRAÇÃO MARINA QUINTANILHA 

Leia a edição de ABRIL/25 da Revista E na íntegra

Serra da Cantareira, 17 de janeiro de 2025

Antes, quero pedir ajuda. Não deixem que a história que aqui resgato seja perdida no poço fundo de minha memória. Guardo-a com medo de perdê-la, como se soltar as informações fizesse das palavras um sopro de vento. Tenho medo de as palavras sentirem a ventania e não mais regressarem ao meu poço fundo de memórias vivas. Por isso peço: guarde comigo esta história. Se juntarmos os fragmentos em muitos poços, fica mais difícil delas fugirem pelo ar. Desculpe começar esta carta com um pedido de promessa. Preciso ganhar força, de um jeito que minhas palavras cheguem até vocês sem jamais conhecer o ar. É uma história que precisa de respeito e reza para começar.  

As árvores, neste dia, começaram a falar comigo. As árvores falam, isto é verdade, vou reformular: passei, então, neste dia, a escutar as árvores e a conversar com os mortos. Havia muitas delas, enfileiradas, as árvores: tinham um tronco liso, como a coxa de uma criança. Com os chinelos de dedos, eu abraçava aquele labirinto. Algumas me pediam carinho, outras, optavam pela solidão. Com os pés ligeiros, eu percorria os caminhos daquele chão de terra batida e úmida. Cansada, uma delas me chamou. Eu segui a voz e parei diante da anciã. O tronco dela tinha a precisão dos anos. Frágeis, meus dedos inocentes percorreram uma ferida tão grande que mais parecia uma porta arredondada. Uma árvore que dava passagem para um outro mundo. A ferida da árvore mais parecia uma junção de fissuras. Era uma parte áspera. Depois, fui entender que não existe passagem entre mundos sem aspereza, porque o conhecimento também é um machucado que não cicatriza. Cada vez que tocava nesta parte do tronco, sentia uma dor que parecia me ensaiar para as tristezas que viriam enquanto eu pisasse viva nesta terra. Eu ainda não sabia que viver era um pouco se machucar também. Com meus olhos de criança, encontrei uma forma de coração no meio do tronco ferido. Alguém poderia ter deixado o registro com a ponta das chaves. Mas, a mim, era a entrada para um lugar desconhecido, que é também um pouco como o nosso coração, faz chorar ao mesmo tempo que é bom. E ali, naquele coração raspado no tronco de uma árvore anciã, eu entendi que a solidão neste mundo trata-se de uma mentira que os adultos nos dirão com frequência — e que a morte é só a adaptação da linguagem para falar com outro plano. Enquanto a árvore me contava a sua história na ponta de meus dedos miúdos, um adulto surgiu e disse que aquela era a entrada de um portal, que ao atravessarmos estaríamos dentro do vale dos mortos. E tem como sair de lá? Ninguém nunca voltou para contar. De pavor, corri para longe daquela árvore anciã. Os pés tão apressados deixaram para trás os chinelos. Corri a ponto de escutar a minha respiração, cheguei nos braços dos meus pais e senti um pouco o que é se sentir em casa. Não lembro se tomei água ou fui deitar. Mas sei que o homem voltou para o chalé — estávamos em um hotel —, talvez por remorso ou porque a árvore tenha lhe dito algo. Contou alguma história que meus pais acreditaram. Criança é assim mesmo. A partir desse dia, passei a confiar mais nas árvores e nos mortos do que nos homens. Ao escutar os troncos, estamos sujeitos a reconhecer o que somos naquilo que já fomos. Com os homens, passamos a escutar a nossa respiração e a correr tão rápido que esquecemos os chinelos para trás. 

Mariana Ferrari é escritora, jornalista e fundadora do projeto Carta por carta. Já publicou textos no El País, Le Monde Diplomatique, TRIP, entre outros. Escreve, mensalmente, cartas e contos no Carta por carta, além de ministrar oficinas de escrita. É autora do livro Entre o caos e a humanidade (Patuá, 2021).  

Marina Quintanilha é artista visual nascida em São Paulo. Desenvolve seu trabalho no trânsito entre as linguagens da pintura, da animação experimental e do cinema, criando narrativas a partir da imagem que se situam entre realidade e ficção. 

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