Caetano Galindo: linguista do cotidiano 

31/03/2025

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POR MARCEL VERRUMO 
FOTOS DE NILTON FUKUDA 

Leia a edição de ABRIL/25 da Revista E na íntegra

“Toma então este Ulysses. É teu. Ficou dez anos comigo e agora eu me despeço dele”, escreveu o tradutor Caetano W. Galindo na nota de apresentação do clássico Ulysses (Companhia das Letras, 2012), de James Joyce (1882-1941). A declaração foi escrita após traduzir mais de mil páginas entre 2002 e 2012. O trabalho rendeu frutos: além de bem recebida pelo público, a tradução foi agraciada com os prêmios Jabuti de Literatura (2013), Associação Paulista de Críticos de Arte/APCA (2012) e da Academia Brasileira de Letras (2013). Galindo, professor do curso de letras na Universidade Federal do Paraná (UFPR), ganhou projeção nos círculos literários nacionais, recebendo convites para cursos e traduções, além da escrita de livros autorais, dramaturgias e exposições.  

Uma década depois, o autor surpreendeu seus leitores com um título relacionado à popularização científica, Latim em pó: Um passeio pela formação do nosso português (Companhia das Letras, 2022). Com uma escrita envolvente e rigor acadêmico, Galindo explora as etapas de formação da língua portuguesa, bem como as tradições, culturas e povos que influenciaram o idioma. “O Brasil tem inúmeras áreas com uma cegueira gigantesca do que se produz na academia. E eu me interesso em conversar com mais gente, em conversar fora da universidade”, revela. No último mês de março, a missão de popularizar conhecimentos acadêmicos continuou com o lançamento da publicação de Na ponta da língua: O nosso português da cabeça aos pés (Companhia das Letras, 2025), uma jornada sobre a origem das palavras com ferramentas para que os leitores investiguem nosso idioma.  

Nesta Entrevista, Galindo reflete sobre a língua portuguesa falada e escrita hoje no Brasil, revela detalhes do seu processo criativo e de sua carreira como escritor e dramaturgo, além de contar como, passada uma década, a tradução de Ulysses ainda reverbera em sua vida.  

A língua portuguesa é falada por cerca de 300 milhões de pessoas e, em uma diversidade de países, ela é o idioma oficial, como Angola, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe. Ela também sofre variações dentro do mesmo país, com mudanças entre a fala e a escrita. Tantas variações justificam esses falares serem considerados uma única língua?  
Essa pergunta é supercomplicada, porque às vezes a gente tende a pensar em problemas da área das humanidades querendo transferir critérios que são das ciências quantitativas. O pertencimento de uma comunidade a um idioma é algo que, no final, é, fundamentalmente, decidido pela vontade de pertencimento dessa comunidade. Não existem critérios objetivos que me permitam olhar para dois grupos de falantes e dizer se a distância entre o que eles falam caracteriza aquelas duas falas como duas variedades de uma mesma língua ou como duas línguas diferentes. O mundo está entupido de coisas que, objetivamente, seriam idiomas diferentes, mas que os falantes consideram como variedades de um mesmo idioma; e está entupido também de coisas que deveriam ser um mesmo idioma, mas que os falantes consideram idiomas diferentes. Vai depender de uma vontade política, de uma sensação de parentesco, pertencimento, proximidade, referência histórica comum. E isso tudo é muito forte no universo da língua portuguesa, inclusive porque a língua portuguesa é originalmente de um país, um pequeno país que levou esse idioma e colonizou diversas regiões. É uma família de fato. Todas essas variedades da língua portuguesa são decorrentes daquele ponto original em Portugal.  

Seria melhor falarmos em “línguas portuguesas”?  
Eu diria que sim. Assim como diria que isso é algo válido para qualquer grande idioma transnacional. O inglês é um conjunto de ingleses, o francês é um conjunto de franceses. Quaisquer dessas línguas, especialmente as línguas que serviram aos aparatos coloniais desde o século 16, hoje são conjuntos muito complicados de variedades, visões de mundo. Tudo se resume à sabedoria de João Guimarães Rosa (1908-1967): “É questão de opiniães”. Eu, particularmente, fico muito mais feliz de olhar a multiplicidade e me maravilhar com o escopo possível de coisas diferentes.  

Como foram construídas as distâncias que existem entre a língua portuguesa escrita e a falada no Brasil?  
Todos os grandes idiomas do mundo vivem esse dilema a partir do momento em que a escrita chega à sociedade, trazendo a escolarização, trazendo usos diferentes. No caso do português do Brasil, o país hoje é usuário de duas versões da língua portuguesa. Uma versão que evoluiu “solta no pasto”, vivendo a vida e sendo mastigada, maltratada, enriquecida, alterada pelo uso real dos falantes. Também pela contribuição dos africanos escravizados, dos falantes de comunidades originárias indígenas brasileiras, que evoluiu de uma maneira natural e, com isso, se afastou de certos padrões europeus. E existe outra variedade, que é a nossa variedade escolar, aquela que ninguém fala, que a gente tem que aprender na escola e que vai contra o que é estritamente autêntico nosso. Essa língua foi formada no Brasil de uma maneira meio artificial, em um estreito contato com a norma lusitana a partir do século 19. Isso fez a gente criar, ao longo do século 20, essa situação louca em que o brasileiro é essa estranha pessoa que diz: “eu não falo bem a minha própria língua”. Isso é de um grau de perversão social, como chegar para uma população inteira e dizer que ela usa mal essa parte constituidora de sua alma e história. Isso é muito cruel e foi usado intencionalmente durante muito tempo, por gerações.  

E como pensar o uso da linguagem neutra, com o uso das letras “e” e “x”, criando palavras como menine ou bonitx?  
A grande briga da linguagem neutra, da linguagem inclusiva, não é pela alteração do idioma. Eu acho que as próprias pessoas que defendem essas alterações sabem disso. Alterar o idioma não vai mudar nada. Alterar o idioma não vai alterar o preconceito. Alterar o idioma é cosmética. A grande briga é fazer as pessoas discutirem esse assunto. É lembrar para as pessoas: “a gente existe, a gente ocupa um lugar na sociedade e precisa ser incluído na conversa de vocês.” Um projeto de lei que proíbe o uso da linguagem neutra está concedendo vitória às pessoas que dependem dessa batalha, porque mantém o assunto na mídia, dando sinal de que isso incomodou. Eu acho isso maravilhoso. A discussão em torno da linguagem neutra é a grande prova de que o brasileiro está se adonando da língua portuguesa, está tomando posse do seu falar – a sociedade civil brasileira está interessadíssima por uma questão linguística. E ninguém está perguntando o que Portugal acha disso. Ninguém está perguntando o que a ABL [Academia Brasileira de Letras] acha disso. A gente está brigando em praça pública e de unha. E a briga que está por trás é gigantesca. Eu acho que ela está sendo vitoriosa de um jeito subversivo que me encanta. Nesse sentido, é uma batalha na qual, paradoxalmente, os linguistas têm pouco a acrescentar. Quando essa discussão começou, eu era um professor mais jovem e me lembro de me manifestar sobre como as línguas funcionam e como a sociedade se articula. Eu levei anos para perceber, mas a discussão não é de língua, a discussão é de sociedade. Nesse sentido, eu sou tão membro da sociedade quanto qualquer um de vocês.   

De que modo outras mudanças na língua portuguesa foram assimiladas pela sociedade em outros períodos da história?  
Um idioma é uma panela de pressão de variedades em conflito, em sobreposição, em atrito. E uma delas, normalmente, vai começar a ganhar espaço e vai começar a suplantar as outras. Portanto, primeira verdade sobre os idiomas: sempre existe variedade. Segunda: a variedade leva à mudança. Terceira: a mudança nunca interessa a quem está no topo. Quem está no topo quer que as coisas fiquem como estão. Quem está por baixo tem interesse em qualquer coisa que sacoleje o barco para ter possibilidade de acesso. Isso se dá em qualquer área. Logo, a mudança, quando surge, surge por baixo. E quando ela surge, é mal-vista por quem está em cima, é estigmatizada, tabulizada e é marcada como erro, feio, decadência. Como eu costumo dizer para meus alunos, desde que existe escrita, existe alguém escrevendo: “os jovens estão acabando com a língua”. Você encontra isso na Babilônia. Por quê? Porque o jovem fala diferente. E o diferente é visto como mal, como ruim, como degradação. Mas as pessoas vão morrendo, os jovens vão envelhecendo e vão levando a sua nova variedade para o poder. E a língua muda. Então, a gente constata que tudo o que hoje é padrão, purista, preciosista e elevado, um dia foi erro, tosco e grosseiro. O mais refinado português de Camões (1524-1580), o português do Machado de Assis (1839-1908), o português das atas e minutas da Academia Brasileira de Letras, se vistos por alguém de 1300 anos atrás, são apenas versões decrépitas daquela língua.  

Um idioma é uma panela de pressão de variedades em conflito, em sobreposição, em atrito, em contato e uma delas, normalmente, vai começar a ganhar espaço e vai começar a suplantar as outras 
O escritor Caetano Galindo no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo

Como tem sido trabalhar na divulgação do conhecimento acadêmico sobre a língua portuguesa para um público não especializado?  
O Brasil tem inúmeras áreas com uma cegueira gigantesca em relação ao que se produz na academia, ao que se conhece na academia e ao que é de trânsito comum na sociedade. É um perrengue e é penoso encontrar esse meio do caminho que te permita escrever sem ser crucificado pelos colegas e gerando algum interesse entre a população. Para minha imensa sorte, eu tive uma trajetória de atuação que foi me capacitando para isso. E me interesso em conversar com mais gente, em conversar fora da universidade.   

Antes de escrever ensaios sobre a língua portuguesa, você trilhou uma trajetória como tradutor de obras de autores da língua inglesa, como James Joyce. Isso também influenciou seu entendimento da língua portuguesa?  
Ah, muito. A literatura brasileira se formou tendo que andar entre a língua que a gente fala de verdade e a língua que a escola quer que a gente fale. Só que, quando sou eu que estou escrevendo, como autor, eu posso escolher deixar certas palavras de lado e evitar certos dilemas. Eu decido qual é a linguagem que quero usar. Quando você traduz, você não tem essa escolha. Se no livro que estou traduzindo, há diálogos escritos numa linguagem que não ofende as regras da escola nem a percepção do falante de que aquilo é uma frase que pode ser dita, eu tenho que encontrar esse lugar em português. A escrita de diálogo na prosa brasileira evoluiu muito à custa de tradução. Traduzir, especialmente do inglês, que é o que eu faço fundamentalmente, me forçou a encarar nossos problemas linguísticos e me fez entender muito o tamanho de alguns absurdos do nosso idioma.  

Você ainda tem um trabalho como ficcionista, na literatura, que lhe rendeu livros premiados, como Ensaio sobre o entendimento humano (Biblioteca Pública do Paraná, 2013), e na dramaturgia, com Ana Lívia (2023), obra montada no Sesc Consolação pela diretora Daniela Thomas e pela atriz e codiretora Bete Coelho. Como é seu processo criativo na ficção?  
Eu queria ser músico, estudei música a vida inteira, mas machuquei a mão e não pude ser. Então, todas as outras coisas hoje são como um prêmio de consolação. Tudo que fiz na vida, eu fiz porque as coisas foram me levando, as pessoas foram me convidando, e eu fui aceitando. Nunca tive uma meta. Vejo escritores como pessoas que querem ser escritores, que têm um projeto, pensam nisso, projetam uma carreira. Isso não existe para mim. Eu escrevi um livro de contos, porque tinha um edital de um concurso e pensei: “ah, eu queria entrar nesse edital.” Aí, juntei umas coisas e escrevi outras. Publiquei um livro de poesia que tem 20 anos de produção ali dentro. E eu escrevi um romance porque meu irmão queria algo para o site dele e eu inventei a ideia de escrever um romance em folhetim, ao longo de dois anos. Então, eu não tenho um método. Escrevi quando houve um interesse ou uma necessidade. Não sei se um dia vou escrever outro romance, outro conto ou outro livro de poesia.   

E em relação à dramaturgia?  
Dramaturgia é diferente. Surgiu completamente do nada, a partir de um primeiro convite do Felipe Hirsch para trabalhar em Língua brasileira antes da pandemia, peça que acabou estreando em 2022, no Sesc Consolação. Depois, houve um convite da Bete Coelho para fazer Molly Bloom – ela usou a minha tradução do Joyce. Acabei entrando de cambulhada nesse mundo do teatro. De 2022 para cá, estive envolvido em oito peças.  Trabalhos muito diferentes, às vezes como coautor, às vezes como dramaturgo solo, às vezes como consultor. É um mundo que me encanta absurdamente. Só o fato de estar aqui, no backstage, de ver montarem o cenário, afinarem a luz, ver as coisas acontecerem, é um presente dos deuses do acaso: jogaram o nerdzinho no teatro! Torço para que os convites continuem existindo, porque têm me dado muita felicidade. Os meus livros não foram mal-recebidos e eu adoro que as pessoas leiam, tenho muito orgulho deles, do meu romance Lia (Companhia das Letras, 2024). Mas o teatro tem uma coisa diferente, tem algo viciante.  

Como um dos grandes especialistas no Brasil da obra de James Joyce, você identifica ressonâncias desse autor na sua obra?  
[James] Joyce está em tudo que faço na vida. Eu trabalho com ele há 25 anos. Ele me deu a minha carreira, me deu projeção. Tudo vem dali, do fato do livro Ulysses ter aparecido e as pessoas terem percebido que existia um cara que o traduziu. Foi um efeito dominó. Eu consigo fazer exatamente a cadeia de passos que me levou desse livro àquele livro, àquele projeto, a uma entrevista num podcast que foi ouvida por uma pessoa que falou com o Felipe Hirsch, que resolveu me convidar para o teatro. Eu sei exatamente como cheguei aqui. Todos os meus caminhos convergem para o dia em que decidi traduzir Ulysses, para o dia em que decidi ler Ulysses. E a minha mudança de vida, de carreira, de produção, de tudo, é integralmente devido à presença dessa obra monstruosa desse escritor maravilhoso, fora de qualquer curva, que para minha sorte caiu no meu colo há muito tempo.   

Como todas essas diferentes frentes de trabalho se conectam na sua obra?  
Há muito tempo, estou com medo de que um dia alguém me faça essa pergunta e eu já ensaiei a resposta várias vezes. Primeiro, tudo se conecta por acaso, por uma firme crença na ideia de que dizer “sim” para propostas estranhas é interessante. No fundo, se conecta por uma fixação pela língua portuguesa. A minha grande empolgação é ver como as pessoas falam, o que a gente faz com a língua. O meu grande barato é a língua portuguesa, a nossa língua portuguesa falada neste lugar. E o que ela fez da gente, o que a gente fez com ela, o que a gente ainda é capaz de fazer com ela, as coisas incríveis que estão para ser feitas. Isso é combustível e parque de diversões. Para mim, isso não é trabalho. 

Assista a trechos da entrevista com Caetano W. Galindo, realizada em fevereiro de 2025, no Centro Cultural Fiesp, em São Paulo. 

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