POR MARIA JÚLIA LLEDÓ E MARCEL VERRUMO
FOTOS DE NILTON FUKUDA
Leia a edição de ABRIL/25 da Revista E na íntegra
Entre a Serra da Mantiqueira e a Serra do Mar, o Vale do Paraíba é mais do que um acidente geográfico natural onde colonizadores se estabeleceram a partir do final do século 16, como descrevem os livros de história. É que algo de pitoresco passou a habitar um dos 39 municípios que constituem a Região Metropolitana do Vale do Paraíba e Litoral Norte (RMVPLN) no Estado de São Paulo. Desse território brotaram seres encantados que hoje cruzam ruas e avenidas, dando-lhes a graça. Basta virar à esquerda na Emília, dobrar na esquina da Nastácia, seguir pela Marquês de Rabicó e encontrar seu destino no Picapau Amarelo. Pronto: você chegou a Taubaté, capital nacional da literatura infantil. Das páginas de Sítio do Picapau Amarelo – série composta por 23 livros escritos entre 1920 e 1947, pelo taubateano Monteiro Lobato (1882-1948) –, esses e novos personagens começaram a pulular na cidade. Enquanto se prepara para celebrar 380 anos, esse município de pouco mais de 321 mil habitantes resiste como território fértil para a criatividade, sendo espaço de manifestações culturais tradicionais e, também, celeiro de jovens artistas.
Pesquisador e criador do Almanaque Urupês, página dedicada à cultura, história e curiosidades de Taubaté, Pedro Rubim nasceu na zona Sul da capital paulista, mas é morador e entusiasta desse município do vale paraibano. Ele explica que a história oficial de Taubaté começa em 1645, quando surgem registros contínuos do dia a dia administrativo da vila, como testamentos e inventários. No período colonial, a cidade se desenvolveu como área de expansão do governo português e manteve sua importância no ciclo do ouro até metade do século 18. Depois disso, ascendeu ao se tornar uma zona de abastecimento de produção de cana de açúcar e, posteriormente, de café. “Com o dinheiro do café, Taubaté começa a investir em cultura. O primeiro grande marco disso é o surgimento da imprensa em 1861. Então, os letrados começam a criar algo particular, começam a discutir a cidade, a publicar poemas. Quando chega o trem, essa coisa amplia mais ainda. Você passa a ter teatro, por exemplo, por volta de 1876. Aí surgem associações literárias e artísticas, uma pré-história da formação cultural moderna de Taubaté”, explica o pesquisador.
Paralelamente ao surgimento de expoentes da elite cultural, a partir do final do século 19, a exemplo do escritor Monteiro Lobato, homens e mulheres fora das páginas da história oficial mantiveram vivas expressões culturais enraizadas na cidade. Hoje, dentre alguns herdeiros, está Geraldo de Paula Santana Filho, líder da Companhia de Moçambique de São Benedito do Parque Bandeirante, em Taubaté, fundada em 1947. Mestre Paizinho, como ficou conhecido, é considerado um dos mais respeitados mestres da cultura tradicional do Vale do Paraíba, região reconhecida por manifestações de moçambique [dança-cortejo de origem afro-brasileira], congada, catira, jongo, folia de reis, entre outras. Há mais de 20 anos, ele se encarrega de levar às escolas da região um projeto cultural dedicado a danças populares. Nas oficinas, ao perpetuar o que aprendeu com o pai e seus ancestrais, Mestre Paizinho acredita na importância da preservação da cultura popular para que as próximas gerações não percam esse “tesouro”, como gosta de enfatizar.
Para o pesquisador Pedro Rubim, ainda que uma mentalidade conservadora tenha protagonizado episódios da história da cidade, como o passado colonialista, Taubaté é composta por outras camadas de formação. “A pesquisadora e professora Maria Morgado [1919-2008] escrevia que essa é uma velha cidade que tem muito a contar”, destaca Rubim.
Tradição acesa
Além da resistência de expressões da cultura afro-brasileira, a arte das figureiras – artesãs que do barro criam personagens do folclore local – é outra manifestação da cultura popular de Taubaté. Das mãos que coletam o barro, moldam e pintam, criam-se carneiros, vacas, galinhas e o famoso pavão azul, eleito símbolo do Artesanato Paulista em 1979. Na Casa do Figureiro, elas expõem e vendem suas artes – lá também podem trabalhar num espaço que funciona como oficina. Neste ponto turístico, os visitantes conhecem um pouco mais sobre essa tradição que remonta ao final do século 19, quando frades franciscanos do Convento de Santa Clara, em Taubaté, montaram um presépio com peças vindas da Itália. Admirados, moradores do bairro da Imaculada começaram a copiar aquelas figuras com a argila retirada do rio Itaim.
Como os santos eram mais difíceis de modelar, a população passou a se dedicar às figuras que compõem o presépio e, também, a cenas do cotidiano. Figureiro, aliás, é um termo inventado que não está nos dicionários. Além dos animais, “começaram a fazer moças trabalhando: tirando água do poço, lavando roupa, ou seja, representavam na argila o que viviam e o que viam”, conta Raíssa Sampaio, de 31 anos, que dá continuidade ao ofício aprendido com a mãe, quando tinha apenas quatro anos. Hoje, as duas filhas de Raíssa também fazem suas próprias criações. “Minha mãe cuidou dos quatro filhos com o dinheiro da argila. Então, foi muita luta. Tenho muito amor por isso”, destaca.
A figureira Tânia Sampaio, prima de Raíssa, também mantém na família essa expressão cultural. “Tenho 59 anos e faço desde criança, porque aprendi com a minha avó. No começo, eu criava pecinhas para brincar. Minha mãe, meu irmão, as minhas primas, somos todos figureiros. Eu sou da terceira geração e a minha filha também faz um pouco, meu filho e minha netinha também”, orgulha-se. De todos os tamanhos – e até como ímã de geladeira – as cerâmicas das figureiras saem de Taubaté e ganham o mundo. “Eu até brinco: meu pavão voou. Tenho uma lista, na minha agenda, de vários países para onde foi, como Bélgica e Japão”, acrescenta Tânia.
Resistência cultural
Território de nomes que marcaram a história cultural brasileira, como o ator, cantor e cineasta Amácio Mazzaropi (1912-1981), homenageado na Praça Santa Terezinha, com uma estátua como o personagem Jeca Tatu, Taubaté segue sua vocação. Na música e no teatro, Adalgiza Américo faz da cultura uma ferramenta de luta contra o racismo desde que viu sua vida se transformar ao interpretar tia Nastácia no Sítio do Picapau Amarelo, como é conhecido o Museu Histórico Folclórico e Pedagógico Monteiro Lobato. Nas apresentações, onde atores se caracterizam como os personagens da obra-prima de Lobato, Adalgiza interpretou, por seis anos, a primeira Nastácia negra do elenco fixo.
“Sou uma mulher preta, vou fazer 40 anos e eu não tinha muitos personagens pretos na minha infância. Quando a tia Nastácia caiu nos meus braços, eu só coloquei na personagem tudo o que aprendi com os meus avós. Foi o meu primeiro emprego e não foi fácil no início, porque a referência era de mulheres brancas fazendo a personagem. Pensei: como mulher preta, eu preciso dar uma reviravolta nisso”, conta Adalgiza, que se formou em teatro pela Escola Municipal de Artes Maestro Fêgo Camargo.
Prima de Mestre Paizinho, a atriz e cantora tem na família a raiz da cultura popular. “Por conta da Nastácia, que na obra do Monteiro Lobato, assim como o tio Barnabé, representa o povo e o folclore, acabei juntando o que é da minha história de vida dentro do sítio. Então, eu fui uma tia Nastácia que realmente cozinhava, fazia bolinho de chuva e, quando era época de Semana Santa, eu cantava no terreiro, principalmente samba de roda. Na chegada dos turistas, socava paçoca no pilão e ensinava a receita para o público”, recorda.
Adalgiza, que também é arte-educadora, integrou o mandado coletivo Representa Taubaté na Câmara Municipal de Taubaté, de 2020 a 2024. Neste ano, retornou à cena cultural, tendo na bagagem outro olhar para os desafios e políticas públicas de fomento. Nas rodas de samba, é convidada a cantar em iniciativas dentro da cidade e em municípios vizinhos. Para a artista, a atual geração tem a missão de fortalecer seu trabalho localmente, mas também, as manifestações culturais tradicionais. “A gente precisa ser esse escudo dos nossos ancestrais. Precisa ter força para dar continuidade a esse movimento na cidade”, acredita.
Palavra Viva
Na capital nacional da literatura infantil, outros autores pedem passagem para ocupá-la com novos personagens e enredos. Como o caramujo Marujo, que escolheu não mais navegar e passou a viajar para dentro. Ou o passarinho Universo, que logo ficou em pé, pronto para abrir as asas pelo mundo. Esses e outros protagonistas foram criados pela escritora paulistana Vana Campos, que cresceu cercada de figuras do mundo literário e artístico e logo se viu abraçada por um universo lúdico. Nomes como Millôr Fernandes (1923-2012) e Ziraldo (1932-2024) zanzavam em sua casa, uma vez que seu pai trabalhava como editor de livros de artes.
Psicóloga apaixonada pela paleta de temas da literatura infantil, Vana já publicou mais de dez livros, sendo os mais recentes, de 2024: Encaramujado (PeraBook), ilustrado por Raquel Matsushita, e Universo, o Passarinho, ilustrado por Vanina Starkoff. Este último, inclusive, foi editado pela Cachecol Editora, que Vana Campos idealizou e tem sede em Taubaté. Aliás, foi na cidade onde a escritora mora há 18 anos que ela deixou a imaginação correr solta.
“Tenho dois filhos, agora já são pré-adolescentes, mas acho muito divertido porque seus amigos ainda passam na rua e os chamam para jogar bola, catar fruta. Então, essa dinâmica da relação das crianças com a cidade, de poderem se encontrar na praça, isso me anima a escrever essa literatura que é para as infâncias, mas também é para todas as idades”, destaca.
Da palavra escrita à palavra falada, na batalha de rimas se constrói uma ponte por onde as juventudes da cidade expressam suas histórias no compasso do improviso. Inserida no movimento hip-hop, que surgiu nos Estados Unidos na década de 1970, a batalha de rima chegou ao Brasil nos anos 1980 e se difundiu por diferentes regiões do país. Artista independente e agente cultural, Mano Zã faz parte da nova geração desse movimento, e tem como referência nomes como o rapper Nego Max, criado em Taubaté. “Aprendi e comecei a rimar e a improvisar em 2016, só que no meu círculo de amigos, ninguém praticava, então eu ficava isolado. Aí, pensei: ‘vamos organizar um evento e ver se alguém aparece’”, lembra.
Na época em que começou, aos 17 anos, Mano Zã não fazia ideia da necessidade da infraestrutura para organizar um evento, nem da quantidade de jovens de Taubaté que queriam participar das batalhas de rimas. Tampouco sabia o número de pessoas interessadas em acompanhar, como público, duelos cujas “armas” eram palavras apontadas na hora, no improviso. Depois de organizar, de 2017 a 2020, a Batalha da Colheita, o artista foi somando aprendizados e fundou, em 2021, o Duelo de Rua, que já se apresentou no Sesc Taubaté. “O freestyle e as batalhas de rima são um organismo vivo. A gente está falando de improviso, então não tem nada pronto. O show, a mágica, a gente nunca sabe o que esperar. Para mim, a beleza desse movimento está aí: a gente se surpreende todas as vezes”, explica.
Foi a partir do Duelo de Rua que Mano Zã notou a necessidade do aprofundamento de um debate sobre estrutura e profissionalização desses artistas independentes. Isso abriu caminhos, principalmente, para um diálogo com a prefeitura e instituições culturais da cidade. “Então, eu vejo que hoje, em Taubaté, as pessoas estão pensando nisso como um possível mercado de trabalho, e há mais debates para tornar essa expressão cultural viável, para que não acabe. O rap do Vale do Paraíba, principalmente, tem muito esse anseio de vencer aqui. A gente não precisa abandonar o lugar onde a gente cria a nossa arte”, conclui.
Tempo circular
Nem passado, nem presente, nem futuro. A circularidade do tempo, herança da cultura de povos indígenas e afro-brasileiros que formam a história de Taubaté, indicam outro pensamento sobre a natureza da vida-morte-vida. É nesse tempo em contínua transformação que habitam as criações do artista visual autodidata Fernando Bispo, que se mudou de São Paulo para o município aos sete anos de idade. Primo de segundo grau do artista Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), Bispo desenha personagens de outros planetas em cenários onde convivem com figuras que emulam as pinturas rupestres.
Em sua casa-ateliê, raio de bicicleta, retalho de batente de porta, latas, chaves, brinquedos, relógios, peças de computador, sapatos e outras peças descartadas servem de matéria-prima. Objetos cuja essência circular que define o reuso é traduzida em esculturas, quadros e móveis. Bispo também trabalha com arte naïf, retratando uma vida mais rural, lembranças que remontam principalmente à sua infância numa chácara em Taubaté.
Influenciado por artistas como Adão Silvério, Mestre Justino e Anderson Fabiano, Bispo enxerga outras vidas possíveis em objetos considerados obsoletos. “Esse trabalho me dá muita visão porque eu trabalho com madeira, tinta, plástico, peça de carro, peça de liquidificador, enceradeira… Então, tem muita imaginação”, conta. Aos 70 anos, já participou de diversas exposições coletivas e individuais em todo o país, e trabalhou como professor de arte em Cuiabá e em Taubaté. Mais do que provocar reações, Bispo busca instigar reflexões sobre seu trabalho. “A minha arte traz um pouco disso, de psicologia, de filosofia, desse entendimento de como nós estamos inseridos nessa loucura. ‘O que quer dizer esse sapato?’; ‘Será que existe extraterrestre?’. Eu tento mostrar para as pessoas que todo esse processo está dentro de cada um de nós e que elas podem colocá-lo para fora”, conclui.
Morada da imaginação e da criatividade que alimentam esses e outros artistas de diferentes linguagens e gerações, Taubaté reivindica um pertencimento que, para o pesquisador Pedro Rubim, não se explica com a razão. “Acho que todo mundo que trabalha em Taubaté como artista trabalha com um amor que você não consegue explicar de onde vem. Não é só um sentimento nativista, sabe? É algo que a cidade tem”, resume.
para ver no sesc / expansão
Abrem-se as cortinas!
Sesc Taubaté inaugura em abril novo edifício, que abriga teatro, espaço de alimentação e novos consultórios de odontologia
A primeira unidade do Sesc em Taubaté foi instalada em junho de 1948, em uma casa na rua Conselheiro Moreira de Barros e, curiosamente, seu gestor foi Nelson Freire Campello, pai da cantora Celly Campello (1942-2003), uma das precursoras do rock no Brasil. Até que, na década de 1980, o empresário Israel “Juca” Guinsburg liderou um movimento para a construção de uma sede em um terreno de 40 mil metros quadrados no bairro Esplanada Santa Terezinha. E, em 16 de abril de 1988, a nova sede do Sesc Taubaté foi inaugurada. Em contínuo aprimoramento, frente às necessidades do tempo, da região e da população, neste mês, o Sesc Taubaté inaugura um novo edifício, que passa a abrigar um Teatro com 255 lugares, cujo fundo do palco abre para a área externa e amplia a capacidade de público a fim de atender a programações como shows. Além disso, irá ampliar os espaços de alimentação e terá novos consultórios de odontologia.
“As novas instalações ampliam a capacidade de atendimento do Sesc Taubaté, permitindo uma variedade ainda maior de programações, notadamente no campo artístico, com a inauguração desse importante teatro. Teremos a possibilidade de circular uma pluralidade de apresentações cênicas, além de shows musicais de diferentes gêneros e estilos, democratizando o acesso à cultura não somente para os moradores dessa cidade, mas de outros municípios do Vale do Paraíba”, afirma o Diretor do Sesc São Paulo, Luiz Deoclecio Massaro Galina. O Diretor ressalta que a inauguração das novas instalações integra o Plano de Expansão do Sesc, que prevê a abertura de novas unidades na capital e no interior paulista, nos próximos anos. “Celebramos essa inauguração como uma oportunidade de reafirmar o compromisso da nossa entidade para com a promoção do bem-estar da população”, completa.
Espaço onde as mais diversas manifestações culturais da cidade se encontram, o Sesc Taubaté reserva para o fim de semana de 26 e 27/4 uma programação especial. Confira os detalhes, bem como horário de funcionamento da unidade em sescsp.org.br/taubate.
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