Professor das esquinas 

31/03/2025

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Em livros, canções e aulas públicas, o historiador Luiz Antonio Simas divaga sobre os encantos e os dilemas do Brasil (foto: Monica Ramalho)

POR RACHEL SCIRÉ

Leia a edição de ABRIL/25 da Revista E na íntegra

Luiz Antonio Simas se define como um sujeito assombrado pelo comum. É de sua janela, na zona Norte do Rio de Janeiro, e de um ambiente familiar marcado pelas religiosidades afro-brasileiras e pelo samba, que o historiador, escritor e compositor colhe poesia e filosofa sobre “brasilidades” em aulas, canções e mais de 25 obras publicadas. Entre elas, o Dicionário da história social do samba (2015), em parceria com Nei Lopes, premiado com o Jabuti de Não Ficção em 2016; Coisas nossas (2017), finalista na categoria Crônicas do Prêmio Jabuti 2018, e os recém-lançados Maldito invento dum baronete: Uma breve história do jogo do bicho (2024), e Bestiário brasileiro: monstros, visagens e assombrações (2024).  

A principal circunstância que determina a produção intelectual de Simas é ser neto da alagoana Haydeé da Silva Grosso, Mãe Deda, ialorixá iniciada na tradição do candomblé Nagô do Recife, o Xangô pernambucano. Em 1963, ela fundou em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, uma casa de santo que foi se transformando a partir do encontro com as macumbas cariocas. Já a mãe carnal de Simas foi iniciada na tradição da encantaria do Rio de Janeiro, por um sacerdote do Pará. “Os grandes esporros que tomei na infância foram dados por mortos ou encantados. Quem me dava bronca era o Caboclo Peri, da minha avó, o Caboclo Tupinambá, que viveu em 1565 e trabalhava com a minha tia, e o Caboclo Japetequara, da minha mãe, que é um encantado”, conta.   

Por isso, Simas pensa em seu trabalho como uma relação com os antepassados, com a cidade em que vive e com um Brasil marcado por horror e encanto. “O que eu faço, talvez, seja tentar construir uma certa memória urbana do Rio de Janeiro e de um país marcado por um ecossistema de sabenças encantadas muito bonitas”, afirma. Neste Encontros, o professor que gosta de contar história para crianças e adolescentes, e se diverte dando aula em botequins, reflete sobre a sua trajetória e fala sobre educação, escolas de samba, cultura afro-brasileira e futebol.  

CONTADOR DE HISTÓRIAS 
Eu não sou um escritor que dá aulas, sou um professor que escreve. Me sinto melhor como um contador de histórias. Se tenho alguma vocação, é dar aula. Cresci em uma família com poucos livros, fui o primeiro a entrar no Ensino Superior e nunca tive a menor intenção de fazer carreira acadêmica. Só na faculdade de história descobri que a minha família tinha historicidade, que era possível fazer história a partir do que me marcou na infância: a umbanda, o futebol, os candomblés, as escolas de samba. Mesmo com todos os perrengues, inclusive do ponto de vista financeiro, as dificuldades de sala de aula, a precarização da profissão, gosto do ambiente do colégio e de falar para criança e adolescente, porque eles têm curiosidade de escutar.   

AULAS PÚBLICAS  
O projeto de aulas na rua começou por conta de um coletivo de garotos da zona Norte do Rio de Janeiro, chamado Norte Comum, que não queria sair de seus bairros para ter uma vida cultural intensa. Assim como eles, eu moro na zona Norte, e a ideia foi ocupar os botequins para falar dos bairros em que eles estavam localizados. Isso a partir de uma ideia minha no texto “Ágoras cariocas”, publicado no livro Pedrinhas miudinhas: ensaios sobre ruas, aldeias e terreiros (2013), em que eu dizia que o botequim está para a cidade do Rio de Janeiro como a ágora estava para Atenas [Grécia], no período da democracia, como um espaço de debate público. Começou de forma incipiente e fugiu do nosso controle, cresceu.   

TERRITÓRIOS DA EDUCAÇÃO 
Depois, percebi que havia ali um caminho ligado à história pública, para uma difusão do conhecimento histórico. É interessantíssimo, porque a gente escolhe temáticas populares, relacionadas aos territórios. Já dei aula nos lugares mais inusitados que se possa imaginar: coreto, cemitério, terreiro de macumba, quadra de escola de samba, zona do meretrício, campo de futebol de terceira categoria… Eu me divirto muito! Essa proposta está inserida em uma reflexão vinculada à ideia de que educação e escolaridade não são sinônimos. O fenômeno educativo se manifesta cotidianamente, nas relações sociais, na praça, no baile, na igreja, no terreiro, no campo de futebol e, de vez em quando, até na escola.  

O professor Luiz Antônio Simas em aula pública sobre como a umbanda ajudou a criar o Réveillon do Rio de Janeiro, na calçada do Bar Madrid, zona norte da cidade (foto: Tânia Rêgo/Agência Brasi0.

AFRO-BRASIL  
A obrigatoriedade do ensino de história e cultura afro-brasileira, africana e indígena na educação básica é uma pauta fundamental. Professores e professoras vêm fazendo um trabalho extremamente corajoso, mas falta muito apoio e política pública para que esse ensino tenha mais consistência. Porque é um trabalho precarizado, a gente não tem descanso sabático – no meu caso, são 30 anos ininterruptos em sala de aula. Precisaríamos ter acesso a uma literatura atual e qualificada, e lidamos com uma dificuldade enorme que é o avanço de certo proselitismo, vinculado à intolerância religiosa e ao racismo religioso.  

OUTRAS EPISTEMOLOGIAS 
Por muito anos, trabalhei em Campo Grande, extremo oeste do Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, em um colégio em Ipanema, na zona Sul, frequentado pela elite, com turmas formadas majoritariamente por alunos brancos – em Campo Grande, a quase totalidade dos alunos era de negros. A rigor, eu tinha que trabalhar a mesma matéria nos dois lugares, mas enquanto o currículo me obrigava a passar três semanas falando sobre arte renascentista, não tinha uma mísera aula sobre arte africana, que abordasse, por exemplo, as máscaras de terracota e bronze de Ilé-Ifè, a arte mortuária dos Makonde, a filosofia dos Bakongo. E aí o aluno negro corria o risco de achar que foi só o branco quem produziu arte no mundo. Então, para o aluno branco, eu tinha que dizer o quão sofisticados eram os Bakongo, os Iorubá, os Jeje-Mahin, a arte marajoara, a filosofia daqueles povos do entroncamento do Níger com a Nigéria.   

ESCOLA DE SAMBA  
As escolas de samba são instituições criadas pela população afro-carioca no pós-abolição, em um contexto de reconfiguração de identidades e de sentidos coletivos de vida, de construção de sociabilidades urbanas e redes de proteção social. São instituições de vanguarda, da cultura negra do Rio de Janeiro que modelam instituições similares, porque é um fenômeno que se espalha.  As sociabilidades foram sendo construídas nas frestas de um processo de exclusão que é extremamente violento. Por isso, em geral, trabalhavam com temáticas vinculadas a um imaginário da cultura oficial branca. Era uma maneira de construir certa legitimidade.  

SENTIDOS COLETIVOS  
Um desfile de escola de samba tem múltiplas gramáticas e camadas. A bateria da Portela foi batizada em 20 de janeiro de 1928, aqui no Rio de Janeiro é o dia do padroeiro, São Sebastião, sincretizado nas macumbas cariocas com Oxóssi, o caçador. Até hoje, o agueré de Oxóssi, que é o toque para esse orixá nos candomblés de Ketu, é base da batida de caixa da escola. A Portela pode estar contando a história de Dom Pedro I [1798-1834], para quem só tem repertório para entender o que é verbalizado no samba-enredo, mas quem entender os códigos daquela comunidade vai perceber que  a Portela está tocando para Oxóssi por uma hora e meia. O que mais me instiga é entender como são construídos sentidos de beleza surpreendentes a partir, especialmente, daquilo que Lélia Gonzalez [1935-1994] chamava de “cultura de festa” e da “dupla adequação”, em que brasileiros não brancos se apropriaram de um calendário eurocatólico e construíram sentidos coletivos de vida profundamente vinculados às experiências ancestrais africanas. A gente não tem que se perguntar por que tem tanto tema afro, mas por que não teve antes.   

SOBRE BRASILIDADES 
Quando eu falo em brasilidades, conceitualmente, eu me refiro a um campo simbólico em que são reconstruídos sentidos de vida às margens, negociando, resistindo a esse projeto de exclusão que funda a ideia de Brasil. Toda diáspora desagrega, estraçalha, sequestra a identidade, mas toda a cultura de diáspora opera na reinvenção daquilo que foi aniquilado. Por isso não existe cultura de diáspora que não seja fundamentada no sentido coletivo da vida, são culturas de terreiro.   

Quando eu falo em brasilidades, conceitualmente, eu me refiro a um campo simbólico em que são reconstruídos sentidos de vida às margens, negociando, resistindo a esse projeto de exclusão que funda a ideia de Brasil.

FACE CRONISTA  
A cidade, as pessoas, as sociabilidades que me interessam não são as dos salões. Não tenho o menor interesse em requintes, instituições, palácios. Sou um sujeito fascinado pelas sociabilidades construídas na minha esquina. Parece um paradoxo, mas já me defini como um sujeito assombrado pelo comum. O extraordinário não me causa lá grandes atrações, mas o corriqueiro, o amiudamento, aquele sentido de vida que está acontecendo, onde a priori, a morte devia imperar. Quero tentar entender como, espantosamente, às margens de um projeto de horror e morte foram construídos sentidos bonitos de vida.  

DRIBLAR ADVERSIDADES  
Em um país fundado dentro de uma lógica de exclusão e violência, o esporte e a música popular foram raros campos onde houve possibilidade de ascensão para as comunidades não brancas. Isso já torna o futebol e a música popular extremamente relevantes para se pensar o Brasil. Ao mesmo tempo, futebol é um sintoma do problema brasileiro, ali você vai encontrar a beleza, o horror, o racismo, as soluções inusitadas para a vida que se expressam no drible, porque nós criamos uma maneira de jogar futebol – que talvez esteja se perdendo. O nosso futebol opera na ocupação do vazio, como a síncope do samba. Ir aonde o seu oponente não te alcança, mais do que uma jogada de futebol, é uma perspectiva de vida. 

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